SHELLEY WINTERS (1920 - 2006)

Vencedora de dois Oscars pelos filmes «O Diário de Ann Frank» e «Uma Réstia de Azul, participou em vários clássicos, entre eles «Abraço Mortal», «Winchester `73», «Um Lugar ao Sol», «A Sombra do Caçador» e «Lolita».

Comentário de: João Lopes

 
 
 
   
 

Shelley Winters em «Lolita» (1962).
 
A 14 de Janeiro de 2006, morreu SHELLEY WINTERS. Depois de um início pouco auspicioso em papéis de rapariga sexy, fez a evolução para uma elogiada e premiada carreira dramática, reinventando-se várias vezes em filmes que são hoje grandes clássicos do cinema.

Shelley Winters nasceu a 18 de Agosto de 1920 (outras fontes apontam para 1922), como Shirley Schrift. Depois de uma infância sacrificada, teve alguns trabalhos como modelo e corista enquanto ganhava treino na interpretação em peças e musicais, antes de se estrear na Broadway em 1940. O patrão dos estúdios da Columbia Pictures, Harry Cohn, ofereceu-lhe um teste e colocou-a sob contrato e com um novo nome: Shelley Winters.

Papéis insignificantes em filmes como «A Cidade Que Dança», «Sailor`s Holiday», «Modelos» ou «Rio Vermelho» mostraram-lhe que não ia a lado nenhum. Depois do fim do contrato, optou por regressar a Nova Iorque e ao teatro. Os estúdios da Universal chamaram-na de regresso ao cinema e transformaram-na numa "bomba sexual" em filmes inconsequentes, mas distinguiu-se finalmente com «Abraço Mortal» (1947), de George Cukor, depois de ter feito campanha para ganhar o papel de empregada estrangulada pelo actor interpretado por Ronald Colman (o actor ganhou o Oscar para Melhor Actor).

Os papéis começaram a melhorar e a actriz foi ora acertando, ora falhando nos projectos. Em 1950, é sexy em Mulher Indomável», de Louis King, mas também trabalhou com James Stewart em «Winchester `73», de Anthony Mann. Nessa altura, o seu mau feitio e franqueza, imagem de marca ao longo da sua carreira, tornou-se particularmente notado: o normalmente bem-educado actor não se coibiu depois da rodagem de dizer que Winters devia ter sido espancada.

Em 1951, surge a primeira grande personagem da sua carreira e que lhe valeria a primeira nomeação para os Oscars: «Um Lugar ao Sol». Um papel que esteve quase a perder: George Stevens achou-a demasiado sexy para a personagem da jovem empregada fabril, grávida e morta por Montgomery Clift para que este ficasse livre para casar com a jovem socialite Elizabeth Taylor. Numa entrevista de 1962, a actriz recordou o que teve de fazer para entrar no filme: "Tirei toda a maquilhagem, puxei o meu cabelo para trás e sentei-me ao pé dele no Hollywood Athletic Club sem ele sequer me conseguir reconhecer porque eu parecia tão vulgar. Isso garantiu-me o papel".

Procurando sempre aperfeiçoar a sua formação, estudou com Charles Laughton (sete dias por semana ao longo de três anos, sem falhar uma noite) e no Actors Studio, e regressava ao teatro. No cinema, foi capaz do melhor e do pior, mas progressivamente surgiram papéis que exigiam mais das suas qualidades interpretativas que físicas. Ganhou Oscars como Actriz Secundária por alguns dos melhores: em «O Diário de Ann Frank» (1959), de novo às ordens de George Stevens, foi Petronella Van Daan, mãe de Peter Van Daan - o primeiro amor de Ann Frank -, uma das oito pessoas que esteve escondida no anexo na Holanda até serem denunciadas e enviadas para campos de concentração; e em «Uma Réstia de Azul» (1965, de Guy Green) era a odiosa mãe que tentava manter separados a sua filha branca e cega do jovem negro que se torna seu amigo. A primeira estatueta foi doada à Casa Anne Frank, em Amsterdão.

Destacou-se ainda muitas vezes em papéis audazes que estabeleceram a sua reputação de aceitar desafios, por exemplo em filmes como «Um Homem e Dez Destinos» (1954, Robert Wise), «A Sombra do Caçador» (1955, o único filme realizado por Charles Laughton), «I Am a Camera» (1955, Henry Cornelius), «No Reino da Calúnia» (1955, Robert Aldrich), «Homens no Escuro» (1959, Robert Wise), «The Young Savages» (1961, John Frankenheimer), «Lolita» (1962, Stanley Kubrick), «A Vida Íntima de Quatro Mulheres» (1962, George Cukor), «The Balcony» (1963, Joseph Strick), «A House Is Not a Home» (1964, Russell Rouse), «A Maior História de Todos os Tempos» (1965, George Stevens), «Harper, Detective Privado» (1966, Jack Smight), «Alfie» (1966, Lewis Gilbert), «Os Caçadores de Escalpes» (1968, Sydney Pollack) e o "inesquecível" «Wild in the Streets» (1968, Barry Shear).

Em 1970, foi a infame Kate `Ma` Barker em «O Dia da Violência», de Roger Corman, e em 1972 obteve a sua última nomeação para o Oscar como uma das passageiras de «A Aventura do Poseidon», o filme-catástrofe de Ronald Neame (que terá neste ano de 2006 um remake de Wolfgang Petersen). Desta fase, destacam-se igualmente dois filmes às ordens de Paul Mazursky — «Amantes em Veneza» (1973) e «Next Stop Greenwich Village» (1977) (voltariam a trabalhar juntos em 1993 no discutível «O Pepino») — e ainda «O Inquilino» (1976), de Roman Polanski. Continuou a trabalhar com frequência nos anos 80, em televisão e cinema — em «Tudo Boa Gente», de Blake Edwards, em 1981, e no popular «Força Delta» de Menahem Golan em 1986, por exemplo. Uma das suas últimas presenças foi em «Retrato de Uma Senhora» (1996), de Jane Campion.

Fora dos ecrãs, para além de ter lutado grande parte da vida com problemas de peso, Shelley Winters raramente estava longe das notícias. A sua vida pessoal, para além das suas opiniões políticas e sociais e também do seu estilo provocador, tornaram-na uma das convidadas preferidas dos talk-shows, onde se tornava um dos maiores pesadelos dos censores. Era também conhecida pela sua franqueza, como ficou testemunhado nas suas duas autobiografias, grandes êxitos de vendas: "Shelley, Also Known as Shirley" (1980) e "Shelley II: The Middle of My Century" (1989). Nelas desfiou pormenores sobre a sua tumultuosa vida pessoal: entre os seus maridos contaram-se os actores Anthony Franciosa e Vittorio Gassman; entre os amantes Burt Lancaster, William Holden, Marlon Brando, Sean Connery, Errol Flynn e Clark Gable. A propósito de Holden, com quem teve breves encontros anuais ao longo de sete anos, Winters escreveu que, apesar da intimidade, continuavam a tratar-se um ao outro por "Mr. Holden" e "Miss Winters". Quando se encontraram na rodagem de «Tudo Boa Gente» em 1981 e ela o cumprimentou da forma habitual, o actor sorriu e respondeu: "Shelley, depois do teu livro, acho que me devias tratar por Bill".

15-01-2005


João Lopes  
Ter ou não ter "imagem"

Shelley Winters foi uma grande senhora da arte de representar, porventura contra si própria — ou melhor, contra a imagem que, sobre ela, a indústria quis construir. Dito de outro modo: a imensa carreira da actriz (cerca de 120 títulos em mais de meio século de trabalho regular) nasceu e, em grande parte, foi sustentada pela sua «colagem» a um modelo de vedeta em que o look estereotipado de vamp parecia impor-se a qualquer hipótese mais subtil de representação.

Que as coisas não foram assim, provam-no as dezenas de filmes em que Shelley Winters, mesmo não assumindo personagens centrais, soube deixar marcas inesquecíveis de uma vibrante arte de representar, genuinamente enraizada nas lições emocionais e dramáticas do Actors Studio. Aliás, não será por acaso que ela possui no seu curriculum uma proeza apenas partilhada por outra actriz (Dianne Wiest): dois Oscars referentes a papéis secundários. Shelley Winters foi, final, uma exuberante encarnação dessa tradição muito "hollywoodiana" que faz dos melhores secundários, não meros "figurantes" de narrativas sustentadas por outros, mas sim presenças essenciais na dramaturgia de muitos filmes.

Para quem não conhece o trabalho de Shelley Winters, um dos seus derradeiros papéis (Mrs. Touchett), em «Retrato de uma Senhora» (1996), de Jane Campion, pode ser uma hipótese de descoberta. Entre outros títulos disponíveis em DVD, vale a pena citar os obrigatórios «Um Lugar ao Sol» (1951), de George Stevens, e «Lolita» (1962), de Stanley Kubrick, ou ainda o original «Alfie» (1966), de Lewis Gilbert, onde ela tem algumas cenas magníficas, contracenando com Michael Caine.

J. L.