20,13

Título original: 20,13
Título (Brasil):
Realização: Joaquim Leitão
Intérpretes: Marco d’Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas
Portugal, 2006
Estreia: 21 de Dezembro de 2006


João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Norte de Moçambique, 24 de Dezembro de 1969: uma patrulha percorre a picada, de regresso ao aquartelamento, trazendo um prisioneiro. Percebe-se que estão fatigados, que avançam sob um calor sufocante, mas apesar disso, estugam o passo. E não é só por causa do perigo que estão ansiosos por voltar ao quartel, é também porque não é um dia qualquer: estamos nas vésperas de Natal e há festividades em perspectiva, para que não se sintam tanto as saudades. Uma farra, para iludir a tristeza de estar longe e, por umas horas, tentar esquecer a guerra, "contando" com a trégua tácita, normalmente respeitada no dia de Natal. Mas, desta vez, não será um dia tranquilo. E os primeiros sinais de tensão têm pouco a ver com a guerra.

*****

* Joaquim Leitão no CINEMA2000.


João Lopes
Depois de «Inferno» (1999), o produtor Tino Navarro e o realizador Joaquim Leitão regressam às memórias da Guerra Colonial portuguesa. Desta vez, o objectivo é traçar o quadro de uma série de acontecimentos, em particular durante uma noite, que reflectiriam os traumas do combate e, mais do que isso, os conflitos éticos e políticos entre um grupo de soldados.

Infelizmente, o filme cedo esbarra em duas ou três limitações fulcrais: uma inverosimilhança de ambientes que não se adequa ao projecto de natureza realista; uma definição algo maniqueísta das personagens; enfim, um sistema de relações dramáticas que tende a ser "demonstrativo", simplificando o factor humano. Fica o mérito de arriscar num território temático que não é fácil, porventura suscitando alguma reflexão ou debate público.


etrusca@gmail.com
Num país que mantêm uma relação amor-ódio com o seu cinema deveras peculiar, será curioso verificar como será recebido 20,13, o último filme de Joaquim Leitão que amanhã estreia nas salas portuguesas. Num país em que uma minoria sabe ver e apreciar obras de elevadíssima qualidade como Transe, e onde uma maioria de público acorre às salas para ver coisas como O crime do Padre Amaro, será curioso ver como é recebido um filme onde a qualidade existe mas onde também existe à partida uma clara intenção de chegar a muita gente.

20,13 – Purgatório é a segunda parte de uma “trilogia” do realizador sobre a Guerra Colonial. A primeira parte, Inferno, centrara-se num tempo posterior à guerra e, pelo que tenho lido, a terceira passar-se-á num tempo anterior. 20,13 decorre em plena guerra, mais precisamente na véspera de Natal de 1969, em Moçambique.
O trailer do filme, que me vou abster de comentar, coloca a tónica na questão das relações entre as personagens principais. Mas o filme é bem mais do que uma história de paixões. Aliás, o interesse crucial do filme é precisamente o retrato do quotidiano dos soldados, as conversas, as origens, as aspirações, o que os levou ali, o que os aguenta ali, as suas dúvidas, os seus medos. Nesse aspecto, o filme de Joaquim Leitão procura uma abordagem humana interessante, que certamente dirá muito à geração que viveu aquele tempo.
Como filme de guerra que é, há tiros, explosões, mortos e feridos, com cenas de combate bastante bem conseguidas.
Naturalmente, há ainda a tal questão dos amores e desamores, destacando-se a figura do Capitão (Adriano Carvalho), que é o destinatário dos desejos de Esperança (Carla Chambel), a esposa do médico (Ivo Canelas), mas ama Vicente (Angélico Vieira), o enfermeiro, estando contudo casado com Leonor (Maya Booth). Estes sentimentos irão chocar de forma determinante na véspera natalícia, articulando-se ainda com a chegada de um prisioneiro e com a figura do alferes Gaio (Marco d’Almeida, soberbo), homem que questiona as razões da guerra e as distinções entre inimigo e ser humano.

20,13 traz um pouco à mente os filmes de Oliver Stone, na procura de confrontar os Portugueses com um trauma ainda hoje bastante vivo, fazendo reviver um passado que está longe de ter esmorecido. A intenção de fazer um filme em que a guerra se mistura com o suspense é apelativa e os resultados são francamente satisfatórios.
Muito longe do vazio e do sensacionalismo de outros filmes nacionais de grande distribuição, 20,13 é uma obra que sabe conjugar muito bem todos os seus elementos, permitindo captar a atenção do espectador para o “quem matou” até ao final através de um clima de tensão crescente.
Pessoalmente, preferi a dimensão de retrato social de uma realidade e um meio (o militar), com a confrontação entre serviço à Nação e justiça, a exposição de desejos e tabus e os efeitos que tinham, os hábitos, diálogos, uniões e oposições.

20,13 é um filme que soube tirar partido dos meios com que foi feito. Não estarei certamente a cometer um erro ao chamá-lo de grande produção nacional. Joaquim Leitão conseguiu um filme bem equilibrado e interessante.
Estou curiosa quanto à sua recepção. Aconselho sem dúvida o seu visionamento, porque sou uma defensora de existência e promoção de cinema português, não apenas obras-primas cultuadas por alguns como de obras boas e medianas que tragam algo com amor e qualidade a muitos. Numa época natalícia de tão fracas estreias nos cinemas portugueses, 20,13 será das propostas mais relevantes, e ainda para mais, é um produto nacional.

Helena Ferreira
http://playthatmovieagain.blogspot.com (Play it Again)


gonn1000@hotmail.com
NOITE ESCURA

Segunda parte de uma trilogia dedicada à guerra colonial (a primeira foi "Inferno", de 1999), "20,13" decorre na véspera de Natal de 1969, num quartel de Moçambique, e centra-se nos acontecimentos de uma noite determinante para todos os soldados e restantes presentes no local.

À semelhança da maioria dos títulos da sua filmografia, Joaquim Leitão apresenta aqui uma obra que, contrariamente a algum cinema nacional, é feita a pensar no grande público, mas não deixa por isso de ser uma proposta que responde aos graus de exigência necessários para que se encontra aqui uma interessante experiência cinematográfica.

Interligando uma história marcada por algum suspense (há um assassinato cujo responsável só é revelado no final) e conturbadas relações amorosas com um olhar sobre o quotidiano dos recrutas da base militar, "20,13" oferece uma eficaz reflexão sobre a vida e convivência num quartel, assim como dos sacrifícios que os que aí se encontram estão dispostos - ou são obrigados - a fazer, onde persiste um forte sentimento de perda aliado a traços de esperança que se insinuam a espaços.

Do meio deste retrato de grupo emergem algumas figuras mais determinantes para a narrativa, casos do capitão Costa e do alferes Gaio, pólos opostos (ou, como o filme vai revelando, talvez nem tanto) devido às diferenças de posicionamento perante a guerra. O primeiro, austero e empenhado, defende os propósitos e interesses do regime sem hesitações; já o segundo adopta uma postura mais ambígua, cumprindo a sua missão sem falhas mas mantendo sempre reservas quanto ao conflito em que está envolvido.
A posição respeitável e sem manchas do capitão ameaça, no entanto, ficar comprometida devido à sua relação (naturalmente secreta) com um enfermeiro mais novo, sobretudo quando a sua esposa faz uma visita-surpresa ao quartel e, mais ainda, depois do jovem ser encontrado morto, vítima de homicídio.

Joaquim Leitão oferece uma obra sóbria, alternando com segurança cenas de acção com momentos mais apaziguados onde o combate é então verbal, em particular nas cenas de discussão conjugal.
O realismo surge como elemento sempre presente, auxiliado por um elenco coeso (Marco d`Almeida, no papel de Gaio, é exemplar e magnético) e por uma reconstituição histórica igualmente fulcral para que as peripécias sejam verosímeis. Não menos relevante é a banda-sonora, com destaque para as canções de José Afonso ("Menina dos Olhos Tristes") e Madalena Iglésias ("Ele e Ela"), ambas cantadas durante uma festa mas despoletando ressonâncias emocionais bem díspares em algumas personagens.

Nem tudo resulta, contudo, já que o mistério policial (de contornos bíblicos, tanto que o número de um dos versículos e capítulos até originou o título do filme) é mais previsível do que intrigante, sendo a última cena dispensável, uma vez que apenas reforça uma certeza que sequências anteriores já haviam confirmado.
Certas personagens ganhariam com um maior desenvolvimento (pelo menos as do médico e esposa), mas o retrato colectivo é bem conseguido e, mesmo nunca sendo genial, há que reconhecer que "20,13" é uma obra séria, inteligente e escorreita, características que poucos filmes portugueses estreados em 2006 podem orgulhar-se de possuir. Razões mais do que suficientes, então, para não deixar passar esta boa proposta, talvez a melhor de Joaquim Leitão.

Gonçalo Sá
http://www.gonn1000.blogspot.com/


pedro_castella11@hotmail.com
Um filme óptimo português, acho que cada filme que e feito, o cinema português evolui, dos dois últimos filmes português que vi " coisa ruim" e "Odete" senti uma grande diferença de um para o outro! E este filme 20,13, tem uma história perfeita, actores bons, e efeitos muito bons para um filme português! E acho que cada vez, estes filmes bons estão a tirar o "preconceito" que as pessoas têm com os filmes portugueses! Mas claro que este filme também tem falhas mas são poucas, e são coisas que temos que estar atentos para perceber, coisa que um apreciado de cinema como eu repara! Mas no fim orgulhei-me e senti-me bem em ter visto aquele filme! Ah! E finalmente conseguimos fazer um filme sem abordar o sexo coisa que já se tornava habito nos nossos filmes! Estamos num bom caminho!

Pedro Silva


guerra_p@gmail.com
Não é grande coisa, mas pelo menos não é o enésimo filme português sobre droga e piolheira, na imortal definição de VGM. Vamos ver em quantos tops internacionais entra essa `obra-prima` chamada `Juventude em marcha`...

Pedro Guerra


   
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Obrigado.

CINEMA2000


isabelnypt@yahoo.com
Uma obra dificil mas conseguida. Bom trabalho de actores. Mais um passo no cinema portugues. Parabens ao Joaquim Leitao.


Jeronimo luis
Mais um filme de TRETA sobre a Guerra do Ultramar !!!!!


     
 

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