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Gabrielle
Título original: Gabrielle
Realização: Patrice Chéreau
Intérpretes: Isabelle Huppert, Pascal Greggory, Claudia Coli, Thierry Hancisse, Chantal Neuwirth, Thierry Fortineau
França/Alemanha/Itália, 2005
Estreia: 26 de Janeiro de 2006
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Eurico de Barros | João Lopes | Média dos Espectadores |
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Uma casa onde as pessoas gostam de ir. Longas noites inteiras são passadas a ouvir, a ver, a rir e a falar disto e daquilo. É a vantagem de ter um círculo de "habitués": todos se conhecem uns aos outros.
De repente quando tudo parecia correr bem, algo de mau acontece. Um dia alguém sai e tarda em regressar.Quando a campainha finalmente toca, algo muda drasticamente.
Um dia, um homem e uma mulher, encontram-se nessa casa e vêem-se como realmente são pela primeira vez. Um quer algo, o outro não. Um quer conversar, o outro não. É difícil viver na mesma casa quando não se querem as mesmas coisas.
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João Lopes
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Este texto foi publicado na revista «6ª», do «Diário de Notícias» (27 Jan. 2006), com o título `Quem ama quem?`.
Num mundo afogado pelo naturalismo moralista das telenovelas, que espaço ainda existe para o melodrama? Uma resposta possível estará neste prodigioso «Gabrielle», realizado por Patrice Chéreau a partir do conto The Return, de Joseph Conrad, incluído na antologia «Tales of Unrest» (primeira edição: 1898). Se o melodrama resulta de uma aliança particular entre “música” e “drama”, então esta é uma viagem a paisagens remotas da sensibilidade humana, encenada através de um tom operático que resulta tanto da música original (da autoria do italiano Fabio Vacchi) como da subtil musicalidade interna de todos os detalhes visíveis e emoções invisíveis.
Esta é a crónica de uma crise conjugal em ambiente burguês do começo do século XX (a adaptação, co-assinada por Chéreau e Anne-Louise Trividic, transfere a acção para Paris, cerca de 1912). No centro da crise está o súbito abandono do lar por parte da mulher, Gabrielle (Isabelle Huppert), trocando o marido, Jean (Pascal Greggory), por outro homem. Quando Gabrielle regressa, no final do mesmo dia em que escrevera uma carta ao marido a despedir-se para sempre, o casal confronta-se com a dramática reavaliação de toda a sua vida comum: quem ama e quem é amado?
Estamos muito longe do estilo asséptico das reconstituições históricas em que os sinais de uma determinada época são tratados como uma obrigatória mais-valia “artística”. Chéreau fixa-se obsessivamente na belíssima teatralidade das palavras, a ponto de sentirmos cada diálogo como o palco de uma obstinada procura da verdade. Ao mesmo tempo, as pulsões amorosas emergem como “coisas” que rasgam todas as hierarquias sociais e financeiras — veja-se, por exemplo, a admirável sequência em que Gabrielle se confessa à sua criada, Yvonne (Claudia Coli).
Chéreau chegou, assim, a uma espantosa e paradoxal síntese expressiva: por um lado, o seu trabalho continua a possuir a imponência de «A Rainha Margot» (1994); por outro lado, o realismo reencontrado em «Intimidade» (2001) trouxe-lhe um gosto minimalista pelas mais remotas convulsões dos actores e das palavras. «Gabrielle» é uma apoteose desse cinema que não abdica da sua singularidade expressiva. |
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almeida_rita@sapo.pt |
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GABRIELLE
de Patrice Chéreau
Eu gostei muito de “Intimité” (2001) e de “Son frère” (2003) e queria muito ter gostado de “Gabrielle”. Mas não consegui. Patrice Chéreau conseguiu fazer aqui um filme aborrecidíssimo, apesar de existirem algumas boas ideias.
1912. Jean Hervey (Pascal Greggory) e Gabrielle Hervey (Isabelle Huppert), casados há 10 anos, são os perfeitos anfitriões das noites da burguesia parisiense, organizando todas as quintas-feiras uma festa que reúne bem-pensantes e bem-falantes, numa competição acérrima com as melhores reuniões de sociedade.
Um dia, como todos, Jean regressa a casa depois de um dia de trabalho. A sua confortável rotina é perturbada pela carta deixada por Gabrielle anunciando-lhe que o abandona. Passadas umas horas, Gabrielle regressa a casa, e é este regresso (mais que o abandono) que provoca um verdadeiro cataclismo na vida do casal.
Com a adaptação do romance “O Regresso” de Joseph Conrad, Chéreau convida-nos a assistir à derrocada de um casal, a uma tentativa desesperada de voltar atrás e reconstruir. Uma relação que nunca foi de amor torna-se uma luta de recriminações onde se esmiúça a traição. Pela primeira vez, os sentimentos são despertados, e Jean e Gabrielle dão-se conta de que nunca se conheceram verdadeiramente. E mesmo agora, que falam um com outro, falam, sobretudo, de si mesmos.
Chéreau opta pelo teatral, por sombras verdes e luzes amarelas, por um ritmo que nos cansa. O uso estilístico do preto e branco, que parece de início remeter para momentos mais introspectivos de Jean, rapidamente se torna arbitrário. Os momentos dramáticos mais fluidos do filme são interrompidos por frases em letras garrafais, à moda do cinema mudo. “Gabrielle” é tão de época que dificilmente conseguimos uma leitura universal com a qual nos possamos identificar e envolver. Não se percebe a utilidade do papel da empregada Yvonne (Claudia Coli) e o excesso musical ao longo de todo o filme é verdadeiramente irritante.
Os próprios diálogos oscilam entre o cliché que é Jean (“Eu amava-a como um coleccionador ama uma bela escultura.”) e a forçada modernidade de Gabrielle (“A ideia do teu esperma dentro de mim é insuportável.”). Porque a sua vergonha não é a de ter fugido, mas a de ter regressado, de lhe ter faltado coragem para viver um amor que exigiria demasiado dela.
E todos estes problemas prejudicam a interpretação de dois bons actores. Isabelle Huppert é fria, impenetrável e frágil, mas Gabrielle tem problemas tão interiorizados que não conseguimos entendê-los. Do choque à negação, a quebra da identidade de Jean é claramente mostrada por Pascal Greggory.
Mas, pelo lado positivo, há três cenas que se destacam. O contraste entre a belíssima cena inicial, em que Jean regressa a casa, falando e olhando de frente para a câmara, e a final, em que ele se afasta em silêncio e apenas vemos as suas costas. E ainda a exímia filmagem da conversa entre os convidados na primeira festa, onde a câmara dança de um para outro, como se de um baile se tratasse.
É por esta capacidade de Chéreau de apanhar significados em pequenos detalhes, que custa tanto que o conjunto deste trabalho seja tão fraco. “Gabrielle” aflora um (des)equilíbrio, cruel e violento, entre verdades e mentiras, silêncio e palavras, onde se questiona se a coragem reside em permanecer ou fugir. Mas é só uma sombra do que poderia ter sido.
RITA ALMEIDA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/ |
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the_everl@hotmail.com |
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Não é um filme fácil, o novo de Patrice Chéreau que filma a decadência de um casal interpretado espantosamente por Isabelle Huppert e Pascal Greggory. Parece um filme desequilibrado em que tanto assistimos a cenas de enorme carga dramática como a outras aparentemente nulas. Tecnicamente ousado, mas por vezes decorativo (a alternância cor/preto e branco) “Gabrielle” não arranca nunca para o grande filme, sobrando, como já disse, os grandes actores e, principalmente, a personagem masculina, totalmente acabada enquanto ser humano.
A ver
Daniel Pereira
www.escrevercinema.blogspot.com
29-01-06 |
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