Rosetta

Realizadores: Luc e Jean-Pierre Dardenne
Intérpretes: Emilie Dequenne, Fabrizio Roncione, Anne Yernaux
Bélgica/França, 1999
Estreia: 4 de Fevereiro de 2000


Eurico
de Barros
João
Lopes
Vasco
Câmara
Média dos
Espectadores
   
Eurico de Barros
Pobre Rosetta! Como se não lhe bastasse viver numa caravana desconfortável num parque miserável, ter de cuidar de uma mãe agarrada à garrafa e que que troca favores sexuais por bebida, não comer aparentemente nada mais do que «gaufres» todo o santo dia para poupar uns tostões, não conseguir, por mais que corra seca e meca, arranjar um emprego seguro que lhe garanta uma subsistência decente e andar constantemente à beira do desespero, os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne não lhe dão tréguas com a sua câmara à mão, seguido-a para onde quer que ela vá como se fossem a sua outra sombra, cercando-a, encurralando-a, roubando-lhe a intimidade, cortando-lhe o espaço de manobra, sufocando-a e às suas magras esperanças.


«Rosetta», que foi a Palma de Ouro-surpresa do Festival de Cannes de 1999, poderia não passar de um folhetim neo-realista duro e feio visualizado em estilo de «cinema de guerrilha», não fossem a interpretação impenitentemente «naturalista» de Émilie Dequenne (também premiada em Cannes), que nunca dá a impressão que sabe que existe uma câmara sempre atrás dela, transmitindo toda a tenacidade obsessiva que aguenta Rosetta e a impede de cair na delinquência ou na prostituição (mas a leva também a trair sem pestanejar quem a ajudou), e o facto dos irmãos Dardenne recusarem utilizar todo e qualquer arrebique fotográfico ou sonoro para fazerem a «Rosetta» uma maquilhagem melodramática que não necessita, nem nunca necessitou. Sem esta crueza militante que vai da primeira à última imagem, «Rosetta» seria igual aos filmes com os quais não quer ser confundido.


O filme dos irmãos Dardenne é antecedido pela curta-metragem «O Pedido de Emprego», de Pedro Caldas, escrita por Jorge Silva Melo, e que, por causa do seu final abrupto, deixa a impressão de ser um pedacinho de um filme maior, ao qual nunca teremos acesso. Se a intenção era essa, foi conseguida. Se não, «O Pedido de Emprego» é como um conto do qual foi rasgada a última folha.


João Lopes
Vale a pena recordar que, em Maio de 1999, quando Rosetta arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, uma onda de indignação varreu o sector jornalístico do certame. Porquê? Porque (quase) toda a gente tinha interiorizado a ideia segundo a qual o filme maioritário na escala de gostos dos jornalistas – Tudo Sobre a Minha Mãe, de Pedro Almodóvar – seria o vencedor «obrigatório» do certame.

Não creio que seja muito útil lançar um filme em cruzada contra o outro a propósito de um equívoco, afinal, tão ingénuo. De qualquer modo, será interessante sublinhar que a decisão tomada pelo júri presidido por David Cronenberg teve o mérito de chamar a atenção para uma atitude que marca algumas das mais estimulantes experiências do cinema contemporâneo. Ou seja: a construção de ficções que aceitam modos de contaminação do documentário.

Temos, assim, um retrato de uma jovem – Rosetta (a admirável Emilie Dequenne) – perdida numa marginalidade que começa na dificuldade de fixação a um emprego. Acontece que essa condição marginal está longe de se poder medir através de factores meramente laborais ou sociológicos. Que é como quem diz: Luc e Jean-Pierre Dardenne filmam os circuitos de uma solidão que não consegue aquietar-se em nenhum lugar, em nenhuma imagem. E o mais espantoso é que o filme assume isso como uma espécie de projecto ético para a sua própria «mise en scène»: a câmara segue obsessivamente Emile Dequenne e, na crueza de um ambiente que dispensa qualquer derivação melodramática (incluindo a música), assistimos ao calvário de uma personagem à procura da sua própria identidade – tem a presença carnal dos corpos e também a austeridade cósmica de uma narrativa sagrada.


Vasco Câmara
“Rosetta” é o filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne que encerrou o Festival de Cannes do ano passado com um valente bater de portas.
Recebeu a Palma de Ouro e deixou um rasto de devastação e polémica à sua volta, acusando-se o júri de ter imposto uma decisão “marginal” (porque ignorara o favorito do público, "Tudo sobre a Minha Mãe", de Almodóvar), porque era um filme militante sobre uma proletária que mais parecia um documentário — ainda por cima com um prémio de interpretação a uma actriz, Emilie Dequenne, que nem era actriz.
"Rosetta", o filme, é a prova da hipocrisia desses comentários — vendo o filme, eles talvez só sejam explicáveis pelo incómodo, pelo medo, que o filme instaurou.
"Documentário social?". Nada disso. Não há nada de exemplar em Rosetta, não há nada de exemplar nas outras personagens, porque não há espaço para mais personagens nem para as suas razões. Só há espaço para Rosetta e para a sua obsessão — arranjar um emprego.
Para além do mais, o voluntarismo cego da personagem (é impossível descrever a presença da actriz Dequenne e é difícil suportar a forma como o olhar dela ignora os outros e ignora-nos, espectadores) faz dela um ser em corrida olímpica sem ponto de chegada preciso. A não ser que esse ponto de chegada seja o cumprimento de uma humanidade nova, qualquer coisa em comunhão com a monstruosidade e com a máquina — Cronenberg era o presidente do júri de Cannes que deu a Palma de Ouro a este filme, recordam-se?.
Rosetta é um monstro? Não a podemos julgar. Mas também não conseguimos ser cúmplices da sua vitimização. Nem as cauções sociais nos protegem, porque elas não bastam. Temos mesmo que ficar sozinhos com ela, e com o "seu" filme, que é sublime.


mauro_luciano@hotmail.com
Um filme que provoca naqueles mais ligados a uma estética limpa, com câmeras que flutuam e dançam à frente do espectador. Sincero, do meio pro final, a história narrada traz à nossa realidade cinematográfica um quê do neo-realismo italiano, ao mesmo tempo um requinte do movimento iconoclasta Dogma. Em quase todos os por menores, desde o barulho inquietante da motocicleta até a irritação de uma gastrite da personagem, nos vemos numa situação infernal. O desemprego e a pobreza lembram Mouchette( talvez uma lembrança dos diretores a um dos melhores filmes de Robert Bresson) - a menina que cuida da casa e do mundo do filme.


rjva@clix.pt
Cinco Apontamentos sobre Rosetta

Um dos filmes mais pretenciosos que eu vi nos últimos anos. Como geralmente só os filmes franceses conseguem ser, e agora pelos vistos também os belgas.

Parece que nos dias de hoje basta usar muita "câmara na mão" tipo Dogma 95, ou um "ar" de cinema "caseiro" tipo "Projecto Blair Witch" para adquirir um estatuto de objecto artístico. Como a arte está subvalorizada

Temos neste filme um novo "tique artístico". São inúmeras as vezes em que a câmara está a poucos centímetros da cara de Rosetta (Emilie Duquenne). Consegue-se contar com facilidade o número e sinais ou de borbulhas que a jovem tem na face. Nesses momentos, fez-me lembrar, um qualquer documentário, de um qualquer canal, sobre o Corpo Humano.

Para mim o cinema é essencialmente uma arte visual, e neste campo, Rosetta não traz nada de novo, nem me convence minimamente.

Fala-se muito, e na maior parte das vezes em tom jocoso, dos lobbys da Academia de Hollywood, Rosetta mostra claramente o star power do festival de Cannes, ou seja a capacidade de transformar um filme (na minha opinião) medíocre em obra de arte (estatuto que o vencedor dos oscares não alcança) e levar esse filme a ser distribuído na maior parte do mundo (quem não quer vêr o vencedor de Cannes?). Ou ainda de outra forma, tenho para mim que Rosetta, sem a Palma d`ouro em Cannes passaria despercebido tanto a nível do público, como a nível crítico. Mas bastou colar ao filme a etiqueta, "vencedor de Cannes" e este transformou-se automaticamente numa obra de arte e num relativo sucesso comercial.


emilie_webpage@hotmail.com
Gostei muito deste filme.
Sobretudo porque é muito real, e ao mesmo tempo e como consequencia disso, também é chocante.
Aqui, não há piedade, não há fins felizes (bem talvez sim!).
Mas sobretudo o que mais me impressionou, foi a personagem de Rosetta. Alguem que não desiste. Que apesar da situação em que está, é determinada e sabe o que quer e luta por isso. É uma personagem com uma determinação incrível (com o bem e o mal que isso trás). E é muito bem interpretado pela jovem actriz Emilie Dequenne.
E aproveito para escrever que existe um site português que lhe é especialmente dedicado em http://www.terravista.pt/ancora/6960/index.html




asterisc@netc.pt  
Rosetta:

Um filme que se traduz em vontade. Vontade de uma pessoa, só.
Um filme forte, pujante e cheio, sobre uma pessoa, também, essa, forte, pujante e cheia.
Um filme admirável, sobre uma pessoa admirável


anadavid@clix.pt  
"Rosetta" é um filme difícil. É difícil identificarmo-nos com a personagem, é difícil admirarmos um plano. A beleza serena anda daqui arredada. Tudo é inquietude e sobressalto...
A personagem principal é realmente excelente, embora por ser daqueles casos em que não se trata propriamente de uma interpretação, mas de uma outra coisa (lembram-se de "Ponette"?), próxima da transcendência, sublinhada pelo registo docudramático.
Vale muito pela furiosa Rosetta que apenas parece questionar-se e parar no derradeiro plano do filme, na sequência de um dos mais negros momentos de humor que me lembro de ter visto numa sala escura.

Jorge Silva


litoral@mail.teleweb.pt  
Estava na disposição de subintitular o filme de " Câmara Ofegante", antes de ler os textos antecedentes, quase a arrepio (como o texto de Eurico de Barros ), quando me fixo no texto anterior de Ângela Leite (?).Cristalidade inquietante, "ex machina", outros adjectivos, mas também outras cores, por que não duma beleza americana ?
Paulo Costa


angelaleite@mail.telepac.pt  
O embotamento afectivo de Rosetta (só desfeito pelas lágrimas finais) marca o tom do filme: duro, implacável e brutal. Não deixa de ser curioso notar que o cinema acaba por oscilar entre estas duas tendências: ou mostrar a luta desesperada pela aparente normalidade ou as cruzadas em direcção à marginalidade; quando tenta as situações intermédias fá-lo sempre num registo risível (à laia de American Beuaty) e quase inverosímil. O registo de constatação da realidade (e consequente luta pela normalidade da realidade que procura mostrar) parece ser mais do agrado do cinema de autor, como é o caso do realizador do filme "Rosetta". Pena é que o grande público não esteja disponível para este tipo de filme que acaba por espelhar o dia a dia de muitos de nós. Considera este filme uma obra prima por conseguir encerrar em si mesmo talento e verdade.


mop44920@mail.telepac.pt  
Em primeiro lugar uma palavra para a magnífica curta-metragem de Pedro Caldas, "O Pedido de Emprego", que antecede "Rosetta". Para dizer que pela amostra fico ansiosamente à espera que o Pedro Caldas tenha a oportunidade de dirigir uma obra de maior fôlego (em duração, entenda-se).

"Rosetta" é um filme espantoso. Do princípio ao fim, a câmara à mão dos irmãos Dardenne segue Rosetta (Émilie Dequenne) sem que alguma vez a extraordinária actriz dê a sensação de saber estar a ser filmada. Rosetta é o ser humano filmado na sua dimensão animal, de predador, como raramente se terá visto em cinema. É simplesmente o instinto de sobrevivência na sua forma mais pura. Escapa a qualquer classificação (até mesmo a esta...), e é ao mesmo tempo igual a qualquer um de nós. Não é deste tempo, nem de nenhum tempo em particular. Não é daquele lugar, nem de nenhum lugar específico. Tão necessitada de amor e ao mesmo tempo fugindo e com medo dele. É esta dimensão universal e intemporal da personagem (e raramente um filme se terá confundido tanto com o seu personagem principal), atingindo algo de tão intímo, invísivel e profundo, que a meus olhos transforma "Rosetta" num dos grandes acontecimentos cinematográficos dos últimos tempos.


     
 

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