O Perfume — História de um Assassino

Título original: Perfume: The Story of a Murderer
Título (Brasil): Perfume: A História de um Assassino
Realização: Tom Tykwer
Intérpretes: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Corinna Harfouch, Birgit Minichmayr
Alemanha/França/Espanha, 2006
Estreia: 9 de Novembro de 2006


João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Jean-Baptiste Grenouille nasce em circunstâncias pouco dignas, em 1738, no Mercado de Peixe de Paris. Em terna idade se apercebe de que é dotado de um olfacto bastante refinado. Na adolescência, e após conseguir sobreviver às criminosas condições de trabalho de uma tinturaria local, Grenouille inicia-se como aprendiz na perfumaria de Baldini. Rapidamente ultrapassa o mestre na arte de misturar essências, e estas tornam-se a sua obsessão - uma obsessão que o leva a afastar-se da companhia de outros seres humanos.

*****

* Baseado no best-seller mundial de Patrick Süskind.

* Tom Tykwer, Dustin Hoffman e Alan Rickman no CINEMA2000.


João Lopes
Publicado originalmente no "6ª" do Diário de Notícias de 10 de Novembro de 2006.

Perfume de “best-seller”

Nenhum livro é “bom” ou “mau” por ser um best-seller. Do mesmo modo, aliás, que o número de espectadores de um filme não serve de fundamento a qualquer juízo de valor que sobre ele possamos formular. Em todo o caso, parece haver um perverso efeito de arrastamento mediático gerado por algumas recentes adaptações de best-sellers. Lembremos o que aconteceu com «O Código DaVinci»: raras vezes um filme tão vulgar – no sentido que obedece a normas correntes de produção e narrativa – suscitou tamanha cobertura informativa. Porquê? Porque o impacto comercial do livro a isso “obrigava”.

«O Perfume – História de um Assassino», dirigido por Tom Tykwer a partir do best-seller de Patrick Süskind, é mais um filme que se insere nessa lógica. E com semelhanças que parecem fazer escola: por um lado, uma exploração formalista dos efeitos de “reconstituição” histórica, neste caso da França do século XVIII; por outro lado, a exploração de uma débil intriga “policial” que vai anulando todas as eventuais ressonâncias simbólicas. Dito de outro modo: esta é a história de um pária social, Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), cuja extrema sensibilidade aos odores o leva a conceber um perfume que, em última análise, o conduz a uma série de metódicos assassinatos... O filme reduz a personagem a mera caricatura do seu próprio “artesanato”, não conseguido elaborar um retrato psicológico nem sustentar qualquer visão minimamente consistente da época histórica.

Em boa verdade, estamos perante uma espécie de “ampliação” gratuita de uma ideia porventura sugestiva para um rápido anúncio de perfume. Tentar construir com tão pouco um filme, ainda por cima inconsciente dos seus excessos (dura quase duas horas e meia), é tarefa inglória.


lala
Parte do delicioso aroma do romance de Suskind prende-se com a prosa sugestiva e vertiginosa das experiências olfactivas do seu protagonista. Aqui, as suas palavras, na boca no narrador John Hurt são, em voz off, antes do mais muleta narrativa e só depois enfoque expressivo: enquadra acções mais do que as densifica.
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Alice Souza
É claro que em alguns aspectos o filme poderia ser melhor, mas há vários elementos que o tornam interessante e surpreendente (para quem não leu o livro).Por exemplo, o final.
E a fotografia do filme é realmente muito boa.


ea51@terra.com.br
Achei o filme sensacional,realmente otimo, acima da critica que muitos querem fazer a despeito de simplesmente criticar e não entyender o condeudo desta magnifica historia de ficção romantica.Esses que não apreciam o fime não estão capacitados para enteder sua magnitude,sua intensidade e cativação. Com certeza o melhor filme do ano.


   
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CINEMA2000


h.s.c@clix.pt
Sinceramente até gostei do filme, ao menos não é tão patético k o código Da Vinci k foi a desilusão completa. Só não percebo o porquê de tanta crítica se já sabem o que vão à prtida encontrar. Quando lemos qualquer livro, este nao é "imaginado" por nós? Porque é que ainda não se convenceram que os filmes adaptados serão sempre uma desilusão porque não é a nossa visão que está no ecrã? Tentei apenas apreciar o filme, descolando-se do livro, a maior parte das pessoas só vai ao cinema porque leu o livro e depois quer criticar porque a cena X não aconteceu assim ou porque o fulano tal devia ser mais bonito ou mais gordo ou porque as cenas em Paris são parecidas com o Oliver Twist...É dificil fugir a uma acepção que todos têm não? Relaxem e gozem o prazer de um filme e aceitem o bom e o mau.


davidmendes700@hotmail.com
Foi um filme do qual tinha muitas expectativas daí alguma desilusão quando saí do cinema. No entanto concordo com alguns comentários que dizem que este não é um filme propriamente fácil de passar de livro para cinema, porém o trabalho dos actores bem como toda a equipa que produziu o filme é de aplaudir. Para finalizar gostava de deixar um comentário ao desempenho da actriz Rachel Hurd-Wood que tendo apenas 16 anos tem mostrado grandes qualidades não só cinematográficas como também uma beleza física que certamente no faz olhar para a tela de olhos bem abertos... Continua Rachel gostamos muito de te ver...
Davi


rtoliveira75@gmail.com
Este terá sido, para mim, um dos piores (senão o pior) filmes que já vi este ano...
Por várias razões. A primeira: mais uma vez, este filme mostra como um best-seller literário pode dar um mau filme (um pouco à semelhança do que aconteceu com "O Código Da Vinci"). O que também (há que dizê-lo) por um livro ter vendido muito, não quer dizer necessariamente que seja um BOM livro (o mesmo se passa com o cinema, claro).
A segunda: o argumentista e o realizador não sabem, nem se decidem, se o filme é uma intriga policial de época ou uma fábula em tom de sátira. É bem exemplo disso a dicotomia e incoerência do filme, que até pouco mais da primeira metade nos introduz o personagem e o seu particular dom, com cenários de ambiente gótico interessantes e uma fotografia bonita e de encher o olho em algumas cenas. Mas ainda assim não muito convincente a nível de argumento e interpretações.
A partir da cena em que Grenouille parte para Grasse que o filme descamba num enredo completamente inverosímil (mesmo tendo uma componente fantástica, um filme pode ser perfeitamente verosímil). E a parte final do filme então é de um ridículo e idiotice pegado, que mais apela ao gozo (do ridículo), que a outro sentimento qualquer...
Claro que para além de um mau enredo, temos também personagens sem qualquer densidade psicológica, mal caracterizadas e que acabamos por não perceber o que as motiva, o que nos afasta delas e não nos permite criar envolvimento emocional. A dado momento, damos connosco completamente indiferentes ao destino da última rapariga assassinada ou a Grenouille (que não sendo propriamente o herói da história, nos poderia criar um sentimento de empatia), tal a pobreza das suas personagens.
Resumindo, um filme que na primeira parte até nos prende e cria algumas expectativas relativamente ao desenrolar da história, com algumas imagens de grande beleza visual, mas que na segunda parte tem um desenvolvimento incoerente, tornando o filme desequilibrado e sem credibilidade.
Apesar de ser do género filme de acção, bem melhor a nível de aproximação emocional das personagens e verosimilhança será certamente o último Bond.

Rui oliveira


Vítor Sousa
Eu não concordo com a idéia de que nenhum realizador consiga transpôr este filme para cinema. Só não acho que consiga, como ainda acho que consiga fazer melhor.

E não seria necessário um realizador de renome com Spielberg, Coppola ou Tim Burton. Bastava para isso um Alfonso Arau, que é muito bom nestas matérias, mesmo que a nossa crítica não goste muito dele.


quental.nuno@gmail.com
Imaginar um cheiro não é tarefa simples. Como se filmam os cheiros? Não é possível, claro. Apesar de alguns excessos eu creio que o filme consegue cativar a audiência. Trata-se de uma história fantasiosa à qual nos devemos render para a saber apreciar de forma mais completa. O livro é muito rico nas descrições dos aromas e na vida do personagem, coisas com que o filme tem mais dificuldade. Ainda assim penso que é tempo bem passado!
Nuno Quental


   
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CINEMA2000


kijack@walla.com
....nenhum filme, nenhum realizador conseguira transpor o romance para o cinema. leiam o livro...


well0009@gmail.com
Espero que seja desta que Dustin Hoffman convença-se que as perucas não lhe ficam mesmo bem.

Wellington Almeida
www.prepuciocomqueijo.blogspot.com


pmcferreroms@yahoo.com
Não tendo lido o livro de Süskind, mas sendo feroz defensor do meu nariz desde que li Gogol, foi com muita expectativa que dei por mim a direccionar o meu dito cujo para «Perfume, the Story of a Murderer», exercitando o meu olfato para lá do simples detectar de odor a pipocas e a sovaco que preenchia cadeira sim, cadeira não, da sala onde o filme passava - os best sellers têm destas coisas!

Vamos por fases: esta gigantesca produção alemã não fica a dever, em nada, às dos seus competidores americanos ou franceses, ou seja, o filme é mesmo uma estopada na maior parte do tempo, banal e estereotipada na reconstituição histórica da época, dos seus costumes e perversões (ambientes escuros como breu, desdentados por todo o lado, vapores saindo dos becos, meninos à la Dickens, etc., etc.). Tem uma ficha técnica impressionante, uma música a justificar a Filarmónica de Berlim, e cenários naturais (perto de Girona) a valerem por outros (a Grasse das flores). Se isso é suficiente para transpôr para a tela a(s) essência(s) do livro do alemão, não sei.

Só sei que do ponto de vista cinematográfico, este filme de Tom Tykwer é apenas um thriller medianamente construído (o suspense mora em apenas uma ou duas cenas), assimetricamente desenvolvido (a pituitária do assassino ingénuo e a(s) ruiva(s), e pouco mais), má exploração de actores como Dustin Hoffman ou Alan Rickman (o melhor actor é a voz ...), nunca chegando sequer a uma resposta plausível à questão essencial: como filmar um cheiro? Visualmente falando, a cena mais bem conseguida é a da orgia pasoliniana depois do contacto com a fragrância virgem do Amor. Dramaticamente falando, é a do encontro do protagonista (uma boa prestação de Ben Whishaw) com a ruiva das ameixas.

Voltando aos cheiros, que tudo o resto pouco importa, a mais valia real do filme (e, suponho, do livro) está na assumpção de que a virgindade tem cheiro (por contraponto ao estatuto de inodoro do assassino) e, mais importante, a pomba da paz e do amor reside no perfume da inocência. Uma bela solução para os males do nosso mundo.

Paulo Ferrero
Cine-Australopitecus


carlosnatalio1_@gmail.com
Em 1985, o escritor alemão Patrick Suskind escreve “Das Parfum”, um thriller fantástico sobre um homem com um olfacto apuradíssimo, que vive obcecado com a recolha de todos os cheiros do mundo. Em poucos anos, o romance transforma-se num dos best-sellers mais lidos do planeta e logo se pensou numa transposição ao cinema. Não é que não se tenha tentado mas durante vários anos o escritor escusou-se a vender os direitos da obra, tendo até sido feito “Rossini”, uma comédia co-escrita pelo próprio Suskind, parodiando a relutância deste.

Quase vinte anos depois, o produtor alemão Bernd Eichinger (“Resident Evil”, “Der Untergang”, “Fantastic Four”), após múltiplas investidas, compra os direitos do romance por quase 10 milhões de euros. Após muitos realizadores terem passado pelo projecto ou nele manifestado o seu interesse (casos de Milos Forman, Tim Burton, Martin Scorsese ou Ridley Scott), Bernd contrata Tom Tykwer, de “Lola Rennt” e “Heaven”, provindo de uma “família cinematográfica” semelhante àquela que o produtor queria para o seu "Perfume: The History of a Murderer”. Assim se ergue finalmente o “gigante alemão”, filme com maior orçamento na história do cinema germânico (50 milhões de euros), dobrado em língua inglesa, apostando no lado visual e estilístico da França do sec. XVIII do célebre romance e com um casting medianamente viável em termos comerciais.

Que dizer então deste “filho pródigo”, esperado por muitos durante tanto tempo? Antes do mais, a opção, para o bem e para o mal, foi a de uma transposição muito fiel do filão narrativo que guia o romance. Assim, Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw) é à mesma um rapaz que escapa miraculosamente da morte à nascença, após o falecimento da mãe. Trabalhando num cais infecto em troco da sua sobrevivência vai deixando que todos os aspectos da sua vivência se ofusquem ante o seu dom: o olfacto. Já trabalhando com o perfumista em decadência Giuseppe Baldini (um hiper estilizado e oco Dustin Hoffman), revela-se um verdadeiro prodígio no ramo. No entanto, o seu verdadeiro intento é o de conseguir guardar todos os cheiros. Quando o processo de normal destilação se revela ineficaz para guardar o cheiro humano, parte em busca de outros métodos, que eventualmente o levarão ao homicídio de jovens raparigas para se apoderar do cheiro das mesmas.

Se a proximidade ao enredo do romance, satisfazendo os mais puristas, permite a “Perfume: The Story of a Murderer” ser um thriller competente, investindo em ambientes e cenas ornamentais, o que é mais singelo permanece na sombra. Falamos sobretudo da dimensão humana de Grenouille, que faz deste assassino um homem moralmente diminuído, incapaz de amar e de ser amado, de ser reconhecido, de se integrar na sociedade de que vai fazendo parte. E parece ser do domínio da gestão da personagem principal que emerge o problema. Não se põe em causa o esforço do jovem actor, nem mesmo a construção da marginalidade deste, mas antes uma falta de envolvimento dramático do espectador com um protagonista que em silêncio é desde o início mais bizarro que herói. Como se o filme fosse a caparaça exterior da história de mais um assassino perturbado e não de um homem inteligente, sensível, atormentado, com um dom que resvala para o abismo. Nunca a parte final do título do filme faz tanto eco: “The Story of A Murderer”.

Outro aspecto longe de estar resolvido em “Perfume” é o dilema da história de Suskind transposto para o cinema: como filmar um cheiro, uma sensação olfactiva? Tal a razão que afastou Stanley Kubrick da adaptação da obra, classificando-a como "infilmável". Constatando o abismo que existe entre os idos experimentalismos da libertação de aromas em salas de cinema e a utilização por parte de Tykwer dos redundantes e inúmeros grandes planos do nariz de Grenouille, parece-nos que a solução daqui anda arredada. Parte do delicioso aroma do romance de Suskind prende-se com a prosa sugestiva e vertiginosa das experiências olfactivas do seu protagonista. Aqui, as suas palavras, na boca no narrador John Hurt são, em voz off, antes do mais muleta narrativa e só depois enfoque expressivo: enquadra acções mais do que as densifica.

Sendo o cheiro infilmável ou não, o acto que tal pressupõe não o é. Em silêncio, Grenouille vai cheirando o mundo, numa experiência silenciosa de cariz abertamente sexual e, a espaços, religiosa. A banda sonora luminosa e de um excessivo lirismo vai corroborando isso ad nauseaum, enchendo silêncios. A ascese final, solução literária superior embora cinematograficamente discutível, perde vigor pela insistência sonora.
E desse sentimento de enfartamento também se fala a propósito da excessiva duração da obra de Tykwer, quebrada na sua fluidez pelos dois momentos em que se divide: o primeiro de contextualização, o segundo, já com Grenouille na cidade de Grasse, de efectivação do seu plano.

Pisando terrenos próximos de “In the Name of the Rose” de Jean Jacques Annaud e de um tormento esquizóide tão caro ao expressionismo alemão, “Perfume” veste bem a pele de blockbuster europeu relativamente inóquo e em certos momentos inodoro. 5/10
Carlos Natálio


     
 

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