| |
|
|
|
Os Amigos de Dean
Título original: The Chumscrubber
Realização: Arie Posin
Intérpretes: Jamie Bell, Camilla Belle, Justin Chatwin, Lou Taylor Pucci, Glenn Close, Ralph Fiennes, Allison Janney, William Fitchner, Rita Wilson, Carrie-Anne Moss, John Heard, Josh Janowicz, Rory Culkin, Thomas Curtis
Alemanha/Estados Unidos, 2005
Estreia: 8 de Junho de 2006
|

 |
João Lopes | Média dos Espectadores |
 |  |
|
| |
|
|
|
 |
|
|
Dean Stiffle (Jamie Bell) é um dos jovens que habita num bairro de vivendas aparentemente idílico de classe média.. Quando encontra o seu melhor amigo, Troy Johnson (Josh Janowicz), enforcado em casa, aquando de uma festa dada pelos pais deste, Dean vê o seu mundo desmoronar-se. Os dois amigos tinham um negócio de venda de anfetaminas e Dean vê-se assediado por um bando rival. Billy (Justin Chatwin), Lee (Lou Taylor Pucci) e Crystal (Camilla Belle) raptam um rapaz que julgam ser o irmão de Dean, para o pressionar a entregar os comprimidos deixados por Troy. Enganaram-se no rapaz, mas bem sintomático do abismo que existe entre pais e filhos, três dias depois de ser raptado, ainda ninguém deu pela falta dele...
*****
* Jamie Bell, Camilla Belle, Justin Chatwin, Lou Taylor Pucci, Glenn Close, Ralph Fiennes, Allison Janney e Carrie-Anne Moss no CINEMA2000. |
 |
João Lopes
|
|
Afinal de contas, que é feito das personagens que conhecemos dos subúrbios de E.T. (1982)? Onde estão aquelas famílias que, apesar das suas muitas convulsões, parecem preservar ainda o espírito tradicional da sua união e dos respectivos valores?... Este filme de Arie Posin é um pouco uma resposta a tais questões. Subitamente, compreendemos, que o viver idílico dos subúrbios se transfigurou numa teia de famílias em que os conflitos estão profundamente alterados, a ponto de se poder dizer que todos — pais e filhos — andam à procura do seu lugar perdido.
Recuperando a lógica coral de uma algum cinema melodramático de raiz clássica (Minnelli poderá ser evocado como referência tutelar), este é um bom exemplo do modo como algum cinema americano contemporâneo não desiste de observar, paciente e metodicamente, o próprio tecido social de onde emana. Ponto essencial num registo deste género: a homogeneidade e consistência do elenco. Em todo o caso, fica um destaque para a espantosa Glenn Close, compondo uma mãe que, face à morte do filho — e através da morte do filho — acaba por descobrir o vazio do seu próprio espaço familiar. |
 |
fjteixeira@iol.pt |
|
| Um filme excelente, envolvente e pura e simplesmente delicioso. A banda sonora é magistral, a povoar os momentos de vazio das personagens. Uma crítica bem orquestrada ao alheamento dos pais americanos mas não só - ao alheamento dos adultos para com adultos. Não deixa de ser curioso que seja um dos mais novos(fabuloso Jamie Bell) a dar o exemplo de integridade moral a uma pessoa mais madura, amargurada até aos ossos (excelente Glen Close). Há aproximação em algumas partes do filme a "Bully" de Larry Clark. Mas é sobretudo um filme contundente, inteligente mas sem dispensar algumas doses de bom humor (como quando o agente de polícia que carrega um passado de amor perdido nas costas vê que o seu próprio filho é que é raptado). Não percam este filme. Começa devagar, mas daí a surpreender é um instantinho. |
 |
gonn1000@hotmail.com |
|
O SUBÚRBIO É UM LUGAR ESTRANHO
Se o cinema independente norte-americano tem oferecido algumas das mais criativas obras da sétima arte dos últimos anos, por outro lado também tem proporcionado títulos que pouco mais fazem do que compilar, de forma algo impessoal, uma série de códigos e traços identitários que se foram gerando dentro desses domínios.
“Os Amigos de Dean” (The Chumscrubber), primeira longa-metragem de Arie Posin, está algures entre esses dois extremos, uma vez que apesar de sequências inventivas e várias boas ideias acaba por não acrescentar muito a quem já tenha visto películas como “Donnie Darko”, de Richard Kelly, ou “Beleza Americana”, de Sam Mendes, duas referências próximas. Tal já ocorria com o também recente “Chupa no Dedo”, de Mike Mills, que raramente era capaz de afirmar um espaço próprio, e cujo título original, “Thumbsucker”, é facilmente associado ao do d’ “Os Amigos de Dean”.
Mais uma perspectiva sobre os subúrbios e o carácter falacioso das aparências dos seus habitantes, o filme tem como mote o suicídio de um adolescente, Troy, e as ramificações que esta morte despoleta entre os colegas, familiares e vizinhos deste.
Dean é o primeiro a ter conhecimento do trágico destino do amigo, mas mal consegue lidar com os seus sentimentos quando os pais são incapazes de fazer mais do que recomendar-lhe medicamentos contra a depressão e as reacções dos seus colegas à notícia variam entre a indiferença e o escárnio.
Três destes fazem chantagem com o protagonista de forma a recuperar doses consideráveis de drogas que Troy tinha escondidas e que só Dean sabe onde se encontram, mas aquilo que começa como uma aparente brincadeira acaba por adoptar contornos mais sérios e preocupantes (aproximando-se de “Uma Pequena Vingança”, de Jacob Aaron Estes, ou “Bully – Amizades Perigosas”, de Larry Clark).
Ao longo deste jogo de equívocos e pressões, Arie Posin oferece um olhar sobre as relações familiares, as normas sociais, a solidão e o crescimento, tendo como palco um subúrbio aparentemente normal mas que se revela um tenso micro-universo.
A espaços intrigante, noutros momentos inconsequente, “Os Amigos de Dean” sofre da sua frágil combinação de drama realista com comédia de costumes hiperbólica. Se há por aqui algumas personagens complexas, outras não vão além da caricatura, que se destinam apenas a ser alvo de sátira ao consumismo, narcisismo ou alienação.
Actores como Ralph Fiennes, Rita Wilson e Carrie-Anne Moss mereciam papéis mais trabalhados, mas em contrapartida os jovens Jamie Bell (seis anos depois de “Billy Elliot”) e Camilla Belle (a filha de Daniel Day-Lewis em “A Balada de Jack e Rose”) confirmam o seu talento interpretativo com personagens mais desenvolvidas e entusiasmantes.
O desempenho de Jamie Bell é provavelmente o melhor do filme, sendo capaz de tornar o protagonista na personagem mais sensível e afastando-se dos tiques de jovem introspectivo e marginal que poderiam debilitá-la.
Glenn Close, entre os nomes veteranos, merece igualmente destaque, tornando-se comovente ao encarnar uma mãe cuja perda do filho a lançou num (ou evidenciou o seu) limbo existencial.
Para além do elenco, “Os Amigos de Dean” tem na banda-sonora outro dos seus atractivos, tanto pelas canções de bandas como os Snow Patrol, The Like e Placebo (“A fiend in need is a friend indeed/ A friend with weed is better”, versos da canção “Pure Morning”, não poderiam ser mais apropriados), como pela expressiva partitura instrumental de James Horner, que acompanha alguns dos picos dramáticos da acção, como o sublime segmento que segue a solidão de várias personagens e que culmina na cena em que Jamie Bell observa Glenn Close no jardim.
Com um argumento menos indeciso quanto ao tom a adoptar e algumas personagens melhor delineadas, “Os Amigos de Dean” poderia ser uma soberba estreia por parte de Arie Posin e candidato a clássico indie. Assim, fica-se por uma muito interessante primeira obra, mas também frustrante por não consumar o brilhantismo que se manifesta pontualmente. Um bom começo e um título estimável, de qualquer forma.
Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com |
 |
pmcferreroms@yahoo.com |
|
Se é certo que a maior parte das personagens deste «Os Amigos de Dean» (do russo-canadiano estreante Arie Posin) mais parece fazer parte de sociedade americana (e não só) dos anos 60, completamente tupperwarizada, por outro lado é com renovado prazer que se vai vendo o filme, sabendo de antemão que há coisas que nunca mudam, mesmo que os anos mudem: as aparências iludem. E é por esse diapasão que alinham os habitantes de um aparentemente pacato, harmonioso e idílico empreendimento americano, escondendo verdades, encenando amizades, reprimindo sentimentos, etc.
Este é um daqueles melodramáticos polvilhados de charge social a que ninguém fica indiferente, sobretudo pela simplicidade do argumento e pela superior direcção de actores, que dão corpo, na sua maioria, a personagens muito bem achadas, com realce para as das mães-avestruzes, Glenn Close e Allison Janney, e Ralph Fiennes, como mayor que descobre um segundo eu, como artista, juntamente com uma incontornável Carrie-Ann Moss. Onde o filme cansa é no acompanhar excessivo dos jovens delinquentes, que talvez umas bofetadas bem dadas tivessem evitado tanta tensão (Camille Bell, que era levada à loucura por Daniel Lewis, em «A Balada de Jack e Rose», é a melhor das personagens juvenis). Tudo déjà vu, portanto; mas como não faz mal nenhum insistir na tecla, pelo que o filme merece amplamente a deslocação. A melhor cena do filme, essa é a do atropleamento do jovem Billy, que projectado bem alto e com o olho a sangrar, identifica o facto no céu. A música de James Horner é sempre uma mais valia e o genérico inicial é imperdível, seja por que razão for.
Paulo Ferrero
Cine-Australopitecus |
 |
dvcm76@gmail.com |
|
The Chumscrubber apresenta várias semelhanças com Donnie Darko, um dos meus filmes favoritos. Não vou descrever este último (o que, aliás, nem conseguiria, dada a sua complexidade), mas quem o viu terá certamente partilhado o meu deslumbramento face à sua riqueza de personagens e peripécias envoltas por uma aura onírica, ora libertadora ora opressora, mas sempre hipnótica.
The Chumscrubber, todavia, fica distante deste patamar de qualidade. A sua descrição da vida num subúrbio abastado de uma cidade norte-americana tem demasiado de paródia de costumes para conseguir instilar algo de mais profundo no espectador do que curiosidade e entretenimento moderados. As situações e personagens surgem como demasiado exageradas, caindo, por várias vezes, na fronteira da inverosimilhança. Penso que a história exigiria uma atmosfera mais sombria para obter o seu máximo impacto.
Considero, contudo, que este filme é uma experiência suficientemente aprazível para justificar uma ida ao cinema. Aqueles que sintam algum interesse por aflorar o mal de vivre que aflige as classes altas da sociedade nos países desenvolvidos não deverão dar o seu tempo por mal empregue.
Apesar das limitações patenteadas, às quais já fiz referência, The Chumscrubber é digno de aplauso por tentar expor o importante problema da alienação do ser humano na sociedade contemporânea cada vez mais asséptica e impessoal.
Nota final 6 em 10.
Dinis Mota
|
|
|
| |
|
|
| |
|
|
| |
|
|
|