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A Dama de Honor
Título original: La Demoiselle D`Honneur
Título (Brasil):
Realização: Claude Chabrol
Intérpretes: Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clement, Bernard Le Coq, Solene Bouton
França/Alemanha/Itália, 2004
Estreia: 29 de Setembro de 2005
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Nascido em 1930, em Paris, Claude Chabrol é, a par de Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Eric Rohmer, um dos nomes de referência da Nova Vaga francesa. No entanto, a sua obra transcende — e muito — a fulgurância criativa do começo dos anos 60, tendo-se desenvolvido de forma regular, com uma fixação obsessiva no género policial. Com um lugar seguro no interior da dinâmica industrial francesa, Chabrol é mesmo um cineasta "regular", filmando quase um filme por ano, desde a década de 60 até à actualidade. Lembremos cinco referências fortes do seu percurso:
* QUE LA BÊTE MEURE / Requiem para um Desconhecido (1969): um dos seus mais fabulosos filmes de introspecção, uma crónica íntima sobre o poder do Mal sobre a aparência da estabilidade social — com Michel Duchaussoy.
* VIOLETTE NOZIÈRE / Violette Nozière (1978): centrado numa admirável composição de Isabelle Huppert, um retrato da França dos anos 30, construído a partir de um drama familiar, quase secreto.
* LE CHEVAL D`ORGUEIL / O Cavalo do Orgulho (1980): um mergulho na Bretanha do começo do século XX, uma análise fria e desencantada das relações de força, familiares e sociais, da vida rural.
* LE CRI DU HIBOU / O Grito do Mocho (1987): inspirado em Patricia Highsmith, nele se traça o retrato perturbante de um progressivo deslizar da normalidade (familiar) para a desordem e o crime.
* L` ENFER / O Inferno (1994): com Emmanuelle Béart e François Cluzet, a odisseia de um par ferido pela paranóia do ciúme, como sempre numa França "mediana", habitada por todos os fantasmas morais.
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Em «A Dama de Honor», Philippe vive com a mãe e as duas irmãs. Christine é cabeleireira, Sophie, a irmã mais velha, vai casar-se, e Patricia, a irmã mais nova, tenta como pode escapar a algo que não sabe muito bem o que é.
No casamento de Sophie e Jacky, Philippe conhece Senta, uma das damas de honor que é prima do noivo. Até à data um homem racional, Philippe apaixona-se e isso não seria grave se Senta fosse uma rapariga normal. Mas ela transporta-o para um universo em que ele perde todas as suas referências.
Será que ela mente quando diz que foi "actor", quando diz que só se vive plenamente depois de se ter plantado uma árvore, escrito um poema, feito amor com alguém do mesmo sexo. Será que ela mente quando, com um sorriso, sugere que por amor é preciso saber matar alguém?...
Claude Chabrol volta a adaptar um romance de Ruth Rendell após «A Cerimónia» e na fotografia recorre pela quarta vez ao português Eduardo Serra.
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João Lopes
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Claude Chabrol, velha raposa da Nova Vaga francesa, continua em forma: há muitos anos "instalado", sem preconceitos, no interior da indústria, faz e refaz o que melhor sabe fazer. Ou seja: este é um policial em que o «suspense» factual se transfigura em interpelação dos corpos e das almas — e, para Chabrol, o amor transporta sempre um Mal que se confunde, drasticamente, com a máscara da sua Beleza.
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É o quarto filme de Chabrol fotografado pelo português Eduardo Serra (o quinto, «La Comédie du Pouvoir», deverá estrear em Dezembro de 2005, em França). |
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gonn1000@hotmail.com |
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AMAR-TE-EI DEPOIS DE MATARES
Referência clássica do cinema francês, com um papel determinante para a consolidação da Nova Vaga, Claude Chabrol é um cineasta que, apesar de se encontrar há já várias décadas no activo, é ainda alguém a quem se atribui a capacidade de proporcionar obras conseguidas e estimulantes (embora com alguns passos em falso, como o insípido e enfadonho “No Coração da Mentira”).
“A Dama de Honor” (La Demoiselle D’Honneur) é um desses casos, um filme que assenta em territórios já habituais no percurso do realizador, ou seja, numa envolvente mistura de policial e drama onde um elemento se revela tão central como o outro e são ambos trabalhados a partir das personagens, não as utilizando como meros joguetes mas antes enquanto presenças contraditórias e ambíguas.
Ambiguidade é, de resto, a palavra-chave de “A Dama de Honor”, sobretudo na aura que engloba a relação de Philippe, um jovem responsável, metódico e dedicado à família, e Senta, uma das damas de honor do casamento da irmã que lhe desperta um desejo abrupto e correspondido (e que incorpora múltiplos mistérios, tão intrigantes quanto sedutores).
A ligação entre os dois amantes gera-se de forma intensa e assim continuará, iniciando uma espiral de obsessão, paixão, medo, dúvida e hesitação, pois à medida que Philippe vai conhecendo Senda sente um misto de encanto e repúdio, sensação que se torna cada vez mais inquietante quando a morte – ou, em particular, o homicídio – coloca em causa a possibilidade de consumação do amor.
Para além da sufocante relação entre os dois jovens, Chabrol oferece ainda um olhar sobre o quotidiano das localidades rurais, evidenciando as redes de intriga, boato, mesquinhez e pequenos antagonismos que aí se desenvolvem – elemento recorrente na sua obra -, a par de uma interessante perspectiva acerca dos laços familiares (temática subexplorada, mas determinante para a conduta dos protagonistas).
Mesmo não sendo uma película especialmente inovadora, “A Dama de Honor” é uma sólida proposta cinematográfica, com um seguro trabalho de realização, uma fotografia absorvente (a cargo do português Eduardo Serra) e uma consistente direcção de actores (Laura Smet é uma boa revelação, mas é Benoît Magimel quem mais impressiona, com um excelente desempenho que supera, e muito, a sua promissora interpretação em “A Pianista”, de Michael Haneke).
O filme possui alguns problemas de ritmo, pois a monotonia ameaça instalar-se a espaços, mas Chabrol proporciona quase sempre uma eficaz gestão do suspense, que acompanha de forma convincente a tensa dilaceração emocional do protagonista. Por isso, embora não se junte à lista de títulos indispensáveis, “A Dama de Honor” contém consideráveis qualidades que o tornam num filme a ver.
Gonçalo Sá
http://gonn1000blogspot.com |
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the_everl@hotmail.com |
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Mesmo que Claude Chabrol seja acusado de filmar em piloto automático, este “La Demoiselle d’honneur” não deixa de ser bastante eficaz. Para além disso, há pormenores que só alguns conseguem. Neste caso, ficámos maravilhados com o “travelling” inicial pela pequena cidade onde a acção decorre, parando apenas no lugar de um crime. O mote está dado: está aí o policial.
O policial tinha que lá estar, já que os variados crimes durante o filme obrigam a isso. Mas o espectador mais atento aperceber-se-á que todas estas situações não são mais do que um pequeno “macguffin” para fazer seguir aquilo que, pelo menos para nós, é realmente importante – o “amour fou” entre as personagens de Benoît Magimel e Laura Smet. Depois de se conhecerem no casamento da irmã dele (apenas um pormenor da pequena-média burguesia sobre a qual Chabrol se debruça) o clíque é instantâneo, mas para além de um amor intenso vão aparecer mais factores que impedem que tudo corra bem.
Mesmo que a personagem feminina nos saiba a pouco, cremos que é mais culpa de Chabrol que não dá a ambiguidade suficiente à personagem e, já agora, a todo o filme, do que da actriz Laura Smet que vai bem na composição da mulher psicologicamente instável. Benoît Magimel, por seu lado, vai muitíssimo bem, esse sim com o dilema bem/mal mesmo à sua frente. Magimel é sublime na expressão do seu amor e no desespero da sua impossibilidade.
Tecnicamente impecável (mais uma belíssima fotografia de Eduardo Serra), “La Demoiselle d’honneur” revela alguns desequilíbrios que, porém, não o traem por completo. Até porque o que fica na nossa cabeça é o positivo: belíssimo começo, boa gestão da narrativa, boas personagens, bom tecnicamente (em todos os aspectos), bom desenlace através de uma elipse que diz tudo. Bom filme, então.
A não perder
Daniel Pereira
24-10-05
www.escrevercinema.blogspot.com |
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jtrb79@hotmail.com |
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Chabrol anda em velocidade de cruzeiro desde o seu último momento de verdadeiro génio, em "A Cerimónia" (1995), mas a verdade é que tomara nós que obras maiores de alguns cineastas fossem tão boas como os momentos menores do veterano francês. Explorando pela enésima vez um mesmo tema, ou uma variação dele, o que nos fica na retina é o formalismo de Chabrol, de um rigor impressionante, tendo sempre os mais ínfimos gestos uma importância bem vincada. Os actores estão impecáveis, como sempre nas obras do realizador, destacando-se o óptimo Magimel, talvez o melhor actor francês da sua geração. A ver atentamente.
Tiago Ribeiro 07/10/2005 |
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paulo_ferrero@hotmail.com |
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É sempre um prazer ver um filme do autor de «Les Fantômes du Chapelier». E é bom que ele continue a fazer filmes ao ritmo a que nos habituou, pois o cinema precisa dele e dos seus dramas familiares, da sua ruralidade perversa, dos seus policiais intimistas e dos seus amores trágicos.
E que melhor amor trágico para Chabrol rodar do que o deste filme feito tango, relação de paixão e exageros, que dá pelo nome de «La Demoiselle d`Honneur»?
Chabrol está todo ele neste filme: excelência na direcção de actores (sublimes Magimel - bastaria aquela cena em que o capitão de polícia lhe transmite a notícia do crime, para se provar isso mesmo -, e Aurore Clément - duma naturalidade impressionante), exploração de uma narrativa propositadamente lenta até ao clímax, relação homem-elementos (os quartos, as casas, os fétiches, o campo, a chuva, o mar), a «cabriolage» subversiva, a desilusão no desenlace final.
Paulo Ferrero |
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