Crónicas

Título original: Crónicas
Título (Brasil):
Realização: Sebastián Cordero
Intérpretes: John Leguizamo, Damián Alcázar, Leonor Watling, José María Yazpik, Gloria Leyton
México/Equador, 2005
Estreia: 13 de Outubro de 2005


João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
 
O programa de televisão "Uma hora com a Verdade" é transmitido todas as noites de Miami para toda a América Latina, com as histórias sensacionalistas mais fortes que se podem encontrar. Para um desses programas, o apresentador Manolo Bonilla (John Leguizamo) voa para o Equador, na companhia da produtora Marisa (Leonor Watling) e o operador de imagem Ivan (José Maria Yazpik), seguindo a pista de um violador e assassino de crianças, conhecido como "O Monstro de Babahoyo"

A morte acidental de uma criança leva os habitantes de uma pequena povoação a quase linchar Vinicio Cepeda (Damián Alcázar), um humilde vendedor de Bíblias. A intervenção de Manolo salva a vida do homem. É uma grande história para o programa. Vinicio é mesmo encarcerado, por homicídio involuntário, e oferece a Manolo informações sobre o "Monstro", a troco de uma reportagem sobre a sua injusta situação. Manolo aceita, atraído pelo lado obscuro que pressente em Vinicio, e começa a quebrar todas as regras, decidido a ser ele o herói que detém o assassino com as suas próprias mãos...

No final dos anos 70 e início dos anos 80, um homem terá assassinado mais de 300 raparigas. Chamava-se Pedro Alonso Lopez e pelos seus crimes na Colômbia, Peru e Equador, ficou conhecido como o "Monstro dos Andes". «Crónicas», Menção Especial no Festival de Sundance 2005, é um thriller que transfere esses crimes para a actualidade e o realizador-argumentista Sebastián Cordero e questiona-se se esses crimes tivessem acontecido hoje, numa América Latina saturada pelos media, se as consequências não teriam sido ainda mais nefastas.


João Lopes
Um belo exemplo de um cinema que não receia enfrentar uma questão incómoda, tanto do ponto de vista jornalístico como ético. A saber: como é que a televisão se relaciona com aquilo que regista? Mais ainda: como é que a representação que daí nasce, sendo resultante de opções específicas e inevitáveis selecções de material, se torna uma componente específica do próprio real que reflecte?

Num país como o nosso, onde muitas áreas da «informação» televisiva atingiram um absoluto grau de degradação, este é um filme ainda mais oportuno, tanto mais que se alicerça num realismo apaixonado pela complexidade das relações humanas.


the_everl@hotmail.com
Um filme surgido quase do nada. Co-produção mexicana e equatoriana; segundo filme de um jovem realizador, Sebastián Cordero; estrelas, uma americana e outra espanhola, como protagonistas. O resultado é desigual, mas interessante o que já é bastante se o filme nos apanhar de surpresa como foi o caso.

O interesse começa na premissa. Uma vila no Equador chora a morte de várias crianças, violadas e assassinadas por um “serial killer”. Porém, dentro desse acontecimento ocorre outro: um homem, Vinicio, atropela mortalmente uma criança e quando faz marcha-atrás para sair de cima da criança o povo pensa que está a fugir e começa literalmente a linchá-lo. É salvo pela equipa de reportagem do programa televisivo de Miami que está a cobrir as mortes, a quem o senhor propõe uma troca de interesses, ou seja, os repórteres ajudam a ilibá-lo através de uma reportagem e o senhor fornece informações sobre o “serial killer”.

Neste sentido, a dúvida (que o vai deixando de ser) surge na personagem de Vinicio e na hipótese de ele ser ou não ser o “serial killer”. Este factor é claramente o melhor que o filme tem para oferecer, sustentando-se numa interpretação excelente de Damián Alcázar, de uma ambiguidade que advém da serenidade do seu rosto e das suas palavras, e também no jogo entre esta personagem e a do repórter, Manolo (curioso John Leguizamo), em quem Vinicio confia. Aqui surge também o melhor Cordero na construção de um “hui clos” claustrofóbico com as duas personagens a salvaguardarem os seus interesses, não se saindo de um impasse.

“Cronicas” não consegue aguentar esta situação se bem que tal também não esperaríamos. Mas a verdade é que o filme sente isso e perde fulgor, acabando por entrar numa lógica de questionamento ético sobre os meandros da televisão e de quem a faz. Levantam-se perguntas pertinentes a que não são dadas respostas, mas a boa vontade não tem grandes resultados de cinema. Alguns pormenores como a relação sexual forçada entre Manolo e a sua produtora, Marisa (belíssima Leonor Watling), ou os inevitáveis polícias corruptos (e, já agora, aquele que não o é), acabam por ser bastante irritantes, só aumentando o desequilíbrio do filme.

O filme lá chega ao seu final, mas aquilo de que gostámos mesmo está bem lá para trás e esta sensação de decrescendo não abona a favor do filme. Mas não nos esquecemos do talento de Cordero e dos seus actores que nos deram alguns momentos preciosos. Uma nota final: “Cronicas” tem um último plano mais do que dispensável e este pormenor é claramente o pior do filme.

A não perder

Daniel Pereira
30-10-05
www.escrevercinema.blogspot.com


almeida_rita@sapo.pt
CRÓNICAS
de Sebastián Cordero


Numa lamacenta aldeia do Equador, uma turba rodeia um homem que acabou de atropelar acidentalmente uma criança. O pai da criança quer vingança. O homem é brutalmente agredido e encharcado em gasolina. Uma equipa de televisão, que se encontrava no local a filmar o enterro das vítimas de um violador de crianças e assassino em série, filma o acontecimento sem intervir, partilhando da loucura da multidão que quer ver sangue. Alguém acende um fósforo.

Este é o impressionante início de um impressionante filme. Um filme que fala da vítima, mas também dos que ficam a olhar sem nada fazer.

A vítima é Vinício Cepeda (Damián Alcázar), um vendedor ambulante de bíblias; e à frente da equipa de filmagem está Manolo Bonilla (John Leguizamo), um ambicioso repórter televisivo que trabalha para o programa “Uma Hora com a Verdade”, numa estação televisiva de Miami, e que persegue os crimes do “Monstro da Babahoyo”.

Vinício é preso por homicídio involuntário, e recorre a Manolo para, através de uma entrevista no seu programa, conseguir a compaixão das autoridades e a liberdade. Como moeda de troca, oferece a Manolo, informações sobre o “Monstro”. Arrogantemente, Manolo julga poder desmascarar esta situação sem recorrer à polícia (que se limitaria a espancar Vinício para uma confissão). Mas, sem se dar conta, e pensando que está a ir atrás da verdade, está apenas a deixar-se levar pelo seu ego.

Parte thriller e parte análise da ética jornalística, o segundo filme de Sebastián Cordero, foca-se numa ética mais global: o que faz do Homem herói ou monstro. No jogo psicológico que se estabelece entre Manolo e Vinício, onde o jornalista se abstém de qualquer julgamento moral, Cordero empurra-nos com agilidade entre a culpa e inocência de Vinício.

O carácter de Manolo, numa interpretação arreigada de Leguizamo, sintetiza-se na sua resposta quando lhe perguntam de alguma vez traiu a sua mulher: “Sim, mas não foi por isso que nos separámos.” Ele não assume a responsabilidade pelos seus erros, da mesma forma que não considera as consequências sobre os outros das suas acções.

Marisa Iturralde (Leonor Watling – “My Life Without Me”, “La Mala Educación”), a produtora do programa de Manolo, é o mais próximo que este filme chega de uma consciência. A subtil mudança de comportamento de Manolo em relação a ela – de colega para praticamente uma simples assistente – reflecte também o recalcamento dessa voz moral que parece gritar de todos os lados.

Para que uma personagem seja real, perturbante e assustadora, temos que nos identificar com ela. Cordero, de cuja equipa de produtores fazem parte Alfonso Cuarón (“Y Tu Mamá También”, 2001) e Guillermo del Toro (“El Espinazo del Diablo”, 2001), faz isso através de um argumento inteligente e consistente. Pelo seu lado, a fantástica interpretação do mexicano Damián Alcázar (“Héctor” de Gracia Querejeta, 2004), versátil e convincente, entre a compaixão e o frio calculismo, provoca uma verdadeira sensação de incómodo.

A perda de um filho é um corromper da lógica natural dos acontecimentos, significa perder o futuro. De certa maneira, “Crónicas” lida com várias formas de contra a própria natureza. A lama está entre a terra e água, como os Homens estão entre o bem e o mal, entre a generosidade e o egoísmo. Por isso a última imagem nos deixa o eco de um agudo arrepio.


RITA ALMEIDA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/


r.esteves@oninet.pt
Este filme vale muito mais por aquilo que nos faz pensar do que propriamente por aquilo que realmente vemos no filme pois nesse aspecto o filme recusa-se a dar uma resposta definiiva sobre os vários temas abordados.
As interpretações são soberbas e transmitem ao filem um realismo impressionante e quase que nos transformam em espectadores de um drama real.
Engraçado a altura em que no nosso país assistimos a este filme que retrata o poder da imprensa, aqui representada pela televisão, e os seus limites ou falta deles pois assistimos hoje diariamente a uma cobertura exaustiva de um julgamento no Algarve e acabamos de sair de umas eleições onde toda a cobertura, todo o mediatismo foi dado a pessoas cujo trajecto foi muito construido com base nesse tal poder mediático da imprensa.


anacamposantonio@gmail.com
Vencedor duma menção honrosa no Festival de Sundance, “Crónicas traz-nos uma América Latina destroçada, onde a miséria humana é visível em cada passeio, em cada instituição, em cada rosto, em cada acto.

Manolo Bonilla é um jornalista que faz reportagens para um programa de Miami, intitulado “Uma Hora com a Verdade”. Em busca de mais uma história sensacionalista, este parte para o Equador em busca de informações acerca do violador em série, conhecido como “Monstro de Babahoyo”. Este já vitimara cerca de 150 crianças, encontradas em valas comuns espalhadas pelo país.

Ao impedir o linchamento de um homem, Manolo subverte a sua busca pela verdade e quer ser o herói, ao entrar em acordos com o homem linchado, para que este lhe forneça informações sobre o criminoso. Atraído pelo seu desejo de fama, o repórter oculta informações à polícia e penetra no mundo obscuro do homem que entrevista.

Sebastián Cordero transpôs uma história verídica passada nos anos 70 para um Equador cada vez mais pobre e cada vez mais dominado pela comunicação social e vamos para a casa com a questão a atormentar-nos… Será o papel de alguma comunicação social benéfico ou ajudará apenas a subverter-nos a todos, transformando-nos em voyeurs da desgraça alheia?

Ana Campos António


Nuno Antunes
Há histórias que podem ser inicialmente previsíveis e mesmo convencionais, abusar do poder da coincidência para avançar ou ter personagens estereotipadas e mesmo assim darem origem a filmes poderosos. «Crónicas» é um desses casos, nunca tiramos os olhos do ecrã e não alheio a isso será a autenticidade das situações que têm lugar naquela América Latina no limiar da sobrevivência e principalmente o poder dos media e como ele pode ser usado.

Leonor Watling (de «Má Educação»), como produtora da equipa, e José María Yazpik como cameraman contribuem muito para este retrato que adivinhamos realista do jornalismo televisivo, mas a grande interpretação deste filme é de Damián Alcázar no papel do pobre diabo que é detido por um atropelamento acidental e tem informações que podem ajudar a deter o responsável pela morte de dezenas de crianças. Mas… e se este aparentemente adorável pai de família for o monstro? É um equilíbrio muito difícil de suster e o actor é magnífico, elevando inclusive a própria interpretação de John Leguizamo: as cenas entre ambos, com o primeiro a querer negociar a sua libertação daquela televisão com base nas informações que tem, são tão efectivas como a da tentativa de justiça popular que surge noutra altura do filme. Isto é tanto mais impressionante pelo facto de Leguizamo estar a trabalhar pela primeira vez em castelhano, uma língua que lhe era desconhecida.

Ao mesmo tempo que existe esta negociação entre detido e jornalista, vemos como a ética e moral no jornalismo podem afectar as pessoas de forma diferente. Isto é tanto mais importante quanto apenas há alguns dias atrás houve uma cobertura eleitoral quase exclusivamente focada em municípios e candidatos com processos na Justiça. Alguém tomou essa decisão. O que pode acontecer quando os jornalistas decidem que são mais importantes que a própria notícia ou que têm de controlar a forma como ela surge? Até que ponto se pode ir na perseguição de uma “história”? Quem provoca os maiores danos à sociedade?

Como me disseram várias pessoas, é um filme muito duro, na brutalidade do dia-a-dia de uma existência sem grande futuro, naquelas prisões imundas, naqueles quartos de hotel cinzentos, naquelas favelas de Terceiro Mundo. Mas mais duras podem ser algumas das conclusões a retirar depois de o ver. «Crónicas» é muito sério nas discussões que sem dúvida procura suscitar, e isso é um grande ponto a seu favor, tanto mais que podia ter descambado numa abordagem tão sensacionalista quanto a do programa de informação ficcional para o qual a equipa de jornalistas trabalha… e que não é exclusiva daquela parte do continente americano. Muito bem filmado e apresentado como um thriller, «Crónicas» recusa-se a dar respostas conclusivas.

3,5 em 5

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Nuno Antunes, 12 de Outubro de 2005
antunes725@yahoo.pt


     
 

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