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INGMAR BERGMAN (1918-2007)
O cinema da Suécia dos últimos 60 anos passa, directa e indirectamente, pelo seu trabalho: Ingmar Bergman foi um dos grandes mestres do cinema moderno, com os seus grandes filmes a confundirem-se com os melhores de toda a história do Cinema.
Comentário: João Lopes
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O cineasta INGMAR BERGMAN morreu aos 89 anos.
Como referiu o cineasta Fernando Lopes, "é como se me tivessem dito que a Suécia tinha desaparecido". De facto, Ingmar Bergman, que faleceu hoje "calma e docemente", nas palavras da filha Eva Bergman à agência noticiosa sueca TT, na ilha de Faaro (Gotland, Mar Báltico), confunde-se com aquele país escandinavo e o seu cinema desde os anos 40. Numa homenagem por altura do seu 70.º aniversário em 1988, Woody Allen descreveu-o como "provavelmente o maior artista do cinema, levando tudo em conta, desde a invenção da câmara de filmar".
Ernst Ingmar Bergman nasceu a 14 de Julho de 1918. Profundamente marcado por uma cruel disciplina e severa educação religiosa, cujos penosos detalhes foram descritos na autobiografia "Laterna Magica" (1987) e, de certa forma, no seu último filme, «Fanny och Alexander/Fanny e Alexandre» (1983). Foi introduzido ao cinema às escondidas pela sua avó e a fuga à realidade autoritária em que vivia surgia através do mundo de fantasia em que se refugiava, de tal forma que mais tarde levaria anos a distinguir os dois mundos, e o cineasta descreveu a sua vida como uma luta constante contra os seus demónios, o que se reflectia no seu trabalho.
Acabou por se afastar definitivamente dos seus pais aos 19 anos, ainda que mais tarde os procurasse entender: as suas vidas deram origem ao telefilme «Söndagsbarn/Crianças de Domingo» (1992), dirigido pelo seu filho Daniel Bergman, um dos nove que teve de cinco tumultuosos casamentos. Começou no cinema em 1942 como assistente de argumentista, assinando em 1944 o seu primeiro original («Hets») para o maior cineasta daquele tempo, Alf Sjoeberg, e que receberia o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes. Em 1945 realiza o seu primeiro filme, «Kris/Crise», e a partir daí mantém uma média de dois filmes por ano, conjugados com produções teatrais.
O cineasta despertou atenção fora das suas fronteiras com «Sommarnattens leende/Sorrisos de Uma Noite de Verão» em 1955, mas foi «Det sjunde inseglet/O Sétimo Selo» e «Smultronstället/Morangos Silvestres», dois anos mais tarde, que lhe deram aclamação a nível mundial junto da crítica e público. O primeiro, uma alegoria sobre os anos da Peste no século XIV, recebeu o Grande Prémio do Júri em Cannes e inclui uma das cenas mais famosas da história do cinema, a de um cavaleiro medieval (interpretado por Max Von Sydow, numa das 13 vezes que trabalharam juntos) a jogar xadrez com a morte. O segundo ganharia o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim e o Prémio da Crítica em Veneza.
Encenador e dramaturgo antes de entrar no cinema, acabou por reunir um reportório de actores que transitava de filme para filme: Max von Sydow, Erland Josephson, Gunnar Björnstrand, Bibi Andersson, Liv Ullmann e Ingrid Thulin, entre outros. Os filmes ajudaram o cunhar o que mais tarde se convencionou chamar "universo bergmaniano": «Ansiktet/O Rosto» (1958), «Nära livet/O Direito à Vida» (1958, Prémio de Realização em Cannes), «Jungfrukällan/A Fonte da Virgem» (1959, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, menção especial em Cannes), «Djävulens öga/O Olho do Diabo« (1960), «Såsom i en spegel/Em Busca da Verdade» (1962, segundo Oscar), «Nattvardsgästerna/Luz de Inverno» (1962), «Tystnaden/O Silêncio» (1963), «Persona/A Máscara» (1966), «A Hora do Lobo» (1968), «Skammen/A Vergonha» (1968) e «En Passion/A Paixão» (1969).
Em 1968, depois de uma época em que o realizador via os seus filmes a serem sistematicamente seleccionados para festivais e recolherem prémios atrás de prémios, a revista de cinema sueca "Chaplin" resolveu publicar um número "anti-Bergman". O próprio cineasta escreveu um dos textos críticos mais violentos, assinando-o como o "crítico francês Ernest Riffe". Depressa constou a verdadeira autoria, que ele negou com pouca convicção, admitindo as alegações mais tarde no livro de entrevistas "Bergman on Bergman", em 1970.
Nos anos 70, o prestígio cresceu com «Viskningar och rop/Lágrimas e Suspiros» (1972, Grande Prémio em Cannes), «Scener ur ett äktenskap/Cenas da Vida Conjugal» (1973), «Ansikte mot ansikte/Face a Face» (1976), «Das Schlangenei/O Ovo da Serpente» (1978) e «Höstsonaten/Sonata de Outono» (1978, nomeação pelo argumento), mas em 1976 tem lugar um dos episódios mais penosos da sua vida. Durante os ensaios de uma peça teatral, a polícia detém-o para investigação por invasão fiscal. Bergman, que deixara a gestão de todas as finanças nas mãos de um advogado, foi interrogado durante horas enquanto a sua casa era revistada. Após ser dispensado, foi proibido de deixar o país. O caso deu origem a um enorme escândalo na imprensa e o cineasta teve um esgotamento nervoso que o deixou de baixa durante mais de um mês. Mais tarde, viria a ser absolvido de todas as acusações, mas a experiência fê-lo exilar-se na Alemanha, para embaraço das autoridades suecas.
Regressaria a Estocolmo para filmar «Fanny e Alexandre», que proclamou ser a sua última película, e foi um triunfo coroado com quatro Oscars, incluindo o seu terceiro na categora de Melhor Filme Estrangeiro. Dedicou-se depois principalmente ao teatro e televisão, e escreveu argumentos que outros adaptaram ao cinema, ainda que o cineasta admitisse que sentia sempre a necessidade de realizar, mesmo não tendo planos para um novo filme. Na sua autobiografia de 1987, uma passagem refere: "Passaram sessenta anos, nada mudou, ainda é a mesma febre". O seu último, «Saraband», filmado já em alta definição inicialmente para televisão no Outono de 2002, mas que passou nas salas de cinema (incluindo em Portugal) cedendo a muitos pedidos, recuperava as duas personagens principais de «Cenas da Vida Conjugal».
Em 1995, após a morte da sua esposa Ingrid, com quem casara em 1971 após anos de relação extra-matrimonial, e finalmente alcançara alguma tranquilidade, Ingmar Bergman mudou-se definitivamente para a ilha de Faaro, que serviu de cenário para sete dos seus trabalhos e onde já passava temporadas desde os anos 60 e se realiza todos os verões, no início de Julho, uma celebração da sua vida e carreira. Tarkovsky, Woody Allen e Robert Altman, reconheciam a sua influência. Por seu lado, este aborrecia-se com Orson Welles e Godard, admitindo admiração por Spielberg, Scorsese, Coppola e Soderbergh.
O responsável por uma das grandes filmografias da história do cinema evitava ver os seus próprios filmes, porque isso o fazia sentir-se "deprimido e miserável".
30-07-2007
*****
* Fundação Ingmar Bergman;
* Senses of Cinema;
* Ingmar Bergman na Wikipedia (em inglês e francês). |
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João Lopes
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Na ausência de Bergman
Entrámos num luto magoado: estamos condenados a integrar a ideia de que passou a existir um cinema sem Bergman. Que é como quem diz: em filme ou em video, para cinema ou para a televisão, eventualmente para cinema e televisão, deixou de ser possível esperar um novo trabalho de Ingmar Bergman.
A perda é irreparável, mas a herança que fica para lidarmos com essa perda é imensa. Digamos que Bergman viveu a sua própria história do cinema, não para confirmar a dos outros, mas para elaborar uma arquitectura formal a que, em última instância, só ele próprio pode pertencer.
Reconhecemo-lo como mestre de todas as introspecções e desmontagens afectivas. Em todo o caso, a simples noção de "cinema psicológico" não basta (nem de longe nem de perto) para definir a singularidade do seu universo. Vale a pena, por isso, para além da continuada revisitação dos seus filmes, ler ou reler os seus escritos (nomeadamente a autobiografia, «Lanterna Mágica») e avaliar o sentido mais radical da sua démarche criativa: não uma mera ilustração de estados de alma, mas uma viagem acidentada e fascinante através dos seus próprios medos e fantasmas.
Desse radicalismo individual nasce também o imenso poder universal -- e universalista -- de Bergman. Afinal de contas, esta é uma obra assombrada por espelhos. Mas é preciso olhar, continuar a olhar.
J. L. |
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