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Angel-A
Título original: Angel-A
Realização: Luc Besson
Intérpretes: Jamel Debbouze, Rie Rasmussen, Gilbert Melki, Serge Riaboukine, Akim Chir
França, 2005
Estreia: 17 de Agosto de 2006
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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João Lopes
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Em 1997, ao apresentar «O Quinto Elemento» no Festival de Cannes, o realizador Luc Besson foi objecto de comentários pouco simpáticos. Segundo alguns críticos franceses, o facto de Besson se exprimir num registo típico da produção americana (e, para mais, contando com uma das suas estrelas: Bruce Willis) era uma “cedência” que, para alguns, quase correspondia a uma traição nacional. Mais do que deslocada, semelhante reacção decorria de uma completa falta de disponibilidade para compreender os pressupostos e objectivos da estratégia criativa de Besson.
Peço, também, que me compreendam: estou longe de ser um admirador regular do trabalho de Besson (e não posso esconder que «O Quinto Elemento» me parece uma variação muito simplista sobre matrizes correntes da ficção científica). Em todo o caso, não é essa a questão. Não precisamos de admirar todos os filmes de um cineasta para reconhecermos alguma coerência, até mesmo algum risco, nos seus modos de trabalhar e pensar a produção cinematográfica.
Ora, justamente, se há atitude que me parece meritória no trajecto de Besson é a serena ausência de complexos ou preconceitos face ao poder da indústria americana. No fundo, ele é um produtor/realizador que se coloca para além (ou aquém...) desse maniqueísmo simplista que leva a considerar que os americanos só sabem gerar “dinheiro” e os europeus estão condenados a fazer “arte”. Através de várias dezenas de títulos, dele e de muitos outros cineastas, Besson reivindica para a indústria francesa (e europeia) a possibilidade e, mais do que isso, a capacidade de produzir filmes que tentem combater o cinema americano no seu próprio terreno.
Agora, com «Angel-A», acredito que Besson consegue um dos melhores momentos da sua filmografia: um exercício minimalista, num registo de fantasia “lírica” e com imagens a preto e branco (o que não acontecia desde a sua primeira longa-metragem, «O Último Combate», lançada em 1983). Como o título sugere, trata-se da história de uma figura angelical. Mais concretamente, André (Jamel Debbouze) é um pobre diabo que vai improvisando soluções não muito eficazes para pagar as suas dívidas a várias figuras pouco recomendáveis do submundo parisiense; um dia, no limite do desespero, decide atirar-se de uma ponte do Sena, deparando com uma mulher (Rie Rasmussen) que escolheu a mesma ponte para dar seguimento ao seu impulso suicida... Ela é a estranha «Angel-A e, com o tempo, André vai perceber que, se ele a salvou, talvez seja ela que o pode redimir – estamos no domínio da fábula, ou melhor, de um cinema que ainda acredita na hipótese de construir uma fábula em cenários do mundo contemporâneo.
Escrito a pensar, antes do mais, nas características de Jamel Debbouze (cómico popularíssimo em França), «Angel-A» confronta o registo burlesco do actor com a elegância nonchalante de Rie Rasmussen (modelo de origem dinamarquesa) para criar uma espécie de par ironicamente romântico. Este é, afinal, um romantismo ao mesmo tempo naïf e totalmente desencantado.
(Este texto foi publicado — com o título `Romantismo naïf` — na revista "6ª" do Diário de Notícias de 17 de Agosto de 2006.) |
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monica moreira |
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| Belissimo |
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JORGE PINTO |
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A Queda de um Anjo
Luc Besson é talvez o cineasta francês mais conceituado da sua geração. Nos últimos sete anos optou pelo trabalho de produtor, sendo a sua última realização de 1999: «Joana d Arc». As suas recentes produções são pautadas pelos efeitos especiais e as grandes sequências de acção, sempre com um cariz comercial, harmonizando o enredo e personagens. Benson o produtor, conseguiu criar no actual cinema francês espaço para os filmes feitos a medida do público generalista, incluindo os franchisings («Táxi», «Yamakasi»).
Em 2006, Luc Besson regressa à realização com um trabalho bastante interessante para quem habituou a sua audiência a uma presença muito própria no grande ecrã. «Angel-a» é uma fábula humana a preto e branco. Mérito para o trabalho refinado de Thierry Arbogast, director de fotografia, que através da utilização das diferentes intensidades e contrastes da luz obtém tons que permitem definir no ecrã os diferentes estados de alma da narrativa. À primeira vista, parece um recuo na realização, mas há muita técnica por detrás da imagem que se apresenta ao espectador, e esta é um factor determinante no resultado final.
O filme tem um elenco curto, dominado por 2 actores: a bela e multifacetada dinamarquesa Rie Rasmussen, no papel de anjo que vem à terra sob a forma de prostituta para salvar Jamel Debbouze, um caloteiro prestes a colocar fim à sua vida de golpes. Estes vão preencher o ecrã com a sua relação de conveniência. Esta falta de complexidade da narrativa não é um handicap, pelo contrário, vai permitir uma maior exploração da relação dos dois. A ligação de trabalho que une os dois personagens vai-se transformando gradualmente numa relação de cumplicidade e mesmo de redenção para ambos.
Nota-se claramente que o filme foi concebido a medida de Jamel, mas Besson foi feliz e encontrou na junção de Rie e Jamel a química necessária para prender o espectador a fábula. Esta pequena produção prova que o criador Besson não perdeu o jeito, mas o facto de estar entre o cinema alternativo e comercial cria uma indefinição na sua distribuição junto do público. «Angel-a» é um título que merece ser visto.
Jorge Pinto
3,5 em 5 |
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carlosnatalio_@hotmail.com |
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André é um jovem falhado e um mentiroso. De origem marroquina, vive em Paris e aí vive de pequenos esquemas. Deve dinheiro a quase todos os criminosos da cidade e está constantemente a ser ameaçado. Quando pela enésima vez lhe dão um prazo para pagar as suas dívidas e depois das últimas tentativas de ajuda se frustrarem, decide pôr termo à vida e mandar-se de uma ponte, lançando-se ao rio. Mas no derradeiro momento olha para o lado e vê uma mulher que teve a mesma ideia. Instintivamente lança-se ao rio atrás dela para a salvar. Quando o consegue, molhado, extenuado e irritado apercebe-se de que acabou de salvar um portento de mulher: loura, 1 metro e 80 e medidas condizentes. Angela de seu nome, agradece-lhe o gesto e compromete-se a ser sua, a ajudá-lo naquilo que ele quiser. Mas o filme não irá por aí, não se preocupem…
Rapidamente Angela começa a prostituir-se para arranjar o dinheiro que André precisa para pagar aos seus cobradores. Mas cedo este se interroga sobre o passado dela mulher e a verdadeira razão pela qual ela o ajuda tão vigorosamente…
Nove anos se passaram desde a versão de “Jeanne D’arc” de Luc Besson. Tempo esse que o cineasta francês passou a escrever e sobretudo a produzir muitos filmes de orçamento moderado e de apelo transeuropeu, com a sua produtora EuropaCorp. Agora traz-nos algo bem diferente do género tenso que o caracterizou, uma comédia romântica, bem disposta, sobre terapias comportamentais, missões (ev)angélicas, e sentimentos de culpa (mais ou menos levezinhos).
Trata-se de uma obra que trabalha muito a relação das duas personagens principais, sempre envolvidas em situações caricatas, mas fá-lo sempre de forma um pouco infrutífera. Isto porque uma das principais pechas do filme são os abundantes diálogos. Estes deixam quase sempre a desejar, para além do que muitas vezes se verem armadilhados em ratoeiras narrativas que conduzem o espectador ao puro superficialismo. A tentativa de profundidade que Besson quer dar ao filme converte-se em certos momentos numa lição mais ou menos recauchetada e terapêutica de como enfrentar a vida, sem preocupações e sempre sendo honestos para com o espelho e com os outros à nossa volta.
Outro ponto fraco é a direcção de actores que raramente acerta no tom da cena, transformando frequentemente cenas dramáticas, em ligeira diversão e viceversa, os pontos de diversão, em interacção dinâmica mas desajeitada. No par protagonista Jamel Debouzze, como André, tem um humor físico interessante enquanto herói chato e quezilento, que a modelo dinamarquesa Rie Rasmussen muito poucas vezes consegue acompanhar. Temos a nítida impressão que ela reage aos estímulos representativos do actor francês, a que a utilização da língua francesa não parece ajudar. Recorde-se que esta é apenas a segunda experiência no grande ecrã de Rie, depois de Brian de Palma a ter escolhido para Verónica em “Femme Fatale”(2002). A parecença física à ex-mulher de Besson, Milla Jovovich (embora com as devidas diferenças, entenda-se), não é um pormenor.
Agora um comentário, que quem não viu o filme se deve abster de ler. Nota de destaque para a bela Paris a preto e branco da fotografia de Thierry Arbogast, habitual colaborador do cineasta. Aquela a fazer lembrar a limpidez e pureza de tom de Berlim de Wenders em “Wings of Desire”. E a comparação não é inocente pois este “Angel A”, que conta afinal um amor impossível entre um homem quase condenado e o seu anjo da guarda, pretende situar-se algures na relação decadente e desencantada entre o humano e o divino da célebre obra de Wenders e o moralismo optimista de “It’s a Wonderful Life” de Frank Capra. É pena que, na verdade, Besson, com um argumento da sua inteira responsabilidade, tenha ficado mais próximo do vazio romântico de “City of Angels”, a fraca actualização da obra de Wenders, assinada em 1998 por Brad Silberling.
Apesar das fragilidades que o filme não tenta esconder desde o início e dos momentos em que a psicanálise pessoal vai longe demais, no final “Angel-A” consegue divertir-nos um pouco, e toca-nos, pela grande/pequena dimensão dos seus protagonistas. A provar que o sexo dos anjos é tudo menos uma questão equívoca.
Carlos Natálio 6/10
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