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Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue
Título original: Shooting Dogs /Beyond the Gates
Realização: Michael Caton-Jones
Intérpretes: John Hurt, Hugh Dancy, Claire-Hope Ashitey, David Gyasi, Dominique Horwitz, Nicola Walker
Alemanha/Grã-Bretanha, 2005
Estreia: 4 de Maio de 2006
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Um padre e um professor são apanhados no meio da tragédia no Ruanda, palco de um genocídio em 1994. Joe Connor foi exercer a sua profissão de professor para o Ruanda, por acreditar que podia fazer a diferença. Quando a sua escola se torna um refúgio para milhares de ruandeses a fugir do genocídio, Joe promete à sua aluna mais brilhante, Marie, que os soldados das Nações Unidas a protegerão das milícias extremistas, sedentas de sangue, que se encontram no exterior da escola.
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* Baseado em factos verídicos.
* Página da Amnistia Internacional Portuguesa sobre o Ruanda.
* Michael Caton-Jones, John Hurt e Hugh Dancy no CINEMA2000. |
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João Lopes
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O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 5 de Maio de 2006.
Entre memórias e culpas
Apesar do efeito de normalização imposto pela maior parte dos modelos informativos da televisão, o cinema não abdica de lidar com algumas das referências mais quentes da história contemporânea. O genocídio do Ruanda, em 1994, é um dos temas que tem emergido em alguns títulos recentes: «Hotel Ruanda» (2004) será o principal exemplo dessa preocupação, simultaneamente moral e formal, de encontrar vias para organizar as memórias do assassinato de cerca de um milhão de tutsis pelas milícias hutus. «Shooting Dogs», entre nós chamado «Testemunhos de Sangue», é mais uma aposta na mesma via.
Como uma espécie de trauma original, emerge aqui o legado de profundas divisões que a herança colonial deixou neste pequeno país de África. Não que seja possível compreender factos tão brutais apenas a partir da culpa que o “mundo ocidental” (e, em particular, a Europa) transporta na sua memória colectiva. Em todo o caso, todo o labor de «Testemunhos de Sangue» deriva nesse sentido.
O filme concentra a sua acção numa escola dirigida por um padre (John Hurt) e um professor (Hugh Dancy), escola que acaba por funcionar como quartel-general de um batalhão de capacetes azuis da ONU. Há em «Testemunhos de Sangue» a preocupação de definir uma teia de personagens e relações que supere a mera “ilustração” dos factos, sublinhando em particular o imobilismo da ONU face às evidências crescentes do genocídio. Em todo o caso, o seu projecto narrativo (e, em última instância, político) vai-se esgotando na reiteração da tal culpa “colectiva”, reduzida a estratagema simplista de sustentação das boas consciências.
Não que o filme seja mal intencionado. Não são as intenções que estão em causa, mas a facilidade básica do próprio trabalho cinematográfico. Logo depois de «Testemunhos de Sangue», Michael Caton-Jones dirigiu «Instinto Fatal 2» e o menos que se pode dizer é que o cinema não ganhou muito com a evolução. |
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gonn1000@hotmail.com |
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ÁFRICA DELES
Embora seja realizador há já alguns anos - o seu primeiro filme, "Scandal", data de 1989 -, Michael Caton-Jones nunca foi dos mais estimulantes, antes um tarefeiro por vezes competente mas cujas obras não apresentam consideráveis doses de inspiração ou personalidade.
"Instinto Fatal 2", estreado este ano, evidencia esse cenário, porém "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue", que chegou recentemente - e de forma bem mais discreta - às salas, está uns furos acima desse e de outros títulos banais de Caton-Jones, como "Doc Hollywood" ou "O Chacal".
Inspirado no massacre ocorrido no Ruanda em 1994, onde cerca de 800.000 tutsis foram assassinados por milícias de etnia hutu, "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue" baseia-se nas experiências de um jornalista da BBC, David Belton, que esteve presente durante os trágicos acontecimentos, e foi filmado nos locais onde decorre a acção do filme, maioritariamente numa escola nos arredores da capital que serviu de quartel-geral provisório para os soldados da ONU.
A película acompanha o empenho de um jovem professor idealista recém-chegado e de um dedicado velho padre há décadas no local em salvar grande parte da população tutsi da zona que se refugiou na escola, o único local que lhes garante alguma segurança, pelo menos enquanto estiver também ocupado por representantes das Nações Unidas.
No entanto, a partir do momento que estes últimos recebem ordens de evacuar o país, nada impedirá que as milícias hutu, que cercam o local, dêm continuidade ao genocídio, colocando em risco não só os ruandeses mas também os estrangeiros que insistam em permanecer no local.
Duro e arrepiante retrato da carnificina resultante de situações extremas, "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue" convence ao aliar o foco de uma questão pertinente a uma abordagem emocionalmente intensa, evitando ceder à manipulação que prejudica, não raras vezes, projectos centrados em temáticas similares.
Conseguindo ser angustiante e reveladora sem recorrer ao sentimentalismo oportunista, a acção do filme desenvolve-se sem se limitar a uma mera ordenação esquemática de acontecimentos, privilegiando o contraste dos conflitos humanos, tanto interiores como exteriores.
O contributo dos dois actores principais é fulcral, e tanto o veterano John Hurt (seguro como sempre) como o jovem Hugh Dancy (com um desempenho que interliga eficazmente ingenuidade, receio e determinação), estão à altura do que lhes é exigido, compondo personagens com as quais é fácil estabeler empatia e cujas inquietações são bem verosímeis.
A realização de Caton-Jones, crua e despojada, próxima de um estilo documental, acentua o sentido de urgência e crispação, consolidando um realismo palpável, contribuindo também para que este seja um dos seus trabalhos mais sólidos.
Marcado por cenas onde emerge o pior e, por vezes, o melhor da natureza humana, "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue" é uma obra sentida e honesta que não merece passar despercebida, ainda que infelizmente, e à semelhança da situação que retrata, esteja quase condenada à indiferença de grande parte do público, pois ao contrário de, por exemplo, "Instinto Fatal 2", não conta com uma grande campanha promocional nem com um nome mediático no elenco.
Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com |
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Tiago Costa |
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Antes de se ter aventurado em terrenos de mau cinema chunga com Instinto Fatal 2, Michael Caton-Jones dirigiu mais uma reconstituição dos dramáticos acontecimentos que envolveram o genocídio em Rwanda. As boas intenções e honestidade do empreendimento são evidentes em todos os fotogramas, assim como a total falta de capacidade artística de Jones - o academismo primário da sua realização e um argumento inepto não conseguem mais do que alimentar o sentimentalismo mais fácil e a desinspiração de discursos políticos mal disfarçados de diálogos. As personagens são insignificantes figurantes no esquema narrativo do filme, perdidos entre a pobreza técnica que contamina todas as imagens e a encenação mais preguiçosa dos sangrentos massacres. E a indiferença com que as relações humanas são aqui retratadas (limitadas por interpretações pouco convincentes) constitui um obstáculo intransponível para as ambições dramáticas do projecto.
Tiago Costa
Claquete – O Cinema, cena a cena.
Fórum Claquete |
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almeida_rita@sapo.pt |
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SHOOTING DOGS
de Michael Caton-Jones
Os dois filmes de Michael Caton-Jones actualmente em cartaz, “Shooting Dogs” e “Basic Instinct 2”, não podiam ser mais distintos, e espero sinceramente que ninguém ponha em dúvida que bilhete comprar. E quem ache que tendo visto o filme “Hotel Rwanda”, já viu tudo o que há para ver sobre o massacre étnico que decorreu naquele país africano na Primavera de 1994, fique a saber que há espaço suficiente para mais do que um filme sobre este tema.
Ruanda, Abril de 1994. A Escola Técnica Oficial de Kigali é gerida, há 10 anos, pelo Padre Christopher (John Hurt). Joe Connor (Hugh Dancy) é um jovem professor, idealista e ingénuo que foi para África para «fazer a diferença». Infelizmente a história tem mostrado que a herança colonial deixada em África pelos ocidentais fez diferença, sim, mas não no melhor sentido e o Ruanda é mais um exemplo disso.
Quando o presidente ruandês Habyarimana é morto, tem início uma guerra étnica entre a maioria Hutu e a minoria Tutsi, que resultou na matança - sobretudo com catanas - de 800.000 Tutsis entre Abril e Junho de 1994. Rapidamente a escola, que também alberga forças de manutenção de paz da ONU, se torna um refúgio para os Tutsis.
Baseado numa história verídica (o co-argumentista, David Belton, é jornalista da BBC e estava no Ruanda quando começou o massacre), mas com personagens ficcionais, “Shooting Dogs” equilibra bem os eventos reais - foi filmado nos verdadeiros locais e com muitos sobreviventes desta tragédia como figurantes e técnicos - e o drama de um padre católico cuja fé é posta à prova pela hipocrisia dos políticos Hutu e por toda aquela carnificina; de um dedicado professor que procura em si a coragem de ficar e lutar ao lado dos seus alunos; e de um oficial da ONU, o Capitão Charles Delon (Dominique Horwitz), impedido de interferir no conflito, ironicamente limitado a matar os cães que comem os cadáveres que cercam a escola para prevenir um risco de saúde pública.
Apesar do filme ser apresentado do ponto de vista de estrangeiros, a sua convicção, compaixão e força não surgem diminuídos. E da inevitável comparação com “Hotel Rwanda” atrevo-me a dizer que “Shooting Dogs” sai a ganhar. Condenado a ficar na sombra do primeiro, dado o timing de lançamento e a projecção dos Oscar, este filme é mais poderoso do ponto de vista do relato histórico. É também mais duro e Caton-Jones revela mais coragem que Terry George ao abordar o tema da raça como motivo da indiferença internacional, quando Rachel (Nicola Walker), a jornalista da BBC, fala de como se comoveu com o massacre do Kosovo, pela identificação com aquelas pessoas, enquanto que ali permanecia indiferente, mesmo contra a sua vontade, porque «são apenas africanos mortos». É a existência de europeus na escola que lhe dá o motivo para fazer uma reportagem.
O mais marcante deste filme é o vazio deixado pelo resto do mundo, a grande apatia internacional. As imagens de arquivo da porta voz do Departamento de Estado dos EUA debatendo a diferença semântica entre ‘actos de genocídio’ e ‘genocídio’, sendo que o último obrigaria a comunidade internacional a intervir continua a fazer-me sentir o estômago às voltas.
“Shooting Dogs” está cheio de referências religiosas e de dúvidas morais. Mas, abstraindo-nos dos conceitos mais fechados de ‘Deus’, é de amor que se trata, essa força comum que une todos os seres. De uma forma honesta e pungente, “Shooting Dogs” faz um retrato tocante sobre a humanidade e sobre a assustadora capacidade do homem de infligir, por puro medo, a maior das crueldades sobre o seu irmão.
Talvez o grito de África acorde em nós algum sentimento de culpa, que surge camuflado no altruísmo de dar algo em troca. Mas este é um filme que todos os ruandeses quereriam que o mundo visse. Devemos-lhes, pelo menos, isso. Ainda que nos custe algumas lágrimas.
Para saber mais:
http://www.shootingdogsfilm.blogspot.com
http://rwandansurvivors.blogspot.com
RITA ALMEIDA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/ |
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João Pedro Eira |
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Honesta e sentida recordação ficcionada, baseada em acontecimentos reais, dos trágicos eventos do Verão de 1994 no Rwanda, em que várias centenas de milhar de tutsis perderam a vida numa tentativa de limpeza étnica levada a cabo pela etnia utu, sua rival. Comparando com o produto de Hollywood sobre o mesmo tema, Hotel Rwanda, esta obra é superior em toda a linha, com destaque para a honestidade do tratamento, fugindo ao facilitismo da manipulação emocional gratuita que abundava no filme citado. Shooting Dogs é, do ponto de vista técnico, visual e mesmo narrativo um filme limitado. Contudo, o sentimento de autenticidade emocional que perpassa para o espectador durante o seu visionamento garante aquele que era, porventura, o seu máximo objectivo - lembrar-nos que, por vezes, a barbárie está muito mais próxima da nossa própria natureza humana do que aquilo que gostaríamos de pensar.
João Pedro Eira
Claquete – O Cinema, cena a cena.
Fórum Claquete
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JORGE PINTO |
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O século XX fica marcado por ser uma época de mortes derivada das guerras e dos genocídios. Quase todos os continentes foram afectados por este flagelo, e no final do século, na era global, o genocídio chegou ao continente africano.
«Shooting Dogs» é baseado nos massacres que ocorreram nos anos 90 no Ruanda, uma antiga colónia da Bélgica onde as fortes divisões entre as duas principais etnias (hutus e tutsis) fizeram eclodir um massacre que resultou na morte de 800 mil pessoas.
O jornalista da BBC na altura no Ruanda presenciou os massacres em escala e a impotência do mundo ocidental perante o cataclismo. Anos mais tarde, chegou ao seu conhecimento que um padre seu amigo foi morto durante o conflito. Este transportava crianças na sua carrinha, tentando salvá-las dos massacres. Esta história de coragem levou-o a escrever «Shooting Dogs», que foi adaptado por David Wolstencroft para o cinema.
Neste filme vamos observar o drama que ocorreu numa escola (ETO) nos arredores da capital do Ruanda. Este local serve de exemplo para muitas das situações semelhantes que ocorreram no país. A ironia desta situação está no facto de estarem concentrados na altura neste local as forças de paz da ONU. De facto, as congregações religiosas, as forças da ONU e as organizações humanitárias, quando chegou a altura de evacuarem do Ruanda, partiram deixando as populações tutsis indefesas, revelando-se impotentes para impedir os massacres.
O filme é uma perspectiva de dois indivíduos ocidentais (Christopher e Connor), que são representativos das populações brancas do Ruanda. Cada um vai fazer a sua escolha e desempenhar o seu papel nesta tragédia. A questão no filme, para além dos relatos dos acontecimentos, é uma visão na primeira pessoa de um jovem idealista (Connor) que pensa que pode impedir a chacina na sua escola. Fica no ar a questão do que faria o espectador numa situação semelhante.
vai obviamente ser comparado a «Hotel Ruanda», uma produção americana de 2004. Os acontecimentos descritos em ambos são comuns, mas de pontos de vista diferentes. O filme que agora estreia é igualmente dramático, mas talvez mais humano, enquanto «Hotel Ruanda» consegue dar uma visão mais abrangente do conflito ao público. O objectivo de «Shooting Dogs» é diferente. Não há grande preocupação em descrever o que leva as populações a cometer as atrocidades. É uma visão muito unilateral dos acontecimentos, que se sucedem com consequências nefastas.
John Hurt é um dos grandes actores de cinema ainda no activo e tem aqui mais um bom desempenho na sua carreira. Ao seu lado estão outros actores que ajudam ao desenvolvimento dramático, mas acrescentam pouco mais. A realização é de Michael Caton-Jones, que evita realizar uma película mais comercial e confere bastante realismo à história.
A nível histórico, «Shooting Dogs» deve ser visto como complemento a «Hotel Ruanda» e não como uma repetição. No aspecto cinematográfico é um drama de uma violência intensa. É errado pensar que estes massacres foram representativos de outras situações no mundo. Este desastre ocorreu porque o continente africano é um lugar esquecido, um pormenor que o filme foca de uma forma quase documental.
Jorge Pinto |
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