«Brokeback Mountain», de Ang Lee:
o Leão de Ouro de Veneza 2005

Título original: Brokeback Mountain
Realização: Ang Lee
Intérpretes: Jake Gyllenhaal, Heath Ledger, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Scott Michael Campbell Gill
EUA, 2005

 
Eurico
de Barros
 
 
   
 



Eurico de Barros
O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 3 de Setembro de 2005.

Os outros `cowboys`

Em «Brokeback Mountain», Ang Lee filma uma história homossexual em território do `western`. O Oeste não volta a ser o mesmo.

Acaba de cair um dos últimos bastiões heterossexuais no cinema, o western. O responsável é o realizador taiwanês Ang Lee («A Tempestade de Gelo», «O Tigre e Dragão»), que em «Brokeback Mountain» (passou em competição) filma um romance homossexual entre dois cowboys (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal), ao longo de mais de 20 anos, nas paisagens esmagadoras do Wyoming e do Texas. John Wayne, James Stewart e Gary Cooper devem ter tido sobressaltos na sepultura.

Para sermos mais precisos, «Brokeback Mountain» não é um western tradicional, com tiros, índios e cavalgadas, já que a acção começa em 1962 e se prolonga até à década de 80. Mas o território, o ambiente físico e humano, as mentalidades, as maneiras de ser e estar, os referentes visuais e as ressonâncias mitológicas, são as do western. Nem por acaso, um dos dois autores do argumento, Larry McMurtry (a meias com Diana Ossana) é um escritor e argumentista conhecedor da paisagem e das gentes do Oeste, e especialista no género, seja de época, seja contemporâneo, graças a filmes e séries de televisão como «Hud - O Mais Selvagem Entre Mil», «A Última Sessão», «Texasville», «Lonesome Dove» ou «Streets of Laredo».

Ennis Del Mar (Ledger) e Jack Twist (Gyllenhall) encontram-se uma manhã em 1962, quando são contratados para irem vigiar um enorme rebanho de ovelhas nas montanhas. A amizade que forjam ao longo dos duros dias de trabalho nas pastagens que parecem tocar o céu, transforma-se, certa noite, numa relação íntima que nenhum dos dois consegue verbalizar - e de que, até, parecem ter vergonha. O trabalho acaba, Ennis e Jack separam-se, casam, têm filhos, um prospera e o outro marca passo. Mas continuam a encontrar-se regularmente ao longo dos anos, às escondidas, como dois amigos que vão caçar e pescar juntos, sempre no sítio onde se conheceram: Brokeback Mountain.

A estranheza e o ineditismo de «Brokeback Mountain» decorrem do facto de nenhum dos dois heróis ser efeminado ou amaneirado (muito pelo contrário), da história se passar num ambiente ao qual nunca antes se associou uma relação amorosa de sentido único, numa época em que, ao contrário da nossa, a homossexualidade não era usada como um emblema ou agitada como uma bandeira, nem sequer nas grandes cidades cosmopolitas dos EUA, muito menos no interior do país. E também porque Ang Lee e os argumentistas (o filme baseia-se num conto da escritora Annie Proulx) não pretenderam fazer de «Brokeback Mountain» um manifesto gay estridente, nem um documento lancinante sobre a auto-repressão homossexual, numa altura e num local em que a revelação de tais tendências podia ser paga com a vida.

Muito, tudo pelo contrário, «Brokeback Mountain» é um filme comandado pelo laconismo - emocional, verbal, dramático -, pelo não-dito, pelo sugerido numa pose, num olhar e num gesto, pela justeza de expressão, e por muito pudor (as cenas de sexo praticamente não existem). Isto encontra eco nas interpretações espartanas, "interiores", de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, assentes na linguagem física e no uso do olhar, numa exteriorizaçao quase sempre mínima e controlada daquilo que sentem como um turbilhão interior. Tal e qual como os grandes cowboys do cinema, mas agora num contexto totalmente diferente do tradicional.

Trabalhando com o director de fotografia mexicano Rodrigo Prieto («Amor Cão», «21 Gramas»), Ang Lee não permite que as magníficas e agrestes paisagens de altitude (são do Canadá mas passam por americanas) esmaguem a história ou distraiam a atenção das personagens. O realizador transforma a montanha numa espécie de grande cenário pastoral e vasto símbolo de liberdade, o único lugar onde Ennis e Jack podem estar e sentir-se à vontade, longe de tudo que os prende e constrange. Depois de «Brokeback Mountain», o Oeste no cinema nunca mais volta a ser o mesmo. Nem os cowboys.

em Veneza