JUNE ALLYSON (1917 - 2006)

Foi a namorada perfeita dos musicais da MGM dos anos 40 e a esposa perfeita do cinema americano em vários filmes dos anos 50.

 
 
 
   
 
Faleceu a actriz JUNE ALLYSON. Durante os anos 40 e 50, ela foi a namorada simpática e a esposa perfeita do cinema americano, a mulher por detrás de James Stewart, Van Johnson e William Holden. Tinha 88 anos.

Depois de anos fragilizada por doenças, June Allyson faleceu no sábado na sua casa, vítima de falha pulmonar respiratória, informou na segunda-feira a sua filha, Pamela Allyson Powell. Loira, de baixa estatura e com uma energia contagiante, ela foi uma perfeita Jo March, a personagem com a qual ela dizia ser mais parecida, na sacarina adaptação do clássico de Louisa May Alcott, «Little Women/Mulherzinhas» de 1949, ao lado de Elizabeth Taylor, Janet Leigh e Margaret O`Brien.

Nascida Eleanor Geisman a 7 de Outubro de 1917, filha de pai alcoólico que abandonou a família quando tinha seis anos, e criada apenas pela mãe na Bronx, conheceu uma infância de semi-pobreza. Aos oito anos, ao andar de bicicleta, parte de uma árvore seca caiu-lhe em cima. Os médicos disseram que ela nunca voltaria a andar, mas meses de terapia contrariaram o diagnóstico, apesar da recuperação total ter demorado quatro anos.

Inspirada pelas danças de Ginger Rogers com Fred Astaire em «The Gay Divorcee/A Alegre Divorciada» (1934), que viu 17 vezes, aprendeu por si mesma a dançar e tentou um emprego num coro num musical da Broadway, «Sing out the News». O coreógrafo que lhe deu emprego também lhe ofereceu um novo nome: Allyson, nome de família, e June, como o mês.

Aos 19 anos, estreou-se numa curta-metragem, «Swing for Sale» (1937), mas nos anos seguintes trabalhou essencialmente em musicais na Broadway. Após ser vista num deles, foi convidada para o produtor George Abbott para um pequeno papel em «Best Foot Forward/Com Elas Não Se Brinca» (1943). A MGM comprou os direitos cinematográficos e Allyson foi convidada a repetir o papel no grande ecrã. Assinou contrato com o estúdio, que era então o mais reputado de Hollywood, onde ficou durante 11 anos e 25 filmes.

A sua beleza e radiante personalidade emergiram em «Two Girls and a Sailor/Um Marinheiro Para Duas» (1944), ao lado de Van Johnson, então uma das jovens estrelas do estúdio, encontrando eco junto dos soldados norte-americanos em serviço na II Guerra Mundial. Foi um dos musicais rentáveis desse ano para o estúdio e faria par romântico com Johnson durante uma década: «High Barbaree/Paraíso Prometido» (1947), «The Bride Goes Wild/A Noiva Perdeu a Cabeça» (1948), «Too Young to Kiss/Cedo Para Beijar» (1951) e «Remains to Be Seen/O Segredo da Porta» (1953). O penúltimo valeu-lhe um Globo de Ouro.

Comédias ligeiras, musicais ou românticos, em glorioso Technicolor, sucederam-se e fizeram dela uma estrela: «Music for Millions/Música Para Todos» (1944), «Her Highness and the Bellboy/Sua Alteza e o Criado» (1945) e «The Sailor Takes a Wife» (1946), ao lado de Robert Walker, «Two Sisters from Boston/O Rouxinol Mentiroso», «Good News/Sempre em Festa» (1947, um dos seus melhores). Foi ainda a ingénua sacrificada Constance Bonacieux, namorada de D`Artagnan/Gene Kelly em «The Three Musketeers/Os Três Mosqueteiros».

Nestes filmes, a MGM foi moldando a imagem de "rapariga ideal" e numa entrevista em 1986, a actriz exprimiu a sua surpresa por se ter transformado numa estrela de cinema na idade de ouro de Hollywood, uma época em que emergiam Rita Hayworth, Ava Gardner ou Betty Grable. Mas, ao mesmo tempo, também desvendou o motivo: "Tenho dentes grandes. Os meus olhos desaparecem quando sorrio. A minha voz é engraçada. Não canto como a Judy Garland. Não danço como a Cyd Charisse. Mas as mulheres identificam-se comigo. E embora os homens desejem Cyd Charisse, era a mim que levariam a casa para conhecer a mãe".

No início dos anos 50, June Allyson estava pronta para deixar os musicais, que por sua vez também conheciam os últimos anos de glória. Como referiu numa entrevista em 1951, "Não sabia dançar e, Deus sabe que não sabia cantar, mas safei-me de alguma forma. Richard Rodgers estava sempre a impedi-los de me despedirem". A actriz evoluiu para o papel de esposa devota, uma faceta que aperfeiçoaria principalmente ao lado de James Stewart, um dos seus colegas preferidos. Em «The Stratton Story/Tenacidade» (1949, em DVD de região 1 a 15 de Agosto), «The Glenn Miller Story/A História de Glenn Miller» (1953) e «Strategic Air Command/Nem Sempre o Coração Manda» (1955), ela definiu o papel do que se esperava que fosse a perfeita esposa americana do pós-guerra, que apoia e nunca contraria ou desafia o seu marido. Foi uma enfermeira idealista apaixonada pelo cínico cirurgião Humphrey Bogart no inacreditável «Battle Circus/O Circo Infernal» (1953, um filme menor de Richard Brooks) e a esposa que apoia William Holden em «Executive Suite/Um Homem e Dez Destinos» (1954, de Robert Wise) ou, pior, que se torna viúva depois do marido Alan Ladd partir pela honra e o dever em «The McConnell Story/Suprema Ambição» (1955, de Gordon Douglas).

Foi uma tipificação que a actriz desprezava, mas de tal forma se tornou uma "marca registada" que poucas vezes a conseguiu contrariar. Um desses casos foi em «The Girl in White/Mulheres de Bata Branca» (1952, de John Sturges), em que interpretou uma mulher determinada a invadir o mundo dos homens e que se tornou a primeira médica de Nova Iorque, e principalmente «The Shrike/A Filha de Caim» (1955), em que, escolhida pessoalmente pelo exigente actor e realizador José Ferrer, foi uma esposa que atormenta o marido até este ter um esgotamento nervoso. June Allyson correspondeu com uma das suas melhores e elogiadas interpretações, mas o público sofreu um choque que provavelmente só seria superado se o seu amigo James Stewart tivesse interpretado o inimigo público n.º1: o filme foi um fracasso comercial, numa altura em que Allyson era uma das 10 estrelas que mais sucesso tinham nas bilheteiras.

Gradualmente ao longo da segunda metade da década, depois «You Can`t Run Away from It/Não Fugirás a Isto» (1956, um remake de «Uma Noite Aconteceu», dirigia pelo marido e ao lado de Jack Lemmon), «Interlude» (1957, um dos últimos filmes de Douglas Sirk), «My Man Godfrey» (1957, ao lado de David Niven), e o melodrama «A Stranger in My Arms», quando a perfeita esposa americana já não era bem o que era, (pronunciando a década seguinte), também a carreira cinematográfica de June Allyson terminou.

Como era habitual nestes casos, nos anos seguintes fez alguns trabalhos em televisão, teatro e em clubes. Voltou em 1972 para chocar os seus fans ao fazer de uma lésbica assassina em «They Only Kill Their Masters» e apareceu já nos anos 80 em séries como «O Barco do Amor» e «Crime, Disse Ela». Nesta década tornou porta-voz da Kimberly-Clark para a Depend, uma fralda para adultos com incontinência, e de uma forma bizarra, ela tornou-se tão conhecida do público pela sua carreira cinematográfica como por esses anúncios, que ao trazer a público o desconfortável assunto, ajudaram a quebrar um dos últimos tabus.

Quando ainda era uma estrela de segundo plano, desafiou pela única vez o chefe da MGM, Louis B. Mayer, ao apaixonar-se pelo actor Dick Powell, 13 anos mais velho e casado com a actriz Joan Blondell. Ele divorciou-se e casaram-se em 1945, apesar da resistência de Mayer. Contracenaram juntos em dois filmes inconsequentes, «Right Cross/Por um Amor» (1950) e «The Reformer and the Redhead/A Loira Abstinada» (1950), mas o casamento conheceu momentos longe da imagem cor-de-rosa que então transparecia para as revistas das estrelas de cinema, apesar das várias separações terem sido progressivamente mais publicitadas. Powell faleceu em 1963, vítima de cancro, e a actriz enfrentou posteriormente esgotamentos nervosos, alcoolismo e um segundo casamento de apenas 10 meses de maus tratos. Em 1976, casou pela terceira vez, com David Ashrow, um dentista com quem passaria as décadas seguintes a viajar e em pacífica vida familiar. A autobiografia com o seu nome surgiu em 1982.

12-07-2006
* Fotografia (topo): June Allyson com James Stewart no Festival de Cannes em Maio de 1985;

Fotografias (esquerda): June Allyson fotografada a 18 de Novembro de 1943; com o marido Dick Powell; com o cão "Mike" na rodagem de «Mulherzinhas» em Agosto de 1948; com Van Johnson, parceiro em vários filmes; com James Stewart na rodagem de em Dezembro de 1948;

Fotografias (direita): com Jimmy Durante em «Música para Milhões» (1944); com Peter Lawford em «Sempre em Festa» (1948); ao lado de Gene Kelly em «Os Três Mosqueteiros» (1948); em «Mulherzinhas? (1949); com Arthur Kennedy em «Mulheres de bata Branca» (1952); com Alan Ladd em «Suprema Ambição» (1955).