SHOHEI IMAMURA (1926 - 2006)

O realizador japonês Shoei Imamura, duplo vencedor da Palma de Ouro em Cannes com «A Balada de Narayama» e «A Enguia», faleceu aos 79 anos.

Comentário de: João Lopes

 
 
 
   
 
Morreu SHOEI IMAMURA, o primeiro realizador japonês a ver dois dos seus filmes receberem a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Tinha 79 anos.

Shoei Imamura, que faleceu a 30 de Maio vítima de cancro de fígado aos 79 anos, era considerado um dos mais importantes realizadores japoneses desde Akira Kurosawa. Como declarou uma vez, "pergunto-me o que diferencia os humanos dos outros animais. O que é um ser humano? Continuo a fazer filmes em busca da resposta". As personagens dos seus filmes eram fortes, de espírito rebelde ou mesmo criminosas. A sua existência era determinada pela realidade e esta normalmente era a da luta pela sobrevivência. Por exemplo, em «Narayama Bushiko / A Balada de Narayama», Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1983, contava-se a história de um homem que seguia a tradição da sua vila ao deixar a sua mãe morrer no cume da montanha para assim reencontrar-se com Deus e que acaba por descobrir a sua própria humanidade.

Nascido a 15 de Setembro de 1926, Shoei Imamura entrou para a escola técnica para escapar ao recrutamento para o exército imperial japonês. Após estudar na prestigiada Universidade de Waseda, teve a sua primeira grande oportunidade de trabalhar em 1950 como assistente do aclamado realizador Yasujiro Ozu, no mesmo ano em que o visionamento de «Rashomon», de Akira Kurosawa, símbolo da nova liberdade do Japão do pós-guerra, se revelou uma primeira influência artística.

Shoei Imamura, cujos primeiros filmes datam de 1958, foi também ele pioneiro de uma Nova Vaga no cinema japonês (de que faz igualmente parte, por exemplo, Nagisa Oshima), afastando-se dos temas clássicos de Ozu, em cujo estilo refinado não se reconhecia, e focando atenções sobre as pessoas mais desfavorecidas que estavam no fundo da rígida estrutura social japonesa, misturando o real com a ficção e explorando ao mesmo tempo temas tabú na sociedade, como o incesto e a prostituição. Esses são os casos de «Nippon konchuki / The Insect Woman» (1963), o filme que o apresentou ao público ocidental, tendo valido o prémio de Melhor Actriz (Sachiko Hidari) no Festival de Berlim, e «Jinruigaku nyumon: Erogotshi yori / Os Pornógrafos» (1966).

Menos prolífero a partir da década seguinte, assina em 1975 «Karayuki-San», documentário em que retrata as mulheres japonesas que eram enviadas como prostitutas para o Sudeste Asiático para acompanhar as tropas no período de guerra. Em «Kuroi ame / Chuva Negra» (1989), retratou os acontecimentos posteriores ao lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima, enquanto «Unagi / A Enguia» (1997), história de um homem que comete um crime passional e na prisão encontra uma enguia que se tornará o seu animal de estimação, lhe valeu uma segunda Palma de Ouro. O actor Koji Yakusho, que trabalhou com o realizador nesse filme e em «Akai hashi no shita no nurui mizu / Warm Water Under a Red Bridge» (2001), considerou Shoei Imamura "o tesouro" do cinema Japonês. O seu último trabalho foi a colaboração no filme «11’09’’01 – 11 Perspectivas», compilação de curtas-metragens sobre os eventos do 11 de Setembro de 2001.

02-06-2006

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* Shohei Imamura: Senses of Cinema.

* Fotografias (esquerda): «Nusumareta yokujo / Stolen Desire» (1958), «Nianchan / My Second Brother» (1959), «Buta to gunkan / Pigs and Battleships» (1961), «Nippon konchuki / The Insect Woman» (1963), «Akai satsui / Unholy Desire» (1964), «Jinruigaku nyumon: Erogotshi yori / Os Pornógrafos» (1966), «Ningen Johatsu / A Man Vanishes» (1967).

* Fotografias (direita): «Kamigami no Fukaki Yokubo / The Profound Desire of Gods» (1968), «Fukushû suruwa wareniari / Vengeance Is Mine» (1979), «Eijanaika / Why Not?» (1981), «Narayama Bushiko / A Balada de Narayama» (1983), «Kuroi ame / Chuva Negra» (1989), «Unagi / A Enguia» (1997), «11’09’’01 – 11 Perspectivas» (2002).


João Lopes  
Um olhar sereno

Em 1989, tive o privilégio de entrevistar Shohei Imamura durante o Festival de Cinema de San Sebastian. Não foi uma entrevista muito compensadora, dadas as circunstâncias que a enquadravam. Para além da sua duração relativamente curta (20 minutos, salvo erro), Imamura não se exprimia noutra língua que não o japonês: era preciso, por isso, passar por uma tradutora que ia reconvertendo as perguntas que eu formulava em inglês e depois, claro, as respostas.

A entrevista foi a propósito da passagem de «Chuva Negra», obra-prima que, infelizmente, se manteve comercialmente inédita em Portugal (confesso que não me recordo se teve alguma outra passagem, por exemplo na Cinemateca) — fotografado num impressionante preto e branco, é das coisas mais admiráveis que já vi sobre a bomba atómica de Hiroshima e, mais concretamente, sobre o seu efeito num grupo de anónimos sobreviventes. Lembro-me que Imamura insistia na necessidade de lidar com a crueza da história, sobretudo da história vivida pelas personagens mais desfavorecidas, não apenas pela existência social, mas pelas próprias regras dramáticas do cinema.

E se é verdade que, com a mediação algo crispada da tradução, não senti que tivesse sido possível estabelecer um verdadeiro diálogo, não é menos verdade que nunca esqueci o olhar sereno de Imamura. Era o olhar de um desencantado actor/espectador da história do seu próprio país, empenhado em não se satisfazer com nenhuma visão automática ou panfletária dos factos. Tudo isto, se me lembro correctamente, no meio de cigarros acesos uns atrás dos outros. Mas pode ser a minha memória a corrigir, ou a dramatizar, a emoção dos factos.

J.L.

02-06-2006