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DEBORAH KERR (1921 - 2007)
Partilhou com Burt Lancaster um beijo célebre em «Até à Eternidade», e com Yul Brynner uma dança inesquecível em «O Rei e Eu». Entre os mais de 50 filmes que protagonizou, um era dos mais belos de sempre: «Black Narcissus».
Comentário de João Lopes
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Trabalhou com os maiores actores e realizadores do seu tempo, em alguns dos melhores filmes de sempre. Foi um exemplo de talento, beleza, classe, profissionalismo, inteligência e carisma, a quem nunca se conheceram escândalos. Aos 86 anos, desapareceu uma das grandes senhoras do cinema: DEBORAH KERR.
As notícias que dão conta da morte de Deborah Kerr na terça-feira em Suffolk, na Inglaterra, para onde regressou para ficar junto da sua família depois de muitos anos a viver na Suíça, quando a sua doença piorou (sofria há mais de uma década de Parkinson), referem que será recordada para a posteridade pela sua interpretação em «From Here to Eternity/Até à Eternidade» (1953, Fred Zinnemann, Oscar de Melhor Filme). É a última de uma série de injustiças feitas a uma das grandes senhoras da história do cinema, reconhecida, como lembrou Glenn Close na introdução ao seu Oscar honorário em 1994, por interpretar "senhoras gentis e ocasionalmente senhoras não tão gentis... mas sempre uma senhora". De facto, a verdade é que na fase mais intensiva da sua carreira, que vai de 1943 a 1961, estão filmes extraordinários, incontornáveis para qualquer apreciador de bom cinema.
Deborah Jane Kerr-Trimmer nasceu a 30 de Setembro de 1921, em Helensburgh (Escócia) e começou por estudar ballet, mas concluiu que era demasiado alta e depressa mudou para a representação. Trabalhou em pequenas companhias de teatro até estas serem encerradas por causa do início da Segunda Guerra Mundial. O produtor Gabriel Pascal reparou nela num restaurante e colocou-a em dois dos seus filmes: em «Major Barbara» (1941) repetiu o papel que interpretara nos palcos na peça de George Bernard Shaw, e foi uma trágica namorada em «Love on the Dole» (realizado por John Baxter). No ano seguinte, ao mesmo tempo que lia histórias infantis na BBC, era já protagonista em dois filmes de Lance Comfort, «Penn of Pennsylvania/Penn, o Fundador da Pensilvânia» e «Hatter`s Castle/O Castelo do Homem sem Alma», este último ao lado de Robert Newton e James Mason.
Foi sob a orientação de Michael Powell, que lhe dera uma primeira participação de duas linhas não creditada em «Contraband», que ficou de fora na sala de montagem, que verdadeiramente começou a sua carreira. Tudo graças a «The Life and Death of Colonel Blimp/A Vida do Coronel Blimp», realizado pela dupla Powell-Emeric Pressburger, onde interpretava três personagens distintas que acompanham a personagem principal em outras tantas fases da sua vida.
Cada vez mais solicitada, o delicioso «Perfect Strangers/Férias de Casamento» (1945, Alexander Korda, com Robert Donat) e o surpreendente «I See a Dark Stranger/A Espia da Irlanda» (1946, Frank Launder) antecedem novo filme de Powell-Pressburger, o glorioso «Black Narcissus/Quando os Sinos Dobram» (1947), sobre a vida de um grupo de freiras nos Himalaias. Apesar de ser descrito pela Liga Nacional da Decência nos Estados Unidos da época como "uma afronta à religião e à vida religiosa", o filme abriu-lhe as portas de Hollywood através dos estúdios da MGM. Depois de contracenar com Clark Gable em «The Hucksters/Traficante de Ilusões» (1946, Jack Conway), o papel de sofrida esposa de Spencer Tracy em «Meu Filho Eduardo», de George Cukor, vale-lhe a primeira das seis nomeações ao Oscar. Nunca o ganhou.
Na meca do Cinema, as suas interpretações subtis e desprovidas de exibicionismo ou artifícios pareciam surgir naturalmente, tornando-a uma estrela discreta e injustamente subvalorizada. Como referiu o crítico Leonard Maltin, "nunca teve uma má interpretação" e era adorada e respeitada nos sets ou nos palcos da Broadway por ser "descomplicada": "Nunca tive uma disputa com nenhum realizador, bom ou mau. Existe sempre uma maneira de contornar tudo se se for inteligente o suficiente".
Infelizmente, cola-se à actriz uma imagem e será frequentemente a sofisticada, adorável, refinada, mas também decorativa, reprimida e sofredora senhora de classe alta. Fez de "freiras a ninfomaníacas", mas nem sempre foi assim... no início dos anos 50, vêmo-la em personagens que reproduzem a persona inglesa (que afinal era escocesa) que o público descobrira e adorava, em filmes que foram (são) populares: «King Solomon`s Mines/As Minas do Rei Salomão» (1950, Compton Bennett e Andrew Marton), «Quo Vadis» (1951, Mervyn LeRoy), «The Prisoner of Zenda/O Prisioneiro de Zenda» (1952, Richard Thorpe), «Thunder in the East/Tempestade no Oriente» (1952, Charles Vidor), «Young Bess/Amor de Rainha» (1953, George Sidney), «Julius Caesar/Júlio César» (1953, Joseph L. Mankiewicz).
Por isso, foi um choque descobrir a "virgem britânica", como muitos a chamavam, no papel de esposa adúltera num dos mais sexualmente provocantes filmes da época: «Até à Eternidade». Era o que Kerr há muito desejava para fugir ao estereótipo que lhe limitava o talento e obteve a segunda nomeação ao Oscar. Para a dita eternidade fica, efectivamente, o inesquecível beijo orgásmico entre ela e Burt Lancaster numa praia do Havai, que reproduzimos na fotografia em cima. No mesmo ano, estreou-se na Broadway em «Tea and Sympathy/Chá e Simpatia», que levou depois em digressão por todo o país e recriou numa adaptação cinematográfica dirigida por Vincente Minnelli em 1956.
Depois de «Até à Eternidade», e apesar de na biografia de 1977 da autoria de Eric Braun ter referido que "a câmara parece encontrar sempre uma gentileza inata em mim", continuou imprevisível, umas vezes etérea, outras sugestiva, ou até ambas, em filmes que se tornaram clássicos: «O Fim da Aventura» (1955), «The King and I/O Rei e Eu» (1956, Walter Lang, terceira nomeação por um dos musicais mais famosos de sempre), «Bonjour tristesse/Bom Dia, Tristeza» (1958, Otto Preminger, um dos cinco filmes que fez com David Niven), «Separate Tables/Vidas Separadas» (1958, Delbert Mann, nomeação aos Oscars) e na extraordinária saga «The Sundowners/Três Vidas Errantes» (1960, novamente de Fred Zinnemann), onde teve uma das suas maiores interpretações... e a última nomeação aos Oscars.
Nesse filme, contracenava com Robert Mitchum, que antes de trabalhar com ela em «Heaven Knows, Mr. Allison/O Espírito e a Carne» (1957, John Huston, outra nomeação) temia que ela fosse a puritana que tantas vezes representara no grande ecrã. Acabou por encontrar uma parceira para vários filmes e uma amiga para toda a vida. «The Grass is Greener/Ele, Ela e o Marido» (1960, Stanley Donen) foi outro dos seus filmes em conjunto e a eles juntava-se Cary Grant, outro actor com quem Kerr formou um par de excelência em «Dream Wife/A Esposa Ideal» (1953, Sidney Sheldon) e num dos maiores melodramas de sempre: «An Affair to Remember/O Grande Amor da Minha Vida» (1957, Leo McCarey). Este é o filme em que Grant e Kerr combinam encontrar-se seis meses depois de acabarem um cruzeiro no topo do Empire State Building, caso ainda estejam apaixonados um pelo outro uma vez regressados ao "mundo real", e inspirou várias homenagens, as mais óbvias «Sleepless in Seattle/Sintonia do Amor» (1992, Nora Ephron) e «Before Sunrise/Antes do Amanhecer» (1995, Richard Linklater).
Nos anos 60, mudou-se para a Suíça e as presenças em cinema tornaram-se mais espaçadas. Porém, logo a seguir a «The Naked Edge/O Gume da Navalha» (1960, Michael Anderson, com Gary Cooper), interpreta Miss Giddens na perturbadora adaptação de «The Innocents/Os Inocentes» (1961, Jack Clayton), uma das mais sublimes interpretações dadas por uma actriz no grande ecrã. Continua a comandar atenções em «The Chalk Garden» (1964, Ronald Neame) e principalmente em «The Night of the Iguana/A Noite da Iguana» (1964, John Huston, com Richard Burton e Ava Gardner). A partir daí, com excepção de «The Gypsy Moths/Os Paraquedistas» (1968, John Frankenheimer, reencontro com Burt Lancaster), «The Arrangement/O Compromisso» (1969, Elia Kazan, com Kirk Douglas e Faye Dunaway) e uma inesperada presença burlesca em «Casino Royale» (1967, vários), os filmes não lhe fazem justiça. Decide retirar-se porque "era demasiado nova ou demasiado velha" para os papéis que lhe ofereciam, recusando vários argumentos que eram demasiado violentos ou explícitos: "Foi naquela época em que eles começaram com aquilo do `Agora toda a gente tem de tirar as suas roupas`. A minha opinião é que era completamente gratuito. Se fosse necessário para a história, tê-lo-ia feito".
Regressou aos palcos e dividiu-se entre os Alpes suíços e Marbelha, na Espanha, com o seu segundo marido, o escritor e argumentista Peter Viertel. Em 1984, conquista novos fans com o inesperado sucesso da mini-série «A Woman of Substance/Uma Mulher de Corpo Inteiro». A sua comovente presença na gala dos Oscars em 1994, já com a saúde em declínio, foi a sua despedida de Hollywood.
NUNO ANTUNES
19-10-2007 |
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João Lopes
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Uma cena intimista
Provavelmente, uma actriz (ou um actor) pode definir-se por uma cena. Para mim, pensar em Deborah Kerr é pensar em «An Affair to Remember/O Grande Amor da Minha Vida» (1957, Leo McCarey), mais concretamente na cena final (spoiler...) em que, num sofá, vai observando Cary Grant a deambular pelo seu apartamento, tentando perceber por que razão ela não apareceu ao encontro romântico que tinham marcado no topo do Empire State Building; paralisada por um acidente (ocorrido precisamente quando se dirigia para esse encontro), ela tenta esconder-lhe a sua situação...
É uma situação genuinamente melodramática: porque conhecemos o seu "segredo" brutal, mas também porque a cena propriamente dita conta a história da sua ocultação. Deborah Kerr representa-a contra o cliché que a levaria a sublinhar cada sobressalto, a exacerbar cada gesto — é desse intimismo contido que nasce a beleza radical dos acontecimentos.
Claro que nada disto é alheio ao contraponto subtil de Cary Grant, muito menos ao rigor classicista da mise en scène de Leo McCarey. Em todo o caso, também nada disto existiria sem o fluxo de ambivalências emocionais com que Deborah Kerr sabe contaminar a cena — nenhum efeito especial, a não ser as infinitas nuances do olhar e dos gestos, do corpo e da alma. Alma? Sim. Haverá melhor palavra?
J.L. |
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