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Águas Silenciosas
Título original: Khamosh Pani: Silent Waters
Título (Brasil):
Realização: Sabiha Sumar
Intérpretes: Kirron Kher, Aamir Malik, Arsad Mahmud, Salman Shahid
França/Paquistão/Alemanha, 2003
Estreia: 18 de Agosto de 2005
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Ayesha é uma mulher de meia-idade, que aparenta estar bem com a vida, e cuja existência gira em torno do seu filho Saleem – um rapaz de 18 anos, gentil e sonhador, e apaixonado por Zubeida. Eles vivem na aldeia de Charkhi, no Punjab paquistanês. O marido de Ayesha morreu e ela sobrevive da pensão dele e de lições de Corão que dá a jovens raparigas.
A história começa em 1979, no Paquistão, no período de lei marcial decretada pelo Presidente, o general Zia-ul-Haq. O país embarcara na direcção da islamização. Saleem continua intensamente envolvido com um grupo de fundamentalistas islâmicos, e deixa Zubeida. Ayesha está triste por ver o seu filho mudar tão radicalmente.
Os acontecimentos precipitam-se quando peregrinos Sikh vindos da Índia chegam à aldeia. Mais tarde, um peregrino procura a sua irmã Veero, que fora raptada em 1947. Este evento do passado vai despertar memórias dilacerantes…
Galardoado no Festival de Locarno com o Leopardo de Ouro (Melhor Realizador), Leopardo de Prata (Melhor Actriz) e prémio do Júri Ecuménico, e o Prémio do Público no Festival dos Três Continentes – Nantes, as histórias verídicas de «Águas Silenciosas» do Paquistão de 1979 encontram eco mais de 25 anos depois... |
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João Lopes
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O texto que se segue foi publicado no "Diário de Notícias" (18-08-2005), com o título `História e didactismo vindos Paquistão`.
Por vezes, há filmes cuja primeira virtude reside na simples capacidade de estabelecer contacto com algumas questões quentes da nossa actualidade. Assim acontece com «Águas Silenciosas», filme paquistanês, coproduzido com a Alemanha e a França, um desses ovnis do nosso Verão cinematográfico que merece não ser deitado fora com a água dos blockbusters.
Estamos, de facto, perante uma história que vale, antes de tudo o mais, pelo seu didactismo histórico e religioso. As personagens principais são Ayesha (Kiron Kher) e Saleem (Aamir Ali Malik), mãe e filho, cujas existências serão abaladas pelas convulsões políticas do Paquistão, em 1979. Na sequência da lei marcial decretada pelo general Zia-ul-Haq, grupos de fundamentalistas islâmicos vão-se infiltrando no quotidiano, impondo regras e valores cada vez menos tolerantes; ao mesmo tempo que Saleem se envolve com um desses grupos, a sua mãe é confrontada com a memória de acontecimentos traumáticos vividos em 1947, no momento da separação da Índia.
Importa dizer que estamos muito longe de qualquer lógica informativa que confunda o aparato «espectacular» com a automática verdade histórica: «Águas Silenciosas» não é a mera ilustração de algumas ideias «panfletárias» ou abstractas, antes uma narrativa que dá espaço e tempo às suas personagens para existirem como seres vivos e contraditórios. Daí que seja inevitável sublinhar a qualidade global do elenco, com destaque para a magnífica Kiron Kher, compondo uma figura maternal dilacerada entre a herança do passado e as súbitas convulsões do presente.
Dirigido por Sabiha Sumar, realizadora paquistanesa (nascida em Karachi, em 1961), «Águas Silenciosas» é também um exemplo feliz de um cinema que, embora não abdicando dos seus particularismos culturais, sabe encontrar um discurso, a meio caminho entre o realismo social e a tradição melodramática, com hipóteses de encontrar ecos universais. Que esse objectivo não falhou, prova-o o seu impacto, em 2003, no Festival de Locarno: «Águas Silenciosas» arrebatou cinco prémios, incluindo o Leopardo de Ouro para melhor filme do certame. |
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