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Aurora
Título original: Sunrise: A Song of Two Humans
Realização: F.W. Murnau
Intérpretes: George O`Brien, Janet Gaynor, Margaret Livingston, Bodil Rosing, J Farrell MacDonald
EUA, 1927
Reposição: 13 de Outubro de 2005
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Eurico de Barros | João Lopes | Média dos Espectadores |
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Um agricultor tem um caso tórrido com uma rapariga da cidade, que o incentiva a matar a sua esposa. Porém, ao tentar levar a cabo o plano, ele volta a encontrar o amor perdido.
Um dos filmes mais meticulosos e belos da história do cinema, determinante para se começar a compreender o cinema como arte e uma das mais míticas referências clássicas, «Aurora» é agora reposto no cinema Nimas de Lisboa. Pelo seu papel de esposa, Janet Gaynor foi a primeira galardoada com o Oscar de Melhor Actriz, tendo o filme sido igualmente galardoado na categoria de Qualidade de Produção e Fotografia.
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* Wikipedia: «Sunrise»
* Greatest Films Landmarks in Classic Hollywood/American Films Ensaio sobre «Sunrise». |
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João Lopes
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Uma obra-prima absoluta — um filme para ver e rever, sempre com o deslumbramento do cinema em estado nascente.
A arte de F. W. Murnau (1888-1931) é um território imenso ao qual é possível regressar sempre, num misto de deslumbramento e surpresa. Daí que importe lembrar o mais simples: a reposição do seu «Aurora» (1927), neste Outono de 2005, é muito mais do que o regresso de uma curiosidade "antiga", porventura para ser olhada como objecto de um kitsch mais ou menos datado. Nada disso: estamos perante um título chave da história de todo o cinema, um desses filmes de génio que, no período mudo, ajudaram a consolidar o cinema como linguagem específica e, ao mesmo tempo, através da sua viagem pelas mais subtis emoções humanas, impuseram o género melodramático.
História de um casal — Janet Gaynor / George O`Brien — cujo amor vai ser posto à prova pela emergência de um terceiro elemento (a "mulher da cidade" interpretada por Margaret Livingston), Aurora pode ser visto (ou revisto) como um caso modelar através do qual o cinema integrava e, sobretudo, superava a herança de duas artes: o teatro e a pintura. Murnau faz triunfar um sentido de narrativa que correspondia à singularíssima afirmação da linguagem cinematográfica. Quase oitenta anos depois, a beleza permanece.
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E uma nova aposta que se saúda: a Medeia inaugura, com «Aurora», uma nova fase de programação do Nimas (Lisboa), agora dedicada a grandes títulos clássicos da história do cinema. Na distribuição do filme de Murnau surge a chancela da Costa do Castelo, empresa que, em particular no mercado específico do DVD, tem tido um papel relevante na divulgação de muitos filmes antigos (Ford, Bergman, Pasolini, etc., etc.).
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marisa@costacastelo.pt |
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Apenas de referir que ao ler todos os comentários, devo apenas de corrigir,o seguinte, SUNRISE: A Song of Two Humans - AURORA, é um filme lançado pela COSTA DO CASTELO FILMES no Nimas e não pela Medeia.
Em relação a "IL GATOPARDO" - "O LEOPARDO" de Visconti, a sua distribuição confirma-se no NIMAS pela COSTA DO CASTELO FILMES, muito em breve.
Cumprimentos e ao Dispor.
Marisa Ferreira |
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jcadilhe@netcabo.pt |
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Sunrise: A Song of Two Humans – Friedrich Murnau (1927)
A mais bela história de amor que já alguma vez vi. Uma autêntica revolução de sentimentos e emoções da forma mais poética e intensa a que pude presenciar. Murnau com este filme regista a sua entrada no mundo americano de Hollywood, depois de “Nosferatu” e “Fausto” com um filme simplesmente perfeito. É um dos melhores de sempre do cinema!
Assim, um homem camponês (George O’Brien), já casado e com uma filha é seduzido por uma mulher chegada da cidade (Margaret Livingston). Em nome de uma paixão fervilhante, decidem montar um plano para assassinar a mulher (Janet Gaynor) que parecia estar a ameaçar agora a felicidade de uma recente relação. Na incapacidade de fazer valer os seus esquemas, o homem redescobre o amor pela sua mulher numa aurora vencedora.
Este filme é uma excelente travessia por um mundo em plena industrialização, marcado por um êxodo rural intenso, onde a movimentada vida das cidades se contrapunha a uma tranquila vida do campo. Podemos constatar momentos onde se sente a presença dos pressupostos sociais Homem/Mulher da altura assim como de poder confrontar os costumes e hábitos populares no meio de uma cidade. Os binómios noite/dia, bem/mal, cidade/campo, alegria/tristeza, estão claramente patentes no conceito do filme.
Ao longo da acção, sofremos o dramatismo desta história. Não podemos criar barreiras nem formas de resistência tal a carga poética e simbólica que Murnau explora. Na verdade os grandes planos e a sobreposição de imagens, para além da narração pela repetição da legendagem potenciam muito esta ambiência. Mas a mestria deste filme, a meu ver, reside ainda na construção de momentos de humor e grande descontracção. As cenas do beijo no cruzamento, do cabeleireiro, da sessão de fotografia ou a cena do porco na Feira Popular são excelentes motivos para dar uma dimensão conceptual ao filme incalculável. O humor mistura-se num drama terrível de amor, tal como a anunciação da aurora pela noite…
Simplesmente OBRIGATÓRIO!
José Cadilhe
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TIAGO PIMENTEL |
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Renascimento
Louis Lumiere disse, enquanto as pessoas se perdiam no deslumbramento de um comboio projectado pelo histórico cinematógrafo: o cinema é uma invenção sem futuro. Olhamos para «Aurora» e forçamo-nos a uma correcção que Lumiere não terá previsto: o cinema pode ser uma invenção sem passado, sem presente e sem futuro. Sem nenhum ou com todos, o valor final transcende a mera soma dos factores e redescobrimos «Aurora» como um objecto sem lugar no tempo: foi feito há quase 80 anos mas continua a ser actual. Que ilusão o faz aproximar dessa errância específica de não ser dono de tempo nenhum? É falado, sem o ser. Tem todas as cores do universo, sem as ter. A ilusão estará também em Janet Gaynor, algures entre a elegância rústica do seu penteado tímido e os caracóis soltos pelo mar. Actriz que - é bom relembrar - pontuou a história dos Oscars com uma curiosidade inédita: a de ter sido a única actriz a ganhar um Oscar por vários papéis no mesmo ano («Aurora», «Seventh Heaven» e «Street Angel»). Foi também uma das poucas, de uma geração específica de actores, que conseguiu transitar do período mudo para o cinema ‘falado’ – dizia-se, na altura, que a sua voz encantadora soava bem (e, em meados dos anos 30, era mesmo a actriz do momento em Hollywood) mas alguns perceberam que Janet transportava consigo a herança do actor mudo: aquele que representa sem precisar de falar.
E é essa a ilusão de que se falava. A maior de todas: a ilusão de tudo ouvirmos, sem, no entanto, nada ser falado. No limite, a ilusão de que uma imagem, em cinema, arrasta em si mais verdade do que o real que olhamos à nossa volta (precisamente o oposto do que Lumiere previra, pensando que as pessoas se cansariam de olhar para imagens que poderiam ver no seu dia-a-dia). Em «Aurora» vive-se a apoteose dessa ilusão do mudo (e porque não do cinema?). A sensação de deslumbramento perante cada imagem, como se as descobríssemos, pela primeiríssima vez, no seu indefinivel encanto. Sem querer beliscar nenhuma sensibilidade em particular (a começar pela minha), importa referir que, na vanguarda da indústria digital, nem todos os efeitos especiais juntos conseguem reproduzir o estarrecimento de um plano pelicular de «Aurora». Daí que, no final, o nascimento do sol pareça queimar a própria fita; é da película que surge o assombramento, da possibilidade de fotografarmos o mundo como paisagens queimadas por um olho obsessivo que ilumina os rostos e os corpos como deuses do seu próprio mundo.
É, antes do mais, um melodrama modelar para outros grandes clássicos que se lhe seguiram (desde Minnelli, a Cukor) e habita, justamente, nas mesmas fraquezas que nos tornam assustadores e encantatórios, nos limites da nossa identidade. «Aurora» revisita um casal (George O’Brien / Janet Gaynor) contaminado pela presença de uma terceira parte: a «mulher da cidade» (Margaret Livingston). Levado ao extremo dos seus limites, os dois protagonistas, ligados umbilicalmente por uma força que consome a repulsa, redescobrem-se no amor que julgavam perdido. Em boa verdade, há um sentido trágico que acompanha todo este melodrama e que desembocará, seja de que maneira for, nas águas daquele mar. É nessas águas que se jogam os destinos dos personagens: assustados pela morte, mas despertos pela possibilidade do renascimento. Uma obra prima absoluta e intemporal, a (re)descobrir no cinema Nimas, em cópia restaurada.
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Tiago Pimentel
tiago_pimentel@hotmail.com
www.vivercontraotempo.blogspot.com |
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the_everl@hotmail.com |
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Para não se entrar em repetições sobre a qualidade inegável do filme deixo aqui a minha experiência de ver "Aurora" pela primeira vez.
Foi na Cinemateca Portuguesa, na pequena sala Luís de Pina. Julgo que a capacidade é de 49 lugares. No final da sessão 98 mãos bateram palmas à obra-prima de Murnau. Os espectadores, com certeza, sairam mais felizes daquela sala. Não podia ter sido melhor.
Obra-prima
Daniel Pereira
30-10-05
www.escrevercinema.blogspot.com |
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jtrb79@hotmail.com |
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Depois de se ver "Aurora", é complicado não o considerar o mais trágico, logo belo, melodrama da história. Um dos expoentes máximos do cinema mudo, é uma daquelas obras onde o Mal foi melhor representado, corroendo até ao limite a mais cristalina inocência. Utilizando brilhantemente a essência da arte cinematográfica( jogo de luz e sombra),-se o cinema foi inventado, foi para monumentos como este,- "Aurora" é o objecto intemporal por excelência. Murnau não poderia ter melhor epílogo.
Tiago Ribeiro 21/10/2005 |
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rdgmartins@hotmail.com |
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Como bem disse o Ferrero, qualquer comentário acerca deste filme, talvez o mais belo dos filmes, é completamente desnecessário, para além de ser saliva gasta. Quem quiser ler sobre o filme tem sempre as credíveis revistas “Sight and Sound” ou então os próprios “Cahiers du Cinema”. O que não falta por aí são textos bons, infinitamente mais interessantes do que o que eu teria para dizer.
Esta minha achega é para elogiar a iniciativa do cinema Nimas em passar filmes clássicos, até ouvi dizer que o próximo filme será “O Leopardo” do Visconti (mal posso esperar), o que acaba por ser bom e disponibiliza vários dias para ver o filme. Claro que a Cinemateca Portuguesa tem a melhor e mais diversificada programação da capital (muita gente ainda não sabe onde fica! what a shame!!!), mas de tão diversificada que é, às vezes projecta um filme unicamente UMA VEZ!
Com um público entre 40-50 pessoas, numa tarde cinzenta de domingo, uns mais sonolentos que outros, uns mais jovens, outros mais graúdos, mas todos com curiosidade digna de infantes; é bom observar o público ainda fluir para um filme mudo com 78 anos. Salvé Murnau e salvé Nimas.
Ricardo Daniel Guerreiro Martins
16-10-2005 |
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paulo_ferrero@hotmail.com |
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Não vale a pena tecer muitos mais comentários sobre «Sunrise».
Trata-se tão somente de uma dos mais belos filmes de sempre e de uma das mais belas histórias de amor que alguma vez nos foi dado ver na tela.
Murnau em todo o seu esplendor, portanto. Técnica e artisticamente. Mais palavas para quê?
Paulo Ferrero |
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Nuno Antunes |
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Embarcar numa reflexão filosófica sobre «Aurora» seria provavelmente pretencioso, tanto mais que este espaço seria escasso para o fazer. Dito isto, para quem viu este filme pela última vez quando o Beta e o VHS concorriam entre si, e numa altura em que necessariamente não tinha qualquer maturidade para saber apreciá-lo, o que surpreende agora é a sua modernidade (mesmo a nível técnico), e o impressionante efeito que pode provocar num espectador 78 anos depois de ter sido feito, com tudo o que isso significa no número de filmes que já viu e, naturalmente, na evolução da arte que testemunhou.
Demasiadas vezes vimos filmes mudos serem caricaturados como aqueles sempre periodicamente interrompidos para surgir um ecrã negro com texto, em que os actores exageravam completamente as suas interpretações, quase ao nível da histeria, e a câmara está estática. Para não dizer que eram tecnicamente toscos. Muitas vezes terá sido assim, mas «Aurora» não podia estar mais longe dessa imagem. Consensualmente visto como um dos primeiros filmes que permitiram olhar o cinema como arte, com uma influência comparável à que teve «O Mundo a Seus Pés» anos mais tarde, é fácil perceber porquê. Está lá tudo. É óbvia a evolução de técnicas como a fotografia e a montagem, mas a forma impressionante como a câmara se move ajuda a reforçar uma ideia de continuidade narrativa nesta jornada do campo à cidade e do regresso a casa. Mesmo alguns dos poucos inter-títulos que existem surgem como nunca os vimos antes.
Mas «Aurora», pelas emoções que expressa, é um triunfo na arte de Murnau de contar uma história, tão simples quanto eficaz, combinando elementos de melodrama, comédia (que ainda funciona!) e suspense quase insuportável, que nos envolvem e relembram como os filmes foram feitos para rirmos e chorarmos, para sentirmos algo, não apenas para sermos “entretidos”. O subtítulo do filme, “uma canção para duas pessoas”, traduz a ideia do filme sobre o poder da vida e do amor, de como a primeira, por pior que seja, poderá ser sempre suportada graças ao sonho do amor entre dois seres humanos. É uma premissa tão simples com elementos – o bom e o mau, o campo e a cidade – que o filme transcende de forma tão espectacular que é fácil esquecer que ainda hoje há quem o tente fazer e falhe no dito “cinema moderno”.
Estamos de tal forma habituados a que os diálogos transmitam emoções, que nos esquecemos como os gestos e expressões, podem ser muito mais eficazes. Algo simples como atravessar uma rua na grande cidade pode ser algo de profundamente subtil e eloquente, além de um triunfo técnico. É que «Aurora» é pura poesia de sentimentos, em que as imagens, música e efeitos sonoros nos fazem mergulhar na alma do casal distanciado que se volta a apaixonar.
Independentemente da sua óbvia beleza, o filme também é o que é graças aos actores, desde logo porque eles também ajudam Murnau a dispensar a maior parte dos tais ditos que interrompem os filmes mudos. Muito do prazer ao ver «Aurora» verdadeiramente pela primeira vez (já que este é seguramente um filme que precisa de vários visionamentos) surge graças a Janet Gaynor e George O`Brien. Ambos são profundamente “reais” e se Gaynor ganhou o primeiro Oscar para Melhor Actriz que foi atribuído, a grande revelação acaba por ser descobrir o esquecido George O`Brien, que apenas alguns se recordarão dos filmes tardios de John Ford e que tinha aqui uma personagem tão complexa quanto a dela.
Quando finalmente a “canção” termina, é óbvio que ela, 78 anos depois, resistiu e continuará a resistir à passagem do tempo. Mas «Aurora» transcende o tempo em que foi feito, sem ser, claro, também deste tempo: a história e o filme pertencem ao território das fábulas, e o que ele tem de extraordinário parece um triunfo do impossível, ontem como hoje. Será sempre actual, pois a sua audácia e amor pelas possibilidades mais nobres do cinema fizeram-no transcender todas as limitações e conquistar aquele lugar que tantos filmes procuram e apenas alguns chegam…
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Nuno Antunes, 12 de Outubro de 2005
antunes725@yahoo.pt |
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