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A Vida Secreta das Palavras
Título original: La Vida secreta de las Palabras / The Secret Life Of Words
Realização: Isabel Coixet
Intérpretes: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Sverre Anker Ousdal, Eddie Marsan, Julie Christie, Daniel Mays, Dean Lennox Kelly, Danny Cunningham, Emmanuel Idowu, Reg Wilson, Leonor Watling
Espanha, 2005
Estreia: 29 de Junho de 2006
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Eurico de Barros | Média dos Espectadores |
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Mauro Machado |
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O filme possibilita uma reflexão pessoal e coletiva que extrapola os limites das palavras. Demonstra o como nao falar. Os detalhes das palavras não ditas, e das ditas de forma indireta quebrar parte da solidez da dor e levam a abertura de lacunas que podem possibilitar uma alternativa de alivio. Mudança. Os personagens principais vivem casos distintos mas a fuga da solidão os unem num processo de busca por algo não dito.
Posso dizer que foi uma ótima experiência assistir a este filma, claro que adoraria dizer que esta história era apenas fantasia, pena que sou obrigado a aceitar o acontecimento e a reprodução destes fatos na nossa des-humanidade.
Precisamos aprender a conversar com os mortos, com a memória para pararmos de reproduzir e alimentar a des-humanidade. |
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gonn1000@hotmail.com |
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VIDAS PRIVADAS
Segundo filme da catalã Isabel Coixet estreado em salas nacionais (o primeiro foi “A Minha Vida Sem Mim”, em 2004), “A Vida Secreta das Palavras” é um contido drama onde se entrecruzam os percursos de Hanna, uma jovem misteriosa que vai trabalhar para uma plataforma petrolífera como enfermeira durante as férias, e de Josef, o doente que está entregue aos seus cuidados, vitimado num incêndio nesse local.
A solidão e os fantasmas de acontecimentos passados surgem como elo unificador dos dois protagonistas, cuja relação começa por ser difícil devido à forma díspar como ambos agem: ela recolhida num silêncio irascível, ele apoiado em recorrentes comentários espirituosos ou mesmo jocosos.
Aos poucos, Coixet vai tecendo uma cumplicidade crescente entre estas duas figuras, entregues uma à outra no meio do vazio que as envolve. Revelando um apurado sentido de observação na forma como aborda as peculiaridade dos sentimentos e relações, a realizadora impõe ao filme um ritmo lento, mas apropriado aos contornos desta história, gerando uma aura intimista e envolvente.
Os cenários, quase sempre apenas os da plataforma petrolífera, reforçam a carga minimalista da película e o modo como a câmara os capta ajuda a consolidar uma atmosfera singular, um limbo espacial habitado por outcasts desintegrados.
Contudo, quando a acção deixa este espaço, “A Minha Vida Sem Mim” vai perdendo a subtileza e unicidade que mantinha até então, entrando em domínios mais convencionais pelo modo algo desapontante como desenvolve o relacionamento dos protagonistas e por um meritório, mas algo forçado, carácter panfletário de mensagem política/social.
Outro problema é a dispensável voz off, intrusiva e desnecessariamente explicativa, que interrompe fulcrais sequências marcadas pelo silêncio.
Estas fragilidades retiram à película alguma da sua força, mas não diluem a boa impressão que Coixet deixa nem as soberbas interpretações de Sarah Polley (uma das mais talentosas e subvalorizadas jovens actrizes de hoje, magnífica na meticulosa composição da lacónica Hanna) e Tim Robbins (carismático num papel difícil, ainda que perca o fôlego já no final), assim como não impedem que “A Minha Vida Sem Mim” seja ainda um filme adulto, belo e honesto, a merecer atenção e entrega.
Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com/ |
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Este filme evoca a vida secreta___ das palavras que são ditas e das que ficam por dizer. pela incapacidade que a dor provoca. uma dor maior. maior que nós. maior do que a nossa compreensão. uma dor, não obstante, infligida por homens a outros homens. como viver___não face a, mas sendo a marca dessa dor, um signo dor.
Para entender a dificuldade de traduzir a experiência privada em palavras, Wittgenstein evocava uma das experiências mais subjetivas: a percepção da dor. Não existem dois seres humanos que compartilhem um contexto associativo idêntico.
Então, como argumenta o filósofo alemão, quando descrevemos uma dor a alguém, a descrição é fruto de "educação", e por isso seria tão importante concentrar-se na subjectividade da comunicação privada.
É isso que observamos neste filme, personagens que são ilhas de significação, diálogos rudimentares (e belos)__ a forma possível de aproximação à realidade das emoções dos outros.
A encenação é extraordinária. A câmara regista coreografias___ em que as personagens se tocam para logo se afastarem. O cenário é uma metáfora. As palavras que se soltam em compassos lentos são absolutamente poéticas.
Este é o primeiro filme. O segundo filme acontece já próximo do fim. Deixamos Hanna (Sara Polley), Josef (Tim Robbins), Simon (Javier Camara), todas as vivências singulares e secretas, e passamos à História, à "educação" para a uma mesma linguagem sobre a dor.
Não sei se é possível não perdoar a traição. Não sei se podemos atirar pedras à incoerência quando o que está em causa é a memória. A Memória___ que devemos integrar na nossa existência. quando diz respeito ao acto de inflingir dor__ ao homem, pelo homem.
Maria do Rosário Fardilha
www.divasecontrabaixos.blogspot.com |
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daniel_pereira@cinefilos.tv |
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Isabel Coixet era um nome estranho para mim. A sua obra espanhola é (para mim) desconhecida; “My Life Without Me” (2003) era pouco mais que um título que tinha na memória, sem nunca lhe ter dado importância. Daí que a surpresa seja maior ao ver “La Vida Secreta de las Palabras”, um filme que mostra um talento raro na construção de silêncios, de estádios interiores, enfim, de sentimentos humanos. Poderia ter sido o filme do ano de 2006, em Portugal.
Digo “poderia” porque o filme está longe de ser perfeito. E prefiro começar pelo que de fraco tem o filme. A voz off narradora é uma opção arriscada e, talvez, não justificada completamente. Ou melhor: a sua possível justificação encontra-se na última sequência. Isso é um problema menor inserido num problema maior, a saber, a resolução que o filme tem. Aliás, não só a resolução escolhida enfraquece o filme, como acredito que um filme como “La Vida Secreta de las Palabras” não pode sequer ter resolução – é aí que se falha, ao fechar um filme que, até aos últimos 20/30 minutos do fim, era de uma abertura tal que convidava o espectador a entrar e a perder-se pelos caminhos que mais lhe interessariam.
A mim interessou-me a protagonista, Hanna (Sarah Polley), mas já lá vou. Porque o que, talvez, mais me interessou foi o leque de personagens que deambulam pela plataforma petrolífera. Um cozinheiro (uma presença breve, mas muito forte de Javier Câmara), o chefe da plataforma, os dois homens das máquinas, o homem que faz a contagem da média de embate de ondas por dias. Personagens que não são para ser exploradas – o filme não é delas –, mas para construir um retrato de uma família de dores interiores, de necessidade de escape; uma família que tem uma palavra-chave a ser utilizada em várias variantes: isolamento. E aqui os que mais me comoveram foram os dois homens das máquinas, quando mostram as fotos dos seus filhos (depois vêem).
É claro que é a Hanna e Josef (Tim Robbins) que cabe sustentar o filme. E, como dizia acima, interessa-me mais Hanna, apesar de Josef ser uma personagem enorme. De Hanna sabemos que trabalha há quatro anos numa fábrica sem nunca ter tido férias, tem uma obsessão com a higiene, não se dá com ninguém. É o suficiente para nos apaixonarmos pelo seu silêncio e por tudo aquilo que a faz sofrer em surdina. É daqui que vem a abertura de que falo: quase nada sabemos acerca de Hanna e é esse o mistério da personagem, sem que se sinta a falta de o que quer que seja. A sua relação com Josef – que sofreu várias queimaduras num acidente e de quem Hanna vai ser enfermeira para “não estar parada” nas suas férias – prolonga este mesmo mistério, acrescentando-se o mistério do próprio Josef. Estamos perante duas personagens que, talvez, se sentem atraídas pelas feridas do outro. Feridas que são sempre interiores e desconhecidas. O silêncio ganha espaços, as dores estão presentes em cada plano. Aliás, Coixet revela, também, um talento para filmar espaços: quer seja no quarto de Josef, no refeitório ou no exterior da plataforma, enquadra-se sempre para mostrar o isolamento (não há aqui nenhuma referência ao western, mas, assumindo o risco de ser pateta, penso na plataforma como um saloon, em Hanna como um cowboy). Esse isolamento, repito, em todas as variantes, é, em última instância representado pelos fabulosos actores, encabeçados por Polley e Robbins.
Mas é por gostar tanto dos primeiros 90 minutos de filme que não posso aceitar que o filme tenha resolução; ou, pelo menos, aquela resolução. Não preciso de saber o passado das personagens, basta-me saber o que se passa no presente. Ao desvendar-se o mistério das personagens, o filme fecha-se e não há mais espaço para o espectador. Este facto é tanto pior, quanto os motivos que o filme encontra para se resolver encaminham o filme para uma outra direcção, política (no pior sentido da palavra), que nada tem que ver com o humanismo que está para trás.
“Como será rever este filme?” é uma pergunta que me faço e cuja resposta tenho medo de saber. Até ao filme se resolver e fechar estive a ver o melhor filme estreado, este ano, em Portugal. Assim, “La Vida Secreta de las Palabras” torna-se um dos mais belos, mal acabados filmes que já vi.
A não perder
Daniel Pereira
www.escrevercinema.blogspot.com
20-07-06 |
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CINEMA2000 |
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almeida_rita@sapo.pt |
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LA VIDA SECRETA DE LAS PALABRAS
de Isabel Coixet
Depois de ter representado uma doente em fase terminal em “A Minha Vida Sem Mim”, a actriz Sarah Polley volta a juntar-se a Isabel Coixet para o segundo filme em inglês da realizadora catalã, “La Vida Secreta de las Palabras”.
Polley é Hanna, uma mulher introvertida e solitária. Obrigada pelo seu chefe a tirar um mês de férias, Hanna vai trabalhar para uma plataforma petrolífera no Mar do Norte como enfermeira de Josef (Tim Robbins), que sofreu um acidente num incêndio no poço e está acamado. O encontro destas duas pessoas será um ponto de inflexão nas suas vidas, marcadas por segredos que tentam esconder: Hanna procura esquecer o passado através do silêncio, enquanto Josef usa as palavras como forma de sobrepor-se a ele.
As palavras são o tema deste filme. E, quem diz palavras, diz silêncio. E muitas vezes um esconde o outro. Mas há um momento em que os diques se rompem, as palavras jorram e diz-se tudo o que se tem guardado. E em que se compreende que umas palavras, as ditas, não substituem as outras, as guardadas.
“La Vida Secreta de las Palabras” fala de duas pessoas feridas. Hanna é surda e usa um aparelho auditivo, que muitas vezes lhe serve de arma para se defender dos outros; Josef está temporariamente cego por causa dos ferimentos. Mas as suas incapacidades de comunicação são apenas a ponta do iceberg das feridas que guardam no seu interior, e o limite físico (da cama para Josef, da plataforma para Hanna) acaba por ser metáfora do limite que eles próprios se impuseram pelo cinismo. A relação que se desenvolve entre Hanna e Josef, a empatia que se cria entre o seu sofrimento, a sua mútua necessidade de afecto, fará com que aprendam a compreender-se e a aceitar-se, ou seja, a amar-se.
A plataforma é um não-lugar, representa um sítio de fuga, mas também um sítio do qual não se pode fugir, e é do confronto com os seus próprios demónios, desse passado que não permite a entrada nem a saída, que surgirá a sua cura.
No meio de todos os ruídos (da fábrica, da rua, da plataforma petrolífera), é a palavra, através dos diálogos, que faz mover este filme, ajudada por uma banda sonora onde se destaca a música “Hope There’s Someone” de Antony and the Johnsons.
A interpretação de Polley é de uma força desconcertante, metamorfoseando-se entre a doçura e a agressividade, entre a antipatia e a sedução. Ao seu lado, está um irrepreensível Robbins, sustentado quase apenas na sua voz, incutindo à sua personagem a ternura e sentido de humor nas doses certas. O restante elenco é completado com a presença marcante de Julie Christie e Javier Cámara.
À excepção do elemento de voice-over, cuja opção é de um gosto consideravelmente dúbio, Coixet constrói uma atmosfera íntima, triste, poética, angustiante, bela e melancólica, e enche de conteúdo duas personagens misteriosas, intrigantes e comovedoras. Tudo isto sem abusar de sentimentalismos, equilibrando-se entre a emoção e o sorriso, entre a crueldade e a esperança.
Através de uma abordagem madura, sincera e profunda das misérias (e algumas virtudes) do ser humano, Isabel Coixet mostra-nos, de novo, as imensas cores das palavras. E, quem diz palavras, diz silêncio.
RITA ALMEIDA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/ |
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