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Assalto e Intromissão
Título original: Breaking and Entering
Título (Brasil):
Realização: Anthony Minghella
Intérpretes: Jude Law, Juliette Binoche, Robin Wright Penn, Rafi Gavron, Martin Freeman, Ray Winstone, Vera Farmiga, Poppy Roger
Grã-Bretanha/Estados Unidos, 2006
Estreia: 18 de Janeiro de 2007
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Will e o seu amigo Sandy gerem um bem sucedido gabinete de arquitectura paisagista que recentemente se mudou para King´s Cross, o mais ambicioso e renovado centro urbano europeu. O seu estúdio de trabalho atrai constantemente a atenção de um gang local de ladrões e Will, farto de ser assaltado, persegue um dos jovens elementos do gang, Miro, até à casa onde vive com a sua mãe, Amira, uma refugiada da Bósnia.
Will torna-se amigo de Amina de forma a investigar o assalto, mas a sua amizade toma um sentido diferente.
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* Anthony Minghella, Jude Law, Juliette Binoche e Robin Wright Penn no CINEMA2000. |
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João Lopes
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Este texto foi publicado na revista «6ª»/Diário de Notícias (19 Jam. 2007), com o título ‘Aqui e algures’
Como vemos – ou como nos dão a ver – a Europa? A pergunta, como se compreenderá, afecta muitas zonas da comunicação contemporânea. Da cena política aos noticiários televisivos, dos jogos de futebol aos artifícios do mundo da moda, somos diariamente confrontados com imagens e mensagens que, de uma maneira ou de outra, nos apresentam alguma “Europa” – e, como é óbvio, as diferentes visões não coincidem, por vezes são mesmo contraditórias e inconciliáveis.
«Assalto e Intromissão», no original «Breaking and Entering» (aleluia: um título português sem receio de respeitar o sentido do original), é um filme que nos introduz de forma inesperada, subtil e comovente na Europa que não faz as manchetes dos telejornais, ou que só lá chega de forma manqiueísta e redutora. É uma Europa que se revela sem que as personagens que nos lançam na história saiam do seu próprio habitat.
Mais concretamente, aqui se conta a história de um arquitecto londrino, Will (Jude Law), cujo novo atelier é assaltado por um jovem, Miro (Rafi Gavron). Envolvido na tentativa de perceber a origem do golpe de Miro, Will vai entrar numa vertigem de factos e suposições que, de uma só vez, o confrontam com a crise da sua relação com Liv (Robin Wright Penn) e também com a história dramática de Miro e da sua mãe, Amira (Juliette Binoche). Acontece que Miro e Amira são de Sarajevo, de onde saíram para fugir à guerra – subitamente, eles são a Europa distante que Will desconhece e que, afinal, está ali mesmo, nas ruas e nas casas do seu quotidiano.
Conseguir fazer pensar este sentimento de proximidade e distância – esta sensação de que o nosso aqui remete sempre para algum algures – não seria tarefa fácil. Sobretudo quando se aposta em fazê-lo, não a partir de um dispositivo simplista em que cada “personagem” representa um “mundo”, mas mostrando como cada ser humano se faz tanto do que lhe é próximo como de tudo aquilo que, pela distância física ou cultural, pode parecer tão estranho e indecifrável.
«Assalto e Intromissão» é, afinal, um filme que revaloriza o melodrama como género específico em que podemos aceder a todas as relações afectivas como relações também subtilmente (por vezes, dolorosamente) políticas. Na dupla qualidade de argumentista e realizador, Anthony Minghella reencontra, assim, o modelo de inspiração que está na base dos seus melhores filmes, em particular «O Paciente Inglês» (1996) e «O Talentoso Mr. Ripley» (1999). Minghella consegue, em particular, superar os equívocos da “superprodução” tão drasticamente patentes no seu anterior «Cold Mountain» (2003), com Nicole Kidman e Jude Law.
Talvez seja importante referir que, na produção de «Assalto e Intromissão», está envolvida a Mirage, empresa do cineasta Sydney Pollack (citado na ficha técnica na qualidade de produtor). Afinal de contas, Pollack , autor de títulos emblemáticos como «A Flor à Beira do Pântano» (1966), «O Nosso Amor de Ontem» (1973) ou «África Minha» (1985), é um dos mais legítimos herdeiros da tradição clássica do melodrama. Ponto nuclear dessa tradição: o investimento no trabalho dos actores como matéria decisiva da encenação do factor humano. Lembremos apenas que Jude Law é brilhante na representação de um desespero paradoxalmente criativo e que Juliette Binoche e Robin Wright Penn são sublimes: a primeira experimentando até ao limite a sua capacidade de transfiguração; a segunda, com a neutralidade de sempre, apenas confirmando que é uma das maiores actrizes da sua geração. |
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Carlos Ferro |
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Breaking and Entering é a mais recente obra de Anthony Minghella, realizador de filmes como The English Patient, The Talented Mr. Ripley e, mais recentemente, Cold Mountain. É também o seu primeiro filme a ser baseado num Argumento Original desde Truly, Madly, Deeply, e mais uma vez comprova a importância que dedica às suas personagens, à exploração dos seus sentimentos e à sua complexidade interior. Como em outras obras do realizador, não existem padrões formais para a caracterização das suas personagens, não existem bons ou maus, o seu mundo não é preto ou branco, mas pincelado de uma série de tons de cinzento. É nesta riqueza e complexidade que reside o grande trunfo de Breaking and Entering, apesar de pecar um pouco na fluidez da narrativa e na sequência dos acontecimentos.
Situado na actualidade, a narrativa explora a problemática relação de Will com a sua mulher Liv e a sua filha adoptiva, Beatrice. Will é um arquitecto de sucesso que acaba de inaugurar o seu novo atelier em King´s Cross, uma das áreas mais problemáticas de Londres, onde é responsável por um grande projecto de requalificação da zona. O seu casamento há muito que se encontra em crise, em parte por culpa de um afastamento gradual do casal e em parte pelo comportamento problemático da filha, uma criança hiperactiva que passa noites a fio sem dormir. Quando num assalto ao seu atelier um computador portátil é roubado, cruzam-se vidas e despoletam-se acontecimentos que ninguém poderia adivinhar.
Breaking and Entering é sobretudo uma história sobre a solidão e a incompreensão na sociedade actual. Apesar de terem tudo e todas as oportunidades para serem felizes, Will e Liv vivem solitários e infelizes. De costas voltadas para Will, Liv dedica todo o seu tempo à filha, não lhe restando qualquer tempo para dedicar a um casamento vazio. Will por seu lado tenta compensar a sua falta de amor num trabalho, que de criativo, revela apenas a frieza que preenche o seu coração. Preso a um casamento e a uma filha que não é sua, Will sabe que existe um circulo intransponivel entre mãe e filha no qual ele nunca poderá penetrar. Mas esta é também uma história de desintegração e segregação, um retrato cruel dos ghettos urbanos modernos. Amira, uma mulher sofrida e desgastada por uma guerra civil que lhe roubou o marido, a família e o país tem o seu único conforto no filho que não consegue controlar. Vive em Londres para onde escapou de uma guerra sem sentido para também ela encontrar uma vida sem futuro, sobrevivendo de trabalhos de costura que consegue arranjar. Quando o seu caminho se cruza com o de Will, apesar da teia de enganos e mentiras que se ergue entre eles, surge-nos por momentos uma mulher feliz e um retrato daquilo que poderia ter sido. Mas a história de Amira não é uma história fácil, e como tal, dificilmente poderá ser uma história feliz.
O filme tem um ritmo muito próprio, característico de Minghella, no qual, os actores se podem revelar. Jude Law revela mais uma vez porque é um dos actores mais requisitados do momento, mas a grande luz do filme reside nas interpretações femininas. Almodóvar é considerado o realizador das mulheres, mas Minghella não lhe fica atrás. Neste filme há espaço para Robin Wright Penn se revelar e nos dar a conhecer a dor e solidão de uma mulher perdida para ela própria e para a vida numa interpretação contida, mas também para Juliette Binoche transmitir de forma marcante o que é uma mulher perdida num país e numa sociedade que não é a sua. Num certo ponto estas duas mulheres estão irremediavelmente ligadas, seja pelo amor incondicional aos seus filhos, pelo elo que representa Will, e sobretudo por na sua solidão residir a sua grande incapacidade de se sentirem completas. Quando numa das cenas finais as duas mulheres se encontram e se olham, não é conflito ou raiva que surge, é sobretudo compreensão e um entendimento próprio que ambas emitem. Breaking and Entering não é um filme perfeito, mas é um espelho das relações humanas e um reflexo da nossa sociedade.
O melhor: Juliette Binoche e Robin Wright Penn; as personagens, extraordinariamente humanas nas suas qualidades, defeitos e autenticidade.
O pior: É um filme que necessitava de mais tempo para definir o seu final. A sua conclusão aparece um pouco repentina demais e o conflito entre Will e Amira deveria ter sido um pouco mais trabalhado e desenvolvido.
Carlos Ferro
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O TALENTOSO MR. MINGHELLA
Realizador que se distinguiu, sobretudo, por "O Paciente Inglês", que apesar de interessante é dos filmes mais sobrevalorizados da década de 90, o britânico Anthony Minghella investiu, nos dois títulos seguintes - "O Talentoso Mr. Ripley" e "Cold Mountain" -, nos mesmos traços que o levaram à fama.
Mantendo um estilo elegante e polido, com um requinte técnico que por vezes, de tão ambicioso (ou mesmo pomposo), caía no academismo, regressa agora com uma obra mais discreta, ainda que a sofisticação formal continue presente.
Em "Assalto e Intromissão" (Breaking and Entering) o cineasta afasta-se dos domínios do filme de época (tanto da vertente thriller como da épica) para se ambientar na Londres actual, em particular em King`s Cross, bairro caracterizado por um melting pot étnico que acolhe aqui o recém-inaugurado atelier de um jovem arquitecto e do seu sócio.
Parte de um projecto de reestruturação e requalificação da zona, esta nova infra-estrutura acaba por ser alvo de recorrentes assaltos, o que leva um dos proprietários a investigar a origem dos roubos. Tal atitude traz-lhe, no entanto, mais problemas, uma vez que o envolve em peripécias que colocarão em causa a coesão da sua família, já por si frágil devido às barreiras que se colocam entre si, a sua companheira e a sua enteada.
Drama urbano com ressonâncias sociais, "Assalto e Intromissão" sai-se melhor quando se agarra às contrariedades e inquietações da vida conjugal do que na exploração dos contrastes culturais que influenciam as relações das suas personagens. Isto porque, num filme onde há figuras de origens tão díspares (ocidentais, muçulmanas, bósnias, africanas, da Europa de leste), Minghella nem sempre é capaz de desenvolver um retrato que ultrapasse a caricatura. As intenções, por si só, não bastam, e o realizador secundariza questões que pediam maior complexidade na abordagem.
Felizmente, "Assalto e Intromissão" compensa esta limitação com uma perspectiva adulta e tridimensional sobre os relacionamentos humanos, conseguindo mesmo duas ou três sequências de considerável vibração emocional.
Estas ocorrem sobretudo nas cenas com o casal interpretado por Robin Wright Penn e Jude Law, onde a tensão de um quotidiano dolente implode através de diálogos intensos que denunciam uma escrita apurada. É inevitável não destacar a entrega do duo, em especial a de Penn, com uma presença difícil e absorvente, simultaneamente apaziguada e à beira da combustão, num daqueles desempenhos cuja subtileza se arrisca a tornar-se memorável.
Juliette Binoche, no papel de imigrante muçulmana, exibe a solidez habitual mas a sua personagem torna-se irritante quando insiste na auto-comiseração, arriscando cair nos clichés de uma personagem terceiro-mundista genérica.
Mais conseguida, embora de menor impacto para a narrativa, é a prostituta interpretada por Vera Varmiga, responsável pelos momentos mais hilariantes do filme, outra presença forte de um elenco que inclui ainda Martin Freeman (da série "The Office") ou Ray Winstone.
"Assalto e Intromissão" pede por vezes demasiado ao espectador, como num final que se arrisca a colocar em causa a verossimilhança presente até então, mas o que lhe dá em troca compensa-o, casos da envolvente banda-sonora (uma improvável colaboração de Gabrile Yared com os Underworld), ou da fotografia de Benoit Delhomme, que aliada à segura realização ofecere alguns planos inspirados de uma Londres pouco vista.
A registar, também, a atmosfera apropriadamente lacónica mantida ao longo do filme, assim como a densidade emocional que Minghella consegue impor a uma obra que, mesmo hesitante e com arestas por polir, é uma recomendável adição à filmografia do realizador.
Gonçalo Sá
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BREAKING AND ENTERING
de Anthony Minghella
Apesar dos avisos em contrário, Will Francis (Jude Law, “The Holiday”), juntamente com o seu sócio Sandy (Martin Freeman, “Love Actually”), estabelecem a sua empresa de arquitectura paisagísticas, a Green Effect, em plena King’s Cross, uma área conhecida pela sua elevada taxa de crimes e prostituição, mas que é também o foco do seu projecto arquitectónico, que visa um rejuvenescimento da área através do redireccionamento de um canal. No plano pessoal, Will atravessa uma crise, marcada por um gradual afastamento da sua companheira, Liv (Robin Wright Penn, “A Home at the End of the World”), uma beleza escandinava que desistiu da sua carreira profissional para tomar conta da sua filha Bea (Poppy Rogers), uma adolescente autista obcecada por ginástica.
Pela quantidade de computadores e outro equipamento, o atelier de Will é a vítima perfeita para diversos assaltos. Primeiramente desconfia-se da equipa de limpeza do atelier, de origem africana, teoria que desagrada particularmente a Sandy, que se sente atraído por uma das empregadas. Numa noite de vigília, Will vê um adolescente, Miro (Rafi Gavron), a assaltar o atelier e segue-o até casa, onde ele vive com a mãe Amira (Juliette Binoche), uma costureira muçulmana de origem bósnia. No dia seguinte, na tentativa de obter informações sobre o adolescente, Will leva um casaco para Amira remendar. Entre os dois inicia-se uma relação marcada pelo engano.
“Breaking and Entering” poderia ser um filme sobre as relações inter-raciais, sobre o choque de classes, sobre a deslocalização, sobre o papel da arquitectura como reflexo do tecido social, sobre a fidelidade, sobre um sistema de justiça desigual, mas não chega a ser nada disso. É menos e, simultaneamente, é mais. “Breaking and Entering” é um filme sobre segundas oportunidades. A segunda oportunidade de um local, a segunda oportunidade de um país, a segunda oportunidade de um refugiado, a segunda oportunidade de o Ser Humano ser humano, a segunda oportunidade de um amor.
O argumento do próprio Minghella (“The English Patient” - 1996, “The Talented Mr. Ripley” - 1999, “Cold Mountain” - 2003) tenta gerir tudo isto, mas perde-se. Alguns detalhes que parecem de início ser importante acabam por revelar-se irrelevantes, as personagens que prometem complexidade acabam por revelar-se consideravelmente unidimensionais. Evitando a dificuldade da temática inter-cultural, ou o drama social sobre um bairro em transição, Mighella opta por se centrar no drama moral de um casal à beira da ruptura.
Will dá-se conta do vazia que é a sua vida, e do círculo entre mãe e filha do qual ele se sente sempre excluído. Esse desencanto contrasta com as emoções que ele reaviva com Amira, mas também ela tem um círculo ao qual ele não pertence. Juliette Binoche (que colaborou com Minghella em “The English Patient”) empresta à sua personagem a necessária gravidade, mas Jude Law parece incapaz de nos fazer entender a frieza de Will. Nos secundários destacam-se Ray Winstone no papel de detective e Vera Farmiga como uma filosófica prostituta (ambos colegas em “The Departed”). Num registo que lembra Heath Ledger, está o estreante Ravi Gavron, que sugiro manter debaixo de olho.
A fotografia em castanhos de Benoît Delhomme (“The Proposition”) embeleza demasiado um filme que se pedia mais arrojado. Mas Minghella parece optar pela simplificação.
Ainda assim, no campo das relações, são levantadas questões relevantes acerca do compromisso e do empenho, da vontade e da capacidade de combater a erosão provocada pelo quotidiano. Em “Breaking and Entering” os enganos são, sobretudo, emocionais. E o maior engano parece ser o de procurar o amor nos lugares errados. Ou seja, fora de nós mesmos.
RITA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/ |
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Pedro Fonseca |
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Filme igual a muitos outros. Problemas morais, crises matrimoniais, infidelidade, amor, miudos delinquentes mas que no fundo não são más pessoas... Enfim. Nada de novo. De registar apenas as boas interpretações e a razoável realização.
Classificação: 13
Pedro Fonseca
http://mundoemquevivemos.blogspot.com |
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