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Sonhar com Xangai
Título original: Qing Hong / Shanghai Dreams
Realização: Wang Xiaoshuai
Intérpretes: Gao Yuanyuan, Li Bin, Yan Anlian, Wang Xueyang e Qing Hao
China, 2005
Estreia: 17 de Agosto de 2006
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Passada no início dos anos 80 tendo como cenário a China no seu momento de reforma, «Sonhar com Xangai» é a história do primeiro amor.
A protagonista, é uma jovem de dezanove anos, Qing Hong, que pertence a uma típica família imigrante, recolocada na província de Guizhou, vinda de Xangai nos anos 60. O seu pai está ansioso para voltar para Xangai, mas para Qing Hong, mudar torna-se complicado por causa do seu romance com Hong Gen, um jovem rapaz de uma família pobre local...
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«Sonhar com Xangai» recebeu o Prémio do Júri no Festival de Cinema de Cannes em 2005.
* Wang Xiaoshuai e Gao Yuanyuan no CINEMA2000. |
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João Lopes
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Um esclarecedor exemplo de uma atitudo nova que vamos descobrindo no cinema chinês. Que é como quem diz: trata-se, agora, de superar as marcas mais ou menos "épicas", tradicionalmente associadas aos autores da Quinta Geração (Zhang Yimou, Chen Kaige, etc.), para propor retratos tendencialmente realistas das convulsões da China nas décadas maoístas e pós-maoístas.
Do mesmo realizador de «A Bicicleta de Pequim» (2001), esta é a crónica das famílias deslocadas durante a década de 60 que, vinte anos mais tarde, põem a hipótese de regressar aos lugares de origem, desse modo enfrentando necessárias diferenças geracionais. Este é, afinal, um cinema de paciente atenção aos sinais do quotidiano, atenção que é, afinal, a raiz primeira da sua visão genuinamente política. |
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gonn1000@hotmail.com |
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SONHOS DESFEITOS
Realizador do interessante "A Bicicleta de Pequim", o chinês Wang Xiaoshuai regressa com "Sonhar com Xangai" (Qinghong / Shanghai Dreams), mais um retrato das tensões quotidianas, tanto sociais como familiares, do seu país, seguindo aqui uma família de uma pequena aldeia em meados dos anos 80.
Laowu, operário fabril cansado do pouco auspicioso dia-a-dia em Ghizou, tenciona voltar a Xangai na procura de melhores condições de vida, mas Qinghong, a sua filha adolescente, mostra-se mais avessa à mudança de lar, uma vez que se encontra já ambientada na pequena povoação que a acolhe.
Esta é apenas uma das diferenças que molda a difícil relação entre os dois, a par de contraditórias formas de lidar com as ténues, mas cada vez mais presentes, influências da cultura ocidental (determinantes sobretudo entre a população jovem) ou com os demarcados estatutos e papéis do homem e da mulher, assim como da liberdade que é concedida a cada um.
À semelhança do seu antecessor, "Sonhar com Xangai" é um filme contido, discreto e lacónico, não raras vezes triste e pouco esperançoso, onde mesmo a descoberta do amor não leva a que o cenário se torne mais próspero, impondo antes que as dores e contradições do crescimento sejam mais agudas e evidentes.
Drama sóbrio, enxuto e atmosférico, prova que Xiaoshuai é um realizador atento às complexidades das relações humanas, conseguindo gerar alguns belos momentos à custa de uma minuciosa gestão dos silêncios ou das expressões dos seus actores, que traduzem uma inquietação política e social não verbalizada mas sentida.
Contudo, apesar desta conseguida carga realista, "Sonhar com Xangai" arrisca-se a afundar-se, e a levar o espectador consigo, no seu próprio negrume, enclausurando as personagens nos seus fantasmas e não lhes deixando espaço para respirar, sobretudo na segunda metade do filme.
O ritmo é outro elemento pouco envolvente, incitando a que a narrativa se desenvolva de forma demasiado morosa e arrastada, sendo o seu efeito bem mais soporífero do que intrigante.
Assim, "Sonhar com Xangai" resulta numa obra que, embora mereça ser vista, não chega a ir tão longe como poderia, sendo uma película curiosa mas não especialmente marcante. Uma boa oportunidade, de qualquer forma, para conhecer o trabalho de um dos nomes cimeiros da nova geração de realizadores chineses.
Gonçalo Sá
http://www.gonn1000.blogspot.com/ |
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carlosnatalio_@hotmail.com |
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enão baralharem as contas por cá, deverá ter estreia no início de Setembro nas salas nacionais, em jeito de conclusão da silly season, “Shangai Dreams”, de Wang Xiaoshuai, obra galardoada o ano passado com o Prémio de júri no certame de Cannes.
Drama social e sobretudo geracional, acompanha uma família chefiada por um operário fabril, em pleno projecto político de desterritorialização profissional na China dos anos 60, sob a batuta do regime autoritário de Mao Zedong. As denominadas fábricas de “terceira linha” foram criadas nas zonas rurais chinesas mais pobres, com vista ao desenvolvimento local, e os trabalhadores dos grandes centros urbanos foram deslocalizados para trabalhar naquelas, à custa de melhores salários e da inerente discriminação social.
É então na pequena província de Ghizou que esta família se vê despromovida a “gente do campo”. Mas se o chefe da família, Laowu, sonha em poder aceder à sua antiga vida e mudar-se para Shangai, a sua filha de 19 anos Qinghong, pertence já há pequena aldeia. Desta diferença de ambições e gerações emerge o enorme conflito de “Shangai Dreams”. Neste, contrariamente ao previsto, é a geração adulta a que se vê em pleno naufrágio profissional e familiar: estão velhos, precisam de mais dinheiro e de melhores trabalhos. É Laowu, o pai, que não sabe como fazer para partir para Shangai, é ele que não sabe como educar a filha ou lidar com o seu crescimento, ambicionado cegamente que esta estude para ir para a universidade. Resultado dessa insegurança é o enorme controlo que exerce sobre a filha perseguindo-a até à escola, numa reprodução celular do regime em que vivem, ou deitando fora presentes que o seu “namorado”, empregado na mesma fábrica do pai, lhe dá. Na geração jovem de Ghizou reina a segurança e maturidade, até na forma rebelde como vão aderindo às tímidas influências da cultura ocidental, como se escapam para festas para dançar ou trocam beijos quando as luzes das festas se apagam.
Wang Xaoshuai, nunca abdicando de uma linha narrativa tão forte quanto subtil, dá uma visão hipócrita e desconhecedora desta geração adulta, em processo de reciclagem humana e política, sobre a mais jovem. Quando a vertigem suicidária das novas gerações parece estar iminente ou quando não resistem ao verdadeiro amor, apesar dos casamentos “remendados”, a culpa parece ser do ímpeto da juventude que não mede as consequências dos seus actos. Quando na realidade, sabemos ser a actuação desesperada e autoritária dos adultos, sempre subjugadores dos seus filhos, os factores que levam à perda de controlo.
Na realização, especial destaque para a câmara de Xiaoshuai que trata sobretudo o momento histórico e as personagens emersas nele, com enorme respeito pelo ambiente histórico, sem cair no realismo. Daí se extrai uma serenidade plena, da qual Ozu fez escola, contagiando as personagens que se movem numa quietude reflexiva. Esta tem seguramente tanto de um lirismo triste que o autor quis para a sua história, como de circunstancial, mostrando a falta de liberdade de todos os intervenientes. Dos filhos em relação aos pais, da mulher em relação ao marido e seguramente dos trabalhadores face ao regime. Ainda parte desse pudor, dessa falta de liberdade, é usada para deixar as personagens intuir, recusando a descrição e saltando com mestria os momentos dramáticos mais explícitos.
Obra dolorosa, a mostrar que há momentos na história em que sonhar é tão urgente que se torna evidente o dano causado por não o fazer com a maturidade suficiente. 8.5
Carlos Natálio
www.c7nema.net |
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