As Tartarugas Também Voam

Título original: Lakposhtha hâm parvaz mikonand /Turtles Can Fly
Título (Brasil):
Realização: Bahman Ghobadi
Intérpretes: Soran Ebrahim, Hirsh Feyssal, Avaz Latif, Saddam Hossein Feysal, Abdol Rahman Karim
Irão/Iraque/França, 2005
Estreia: 28 de Dezembro de 2006


João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Num campo de refugiados do Curdistão, entre o Iraque e a Turquia, os pobres tentam desesperadamente o dinheiro necessário para comprar uma antena parabólica de forma a assistirem às notícias internacionais sobre a iminente guerra que se avizinha. As crianças, marcadas pela guerra, mutiladas, órfãs, necessitadas, são as que mais sofrem, obrigadas a sobreviver em condições desumanas e a tornaram-se adultas à força independentemente da sua tenra idade.

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* Filmado em território iraquiano após a queda de Saddam Hussein, «As Tartarugas Também Voam» inclui muitos jovens não profissionais que já sofreram a dor na sua própria pele, representando experiências reais. Distinguido com os Prémios da Paz e Menção Especial do Júri (Festival Internacional de Berlim 2005), Concha de Ouro para Melhor Filme (Festival Internacional San Sebastian 2004), Prémio do Público (Festival de São Paulo 2004, Festival de Roterdão 2005), Prémio do Júri (Festival de Chicago 2005) e Golfinho de Ouro (Festroia 2005).

* Bahman Ghobadi no CINEMA2000.


João Lopes
Um retrato realista que nos chega da distância/proximidade do Irão contemporâneo — um filme, sobretudo, para sentirmos como todos os olhares são relativos e todos os olhares se fazem (ou podem fazer) da disponibilidade para acedermos aos olhares de outros.

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O texto que se segue foi publicado na revista «6ª» (Diário de Notícias, 29 Dez. 2006), com o título ‘Notícias do Irão’.

Com data de 2004, o filme iraniano «As Tartarugas Também Voam» é um daqueles objectos que nos chega com um atraso significativo (sobretudo se o avaliarmos pela lógica, e também pelos efeitos, do calendário internacional). Foi, aliás, durante os anos de 2004 e 2005 que acumulou diversos prémios internacionais, incluindo uma menção especial e o “Prémio da Paz” no Festival de Berlim (2005) e, entre nós, o Golfinho de Ouro de Tróia (2005).

Seja como for, e apesar do atraso, este é um daqueles lançamentos que importa saudar de forma muito particular. Estamos perante um daqueles objectos cuja virtude primeira se confunde com a sua capacidade de nos dar a ver uma realidade precisa – a vida de um campo de refugiados curdos, na fronteira Iraque/Turquia, nas vésperas da invasão americana pelas tropas dos EUA –, apostando em contrariar os muitos (e não são poucos) clichés iconográficos, ideológicos e, por vezes, morais que contaminam muitos aspectos da informação global, nomeadamente televisiva.

O argumentista e realizador Bahman Ghobadi centra-se, em particular, num grupo de crianças cuja tarefa quotidiana é a limpeza dos campos de minas que permanecem na região. Liderados pelo incrível Soran (Soran Ebrahim), especialista em ligar antenas de televisão de modo a que seja possível ver as imagens da invasão (talento que lhe vale a alcunha de “Parabólica”), essas crianças definem uma espécie de tribo gerada por um apocalipse que, quase todos, na sua imensa fragilidade, ignoram ou não compreendem.

Num tom de realismo desencantado próximo de «Um Tempo para Cavalos Bêbedos» (2000), também estreado entre nós, Ghobadi consegue a proeza de dar conta de uma conjuntura trágica sem nunca alienar uma dimensão simbólica e, se a palavra não suscitar equívocos neste contexto, poética – «As Tartarugas Também Voam» é, afinal, um filme sobre personagens empenhadas em conquistar a sua própria história.


almeida_rita@sapo.pt
AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM
de Bahman Ghobadi


Satellite (Soran Ebrahim), é um carismático jovem de 13 anos que vive num campo de refugiados Curdos, na fronteira entre a Turquia e o Iraque. A sua alcunha deriva do seu talento na instalação de antenas de televisão. Satellite é uma figura paternal para as restantes crianças do campo, supervisionando o seu trabalho na recolha de minas terrestres cuja venda garante o dinheiro para a sua difícil sobrevivência. As capacidade de Satellite e seus parcos conhecimentos de inglês são valorizados por toda a aldeia que anseia por notícias da iminente invasão do Iraque pelas tropas de George W. Bush. Satellite ouve falar de um rapaz capaz de prever o futuro, e é então que conhece Hengov (Hiresh Faysal Rahman), um rapaz sem braços que viaja com a sua bonita irmã Agrin (Avaz Latif) e o seu irmão mais novo Riga (Abdol Rahman Karim).

São estas as personagens de “As Tartarugas Também Voam”, crianças e adolescentes que parecem envelhecer perante os nossos olhos, vivendo quotidianamente uma trágica realidade, numa sociedade forçada por circunstâncias extrema, como símbolo da experiência de todos os refugiados, paralisados e, simultaneamente, impelidos pelos mesmo desespero. A excessiva actividade de Satellite parece ser aquilo que o protege de reflectir sobre a sua própria vida.

Durante anos os Curdos lutaram com a Turquia, o Iraque, o Irão e a Síria no sentido de definirem uma nação que todos os outros estados se recusam a reconhecer. Aqui, esperam ansiosamente pela chegada dos americanos e pela queda de Saddam Hussein, mas é bem possível que o seu futuro esteja fora do seu alcance. Perante a incerteza do seu destino, desenham-se dois caminhos. Ao optimismo irredutível de Satellite (representado pela colorida bicicleta que o acompanha), marcado pela coragem e por uma estranha sabedoria, opõe-se a alma ferida, atormentada e agonizante de Agrin.

Bahman Ghobadi (“Um Tempo Para Cavalos Bêbados”, 2000), ele próprio Curdo-Iraniano, utiliza imagens duras e cruas ao colocar caras na abstracção de que ouvimos falar de longe, mas em nenhum momento o seu intuito é chocar ou explorar o sofrimento humano. Neste retrato de miséria humana, onde a beleza e o horror se misturam de uma forma perturbante, não há lugar para a auto-comiseração. Ghobadi tem também o talento de encontrar humor no meio da desolação, tirando todo o partido da espontaneidade, autenticidade e força de um conjunto de actores não-profissinais, muitos dos quais reais refugiados e alguns deles com os corpos mutilados por minas terrestres. Outro dos méritos de Ghobadi é ter conseguido evitar uma abordagem política. Mas o sentimento final de desilusão não deixa de fazer pensar na utilização que os EUA fazem de quem lhes convém, para depois os largarem à sua sorte quando a sua utilidade termina.

Entre sofrimentos e profecias, a salvação deste inferno não é uma questão de fé. Nesta parte do mundo ainda não é possível um final feliz.


RITA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/


gonn1000@hotmail.com
A CIDADE DAS CRIANÇAS PERDIDAS

Do cinema iraniano recente têm chegado a Portugal sobretudo títulos de Abbas Kiarostami ("O Vento Levar-nos-á", "Dez"), mas do mesmo local há outros realizadores que importa conhecer, como Bahman Ghobadi, que tem em "As Tartarugas Também Voam" (Lakposhtha hâm parvaz mikonand) a sua terceira longa-metragem e a segunda a estrear por cá, depois de "Um Tempo para Cavalos Bêbedos".
Premiado nos festivais de Berlim, San Sebastian ou Festróia, entre outros, o filme concentra-se no quotidiano de um grupo de crianças do Curdistão que, pouco antes da invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, tentam preparar-se para o pior, uma vez que entre a população de refugiados na zona fronteiriça se pressente o desastre iminente.

Lideradas pelo precoce Soran, mais conhecido como Parabólica, passam os dias a limpar os campos de minas, uma das poucas tarefas que lhes proporciona alguma hipótese de subsistência. Parabólica, figura respeitável na região devido ao seu relativo domínio da língua inglesa e interesse pelas tecnologias, ameaça perder parte do seu carisma devido à chegada de Henkov, um lacónico rapaz sem braços cujas premonições o tornam alvo de atenção. Orfão e traumatizado pela guerra, o recém-chegado viaja com a sua irmã, a silenciosa Agrin, por quem Parabólica se interessa, e com um bebé praticamente cego.

Através da interacção destas personagens, "As Tartarugas Também Voam" traça uma perspectiva, por vezes esperançosa mas tendencialmente angustiante, das frágeis realidades vividas pelos refugiados de guerra, presos a uma vertigem constante devido a um apocalipse bélico que parece prestes a explodir.

Enquanto tal não acontece, acompanham as notícias emitidas pelos canais de televisão ocidentais, na tentiva de encontrar informações que lhes permitam antecipar os ataques, centrando especial atenção em George Bush, que Parabólica encara de forma reverencial (considerando-o a figura nuclear da nação que virá para os salvar, mas que indirecta - e ironicamente - será responsável por um nefasto incidente). Ainda acerca do impacto da televisão, uma das cenas mais bizarras é aquela em que um grupo de refugiados assiste, durante alguns segundos, a um canal de música, cujo visonamento é proibido na região.

Ghobadi proporciona um filme incisivo e comovente, distanciando-se de facilitismos dramáticos e gerando duas ou três sequências de tensão em bruto, apostando num arrepiante realismo pontuado por breves momentos ora bizarros ora poéticos.
Esta aspereza faz de "As Tartarugas Também Voam" uma obra muitas vezes difícil de suportar, mas é igualmente árduo não reconhecer a sua acutilância, pertinência e genuinidade. De resto, só a excelente direcção dos jovens actores, não-profissionais mas todos com interpretações de invejável espontaneidade (com destaque para Soran Ebrahim, no papel de Parabólica), já seria suficiente para aderir a esta inquietante experiência cinematográfica.

Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com/


jtrb79@hotmail.com
Menos reconhecido que Kiarostami ou Panahi, Bahman Ghobadi vê estreado em Portugal o seu segundo filme, depois de A Time For Drunken Horses. Drama pungente sobre uma infância em estado de sítio, Turtles Can Fly (título do ano) evita as armadilhas do miserabilismo bem ao jeito ocidental, optando por um retrato resiliente e negro de crianças à espera de um melhor futuro face a um passado de martírio. Começando nas vésperas da invasão americana do Iraque, e terminando com a chegada das tropas à terra das crianças-protagonistas (num majestoso plano final), o essencial desenrola-se no quotidiano feito de negócios de minas por explodir, armas para comprar, antenas parabólicas para saber as notícias; o absurdo surrealista atinge o climax com a visão da MTV em pleno Curdistão. Não há, em mais nenhum cinema mundial, quem consiga dirigir mais eficazmente crianças, seguríssimas num registo feito de realismo com máxima espontaneidade. Destaque, primeiramente, para "Satellite", menino que irá descobrir que há ilusões que só estão destinadas a esfumarem-se com o passar do tempo. Elipse sobre elipse, Turtles Can Fly é mais uma prova da maioridade do cinema iraniano, tantas, mas tantas vezes, confundido com pedantismo intelectual.

Tiago Ribeiro

www.miletalfilmes.blogspot.com


     
 

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