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OSCARS: "Dreamgirls" com oito nomeações, mas não a de melhor filme
As nomeações foram anunciadas em Los Angeles. «Babel» parte na frente entre os cinco candidatos a Melhor Filme, mas a maior surpresa vem de «Dreamgirls», que apesar de oito nomeações, ficou fora dos prémios principais.
Comentário de João Lopes
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Às 5h38m30s, hora de Los Angeles (13h38 em Lisboa), Sid Ganis e Salma Hayek anunciaram as nomeações para a 79.ª Cerimónia dos Oscars.
Entre os filmes nomeados para o principal Oscar, «Babel» lidera com sete nomeações, seguido de «A Rainha» com seis, «The Departed: Entre Inimigos» cinco, com «Cartas de Iwo Jima» e «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» a terem quatro cada. É a primeira vez desde 1952 que nenhum dos nomeados tem mais de sete nomeações e confirma o que tem acontecido nas últimas semanas, em que os prémios não permitiram que nenhum filme se destacasse claramente para se posicionar na frente para o Oscar principal.
Todos apresentam fortes argumentos e ardentes defensores, mas também desvantagens na disputa. «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos», com um ascendente dentro da indústria cinematográfica que foi agora confirmado pelas nomeações, pode ganhar o Oscar sem sequer ter sido nomeado na realização (apenas aconteceu uma vez com «Miss Daisy», 1989)?
Pode «Cartas de Iwo Jima» ganhar sem ter sequer um dos seus actores nomeados (aconteceu sete vezes: «Asas», 1927, «A Oeste Nada de Novo», 1930, «Grande Hotel», 1932, «O Maior Espectáculo da Terra», 1952, «Gigi», 1958, «O Último Imperador», 1987, «Braveheart — O Desafio do Guerreiro», 1995, e «O Senhor dos Anéis — O Regresso do Rei», 2003)?
«Babel» é o principal nomeado, mas pode ser prejudicado pelo pouco rendimento nas bilheteiras (23,6 milhões de dólares até agora, quando o filme premiado com piores receitas, considerando a inflacção, foi «Colisão» com 54,6)?
«A Rainha» tem seis nomeações, mais do que se esperava, mas Michael Sheen ficar de fora pode limitar as suas chances?
E as hipóteses de «The Departed» esfriaram por apenas um dos actores ser nomeado?
As nomeações anunciadas em Los Angeles confirmaram algumas previsões, mas também ofereceram várias surpresas. «Dreamgirls», até há pouco tempo um dos principais favoritos para receber o maior número de nomeações e até ser o principal premiado, nem sequer foi nomeado para o Oscar de Melhor Filme, apesar de recolher o maior número de nomeações: oito, incluindo três para Melhor Canção; é a primeira vez na história dos Oscars em que o título com mais nomeações num ano não está entre no grupo de Melhor Filme. Em sua substituição, eis «Cartas de Iwo Jima», de Clint Eastwood, também nomeado como realizador, e não o que tinha mais perspectivas ainda antes da rodagem: «Flags of Our Fathers: As Bandeiras dos Nossos Pais.
Mark Wahlberg vê finalmente consagrado o seu percurso como actor ao ser nomeado por «The Departed: Entre Inimigos». Trata-se da única presença nomeado do elenco do filme: Jack Nicholson ficou de fora e, outra surpresa, Leonardo Di Caprio foi nomeado, mas por «Diamante de Sangue». Aliás, é a primeira vez na história dos Oscars que nenhum dos nomeados para o Oscar de Melhor Actor Principal é de um nomeado para Melhor Filme.
Outras surpresas, já que muitos desejavam mas poucos acreditavam ir acontecer: Paul Greengrass nomeado pela realização de «Voo 93». E «El Laberinto del Fauno» surpreende com seis nomeações, posicionando-se como o principal favorito ao Oscar do Melhor Filme Estrangeiro, onde a grande surpresa é a ausência de «Volver — Voltar» nos escolhidos.
Independentemente do que possa ser comentado entre hoje e 25 de Fevereiro, existem apenas três certezas: Ennio Morricone receberá um Oscar honorário, Helen Mirren tem tudo a seu favor para ser considerada a actriz do ano e o filme que receber o principal Oscar da noite não irá acumular muitos mais. Durante a cerimónia, as categorias a acompanhar com atenção para tentar desvendar esse premiado: melhor argumento original e melhor montagem.
23-01-2007
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MELHOR FILME
«Babel»
«Cartas de Iwo Jima»
«The Departed: Entre Inimigos»
«Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos»
«A Rainha»
MELHOR REALIZAÇÃO
Alejandro González Iñárritu («Babel»)
Clint Eastwood («Cartas de Iwo Jima»)
Martin Scorsese («The Departed»)
Stephen Frears («A Rainha»)
Paul Greengrass («Voo 93»)
MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Leonardo DiCaprio («Diamante de Sangue»)
Ryan Gosling («Half Nelson»)
Peter O`Toole («Venus»)
Will Smith («Em Busca da Felicidade»)
Forest Whitaker («O Último Rei da Escócia»)
MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Penelope Cruz («Volver — Voltar»)
Judi Dench («Notes on a Scandal»)
Helen Mirren («A Rainha»)
Meryl Streep («O Diabo Veste Prada»)
Kate Winslet («Pecados Íntimos»)
MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Alan Arkin («Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos»)
Jackie Earle Haley («Pecados Íntimos»)
Djimon Hounsou («Diamante de Sangue»)
Eddie Murphy («Dreamgirls»)
Mark Wahlberg («The Departed»)
MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Adriana Barraza («Babel»)
Cate Blanchett («Notes on a Scandal»)
Abigail Breslin («Uma Família à...»)
Jennifer Hudson («Dreamgirls»)
Rinko Kikuchi («Babel»)
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
«Carros»
«Happy Feet»
«A Casa Fantasma»
MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
«Babel»
«Cartas de Iwo Jima»
«Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos»
«El Laberinto del Fauno»
«A Rainha»
MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
«Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão»
«Os Filhos do Homem»
«The Departed: Entre Inimigos»
«Pecados Íntimos»
«Notes on a Scandal»
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA»
«After the Wedding» (Dinamarca)
«Água» (Canadá)
«El Laberinto del Fauno» (México)
«Das Leben der Anderen» (Alemanha)
«Indigènes» (França)
MELHOR DIRECÇÃO ARTÍSTICA
«Dreamgirls»
«The Good Shepherd»
«El Laberinto del Fauno»
«Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto»
«O Terceiro Passo»
MELHOR FOTOGRAFIA
«A Dália Negra»
«Os Filhos do Homem»
«O Ilusionista»
«El Laberinto del Fauno»
«O Terceiro Passo»
MELHOR MONTAGEM
«Babel»
«Diamante de Sangue»
«Os Filhos do Homem»
«The Departed: Entre Inimigos»
«Voo 93»
MELHOR GUARDA-ROUPA
«Curse of the Golden Flower»
«O Diabo Veste Prada»
«Dreamgirls»
«Marie Antoinette»
«A Rainha»
MELHOR BANDA SONORA
«Babel»
«The Good German»
«Notes on a Scandal»
«El Laberinto del Fauno»
«A Rainha»
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"I Need to Wake Up" - «Uma Verdade Inconveniente»
"Listen" - «Dreamgirls»
"Love You I Do" - «Dreamgirls»
"Our Town" - «Carros»
"Patience" - «Dreamgirls»
MELHOR CARACTERIZAÇÃO
«Apocalypto»
«Click»
«El Laberinto del Fauno»
MELHOR MONTAGEM DE SOM
«Apocalypto»
«Diamante de Sangue»
«Flags of Our Fathers: As Bandeiras dos Nossos Pais
«Cartas de Iwo Jima»
«Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto»
MELHOR SOM
«Apocalypto»
«Diamante de Sangue»
«Dreamgirls»
«Flags of Our Fathers: As Bandeiras dos Nossos Pais
«Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto»
MELHORES EFEITOS VISUAIS
«Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto»
«Poseidon»
«Super-Homem: O Regresso»
MELHOR DOCUMENTÁRIO
«Deliver Us From Evil»
«Iraq in Fragments»
«Jesus Camp»
«My Country, My Country»
«Uma Verdade Inconveniente»
MELHOR DOCUMENTÁRIO / CURTA-METRAGEM
«The Blood of Yingzhou District»
«Recycled Life»
«Rehearsing a Dream»
«Two Hands»
MELHOR CURTA-METRAGEM / ANIMAÇÃO
«The Danish Poet»
«Lifted»
«The Little Matchgirl»
«Maestro»
«No Time For Nuts»
MELHOR CURTA-METRAGEM / ACÇÃO REAL
«Binta Y La Gran Idea»
«Éramos Pocos»
«Helmer & Son»
«The Saviour»
«West Bank Story»
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João Lopes
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Hollywood e o resto do mundo
Frequentemente, por boas e más razões, com justificação ou por mera especulação "mediática", fala-se dessa clivagem que atingiria o cinema americano no seu cerne: de um lado os filmes dos grandes estúdios (os mais caros); do outro os "independentes" (supostamente fabricados com muito menos recursos). De facto, as coisas estão longe de ser tão simples e, se outras razões não houvesse, os Oscars há muito ajudaram a esclarecer o relativismo de tais conceitos — foi em 1997, com a vitória de «O Paciente Inglês», filme de gestação "independente" no qual se tinham gasto cerca de 30 milhões de dólares (sem contar com o preço de uma muito elaborada campanha promocional).
Isto para sublinhar que, dez anos depois, os "independentes" conseguem a proeza de colocar entre os cinco nomeados para a estatueta mais ambicionada esse objecto singularíssimo que é «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» que (este sim...) tem um orçamento típico daquilo que é uma produção com limites bem claros. Ou seja: 8 milhões de dólares, provavelmente o mesmo que foi gasto em transportes e refeições na produção de qualquer um dos blockbusters do ano.
A questão não está, repare-se, em justificar nomeações ou prémios em função de custos de filmes. Já basta a avalancha de comentários em tom "eu acho que devia ganhar..." (como se tentar compreender as dinâmicas dos prémios da maior indústria de cinema do mundo se reduzisse ao exercício narcisista de saber se as escolhas da Academia "confirmam" o ponto de vista seja de quem for...).
A questão está, isso sim, em perceber os equívocos dessa imagem tão fácil que nos quer fazer ver uma indústria made in USA atolada em efeitos especiais e produções de mais de 200 milhões de dólares... Infelizmente, continua a haver formas de jornalismo que sustentam essa visão (?), do mesmo modo que continua a haver espectadores que consideram que um "bom" discurso crítico é aquele que confirma números de bilheteira.
A questão, enfim, tem a ver com o facto de Hollywood escolher uma motivadora diversidade. Repare-se no leque dos cinco candidatos principais:
— uma coprodução México/EUA reunindo actores, e histórias, de vários continentes («Babel»);
— um filme genuinamente americano, embora quase integralmente falado em japonês(«Cartas de Iwo Jima»); — uma reconversão moderna do thriller, um dos géneros clássicos mais populares(«Entre Inimigos»);
— uma aposta na reinvenção (melo)dramática da tradicional comédia familiar («Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos»);
— um exemplo de produção britânica, desde sempre vital na dinâmica interna de Hollywood («A Rainha»).
Claro que cada um de nós tem os seus "eleitos" e os seus "vencedores" — é humano que assim seja. Mas vale a pena dizer que, uma vez mais, os Oscars são um espelho incompleto, ambíguo, mas interessantíssimo, do presente de Hollywood — e, mais do que isso, das suas relações (práticas ou simbólicas) com o resto do mundo.
J. L. |
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