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De Tanto Bater o Meu Coração Parou
Título original: De Battre Mon Coeur S`Est Arrêté
Título (Brasil):
Realização: Jacques Audiard
Intérpretes: Romain Duris, Neils Arestrup, Linh-Dan Pham, Aure Atika, Emmanuelle Devos, Jonathan Zaccaï, Gilles Cohen, Anton Yakovlev, Mélanie Laurent
França, 2005
Estreia: 18 de Agosto de 2005
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Tom tem 28 anos e está destinado a seguir as pegadas do pai no mundo, às vezes brutal, do imobiliário. Mas um encontro inesperado leva-o a acreditar que ele pode tornar-se, à semelhança da mãe, pianista. Para tal, prepara-se para uma audição com uma virtuosa pianista chinesa. Ela não fala uma palavra de francês, por isso a música é a única forma de comunicação. Mas as pressões do seu mundo de trabalho são cada vez maiores e cada vez mais difíceis de suportar...
Realizado por Jacques Audiard, de quem vimos o popular «Um Herói Muito Discreto», com Mathieu Kassovitz, «De Tanto Bater o Meu Coração Parou» parte da premissa inicial apresentada por «Fingers» (1978), filme norte-americano de James Toback com Harvey Keitel. Premiada com o Urso de Prata pela Melhor Música no Festival de Berlim, destaque também para um dos maiores talentos da nova geração de actores europeus: Romain Duris. |
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João Lopes
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Seguramente um dos mais belos filmes deste Verão de 2005 — e também um dos melhores do ano... Retomando a ideia básica de «Fingers» (James Toback / USA, 1978), Jacques Audiard filma o impossível equilíbrio entre um homem que vive de golpes mais ou menos duvidosos no sector imobiliário e a sua súbita vontade de (re)descobrir a vocação de pianista. É um objecto cinematográfico de riquíssima elaboração dramatúrgica que escapa, no entanto, a todos os lugares-comuns «psicológicos» — nele se filma, afinal, a distância entre a identidade que nasce da acção e a verdade que se enraíza do desejo.
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O texto que se segue foi publicado no "Diário de Notícias" (18-08-2005), com o título `Lições de piano e cinema ou a arte da psicologia`.
Não adianta protestarmos em nome de quase um século de cinema: o apagamento da memória é um facto de todos os dias e, nesse processo de desgaste, a noção de «filme psicológico» caiu em desuso. Pior do que isso: há toda uma mentalidade favorecida pela informação mais superficial (e também por alguma crítica «jovem») que confunde o trabalho específico de um filme com a ostentação dos «efeitos especiais». Efeito prático: o militante menosprezo pela dimensão humana do cinema, das personagens, dos corpos e, enfim, pela singularidade dos actores.
Nesta conjuntura de apoteótica decadência cinéfila, «De Tanto Bater o Meu Coração Parou» (belíssimo título, já agora…) corre o risco de ser olhado em função daquilo que não tem para dar. Ou seja: o retrato «espectacular» de uma crise de identidade. Nada disso: estamos perante a situação de bloqueio de um homem, Thomas (Romain Duris), precocemente envelhecido, cansado dos grandes golpes e das pequenas traições do mundo de negócios do imobiliário. Quanto mais a sua crise pessoal se adensa, mais o filme de Jacques Audiard o segue e persegue, não como «modelo» de qualquer ficção socialmente correcta, antes como fantasma errático de um drama perversamente faustiano: como recuperar a alma vendida às razões obscenas do dinheiro e do poder?
Filme psicológico, dizia eu. E insisto. Neste presente ficcional todos os dias dominado pela força bruta de telenovelas e produtos afins, deparar com um filme como este tem qualquer coisa de eminentemente libertador: «De Tanto Bater o Meu Coração Parou» devolve o cinema francês ao seu mais primitivo gosto psicológico, demonstrando que a herança plural de Renoir, Ophuls ou Melville está aí, disponível e frondosa.
Que se trata de um objecto a contracorrente, mostra-o a própria origem temática. Na sua muito francófona sensibilidade, «De Tanto Bater o Meu Coração Parou» parte da reescrita do notável argumento de um filme de culto americano feito em 1978: «Fingers», de James Toback, com Harvey Keitel. Para além das muitas diferenças de ambiente e peripécias, prevalece o motor central da acção: o protagonista redescobre a sua vocação de pianista e, mais do que isso, o retomar das lições de piano funciona como um gesto radical, quase religioso, na tentativa de reencontrar a sua verdade mais genuína.
Audiard tem a servi-lo algumas contribuições de luxo: por exemplo, a fotografia de cores densas e intimistas de Stéphane Fontaine (responsável pelas imagens de «Olhem para Mim», de Agnes Jaoui) e a música ambiguamente romântica de Alexandre Desplat (que compôs as bandas sonoras de «Rapariga com Brinco de Pérola» e «Birth – O Mistério»). Mas revela, acima de tudo, um sentido de mise en scène que supera (e muito) as qualidades dos seus filmes anteriores, incluindo o curioso, mas desequilibrado, «Nos Meus Lábios». Em todos os sentidos, «De Tanto Bater o Meu Coração Parou» é um soberbo triunfo psicológico. |
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edocio pomar |
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| Filme belo e relista que demonstra uma complexidade humana que num ponto de vista geral continua ser do dominio do cinema europeu.Nao esquecendo que as personagens cinematograficas se tem mostrado ao longo historia como figuras extraordinarias quer na sua acçao como no seu contexto moral,sabe bem ver pessoas reais.A transformaçao que a musica faz na personagem de Romain duris eleva o filme do contexto social e sentimental desta mesma para mundo de melancolia e paixao que o destaca,nao como mais um "filme frances" mas mostra que este estilo de cinema é cada vez mais universal.Contudo nao posso deixar de questionar como pode um filme tao bem realizado e interpetado nao constar na lista de melhor filme de lingua nao inglesa na ediçao dos oscares do seu ano. |
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gonn1000@hotmail.com |
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O PIANISTA
Com o seu filme anterior, “Nos Meus Lábios”, Jacques Audiard já tinha provado que era um cineasta a seguir com atenção, capaz de proporcionar uma narrativa envolvente recorrendo a actores e personagens tridimensionais e bem construídos.
“De Tanto Bater o Meu Coração Parou” (De Battre Mon Coeur S`Est Arre) vem confirmar essas qualidades, apresentando mais um interessante olhar sobre o quotidiano urbano que aqui é filmado de forma ainda mais tensa, áspera e agarrada aos actores.
Debruçando-se sobre o dia-a-dia de Tom, um jovem agente imobiliário que vive uma difícil rotina devido à conturbada relação com o pai e às atitudes algo dúbias que adopta na sua profissão, o filme apresenta um protagonista repleto de convulsões internas que se intensificam quando um dos seus sonhos, quase esquecidos, o encoraja a tentar dar um novo rumo à sua vida.
Redescobrindo a sua paixão pelo piano, de resto um dos elementos que o interliga à sua falecida mãe, Tom começa a perseguir cada vez mais afincadamente o desejo de se tornar num pianista profissional, ambição que é recebida com desagrado ou mesmo desprezo por aqueles que o rodeiam. Tentando escapar a uma realidade dura, violenta e sem perspectivas, encontra assim um escape que lhe permite conseguir aproximar-se de uma vida mais auspiciosa e da sua realização pessoal.
Realista, imprevisível e verosímil, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” é uma obra ousada e efervescente, muito por culpa do protagonista, ou melhor, do actor que o encarna, o excelente Romain Duris, que embora não seja propriamente um estreante – participou, por exemplo, no muito recomendável “A Residência Espanhola”, de Cédric Klapisch -, evidencia aqui, como nunca antes, as suas enormes potencialidades, estando à altura de uma personagem exigente e desafiante.
A interpretação de Duris é tão convincente – seguramente uma das melhores de 2005 - que sustenta o interesse pelo filme mesmo quando o argumento nem sempre entusiasma, uma vez que há algumas cenas demasiado longas e dispensáveis.
Contudo, seria injusto considerar “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” apenas mais um one-man show, pois Jacques Audiard expõe também os seus méritos enquanto realizador e é capaz de gerar uma atmosfera crua e claustrofóbica, muito adequada ao trepidante dia-a-dia de Tom.
A ecléctica banda-sonora e o minucioso cuidado com o trabalho de fotografia e iluminação são outros trunfos do filme, mas infelizmente há aspectos que causam um certo desequilíbrio, como o subaproveitamento de algumas personagens secundárias ou a fragmentação narrativa, dado que apesar de vários momentos de considerável carga dramática há tantos outros desprovidos de vibração.
Mesmo sendo um filme irregular, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” consegue superar alguns dos seus entraves, tornando-se numa das boas surpresas do ano, com (pontuais) cenas de uma visceralidade emocional muito conseguida e próximas de domínios de Scorsese, Eastwood ou Iñarritu (essa semelhança com algum cinema americano derivará, pelo menos em parte, do facto do argumento ser baseado em “Fingers”, película de culto de 1978 realizada por James Toback e protagonizada por Harvey Keitel). Não é uma obra tão brilhante como poderia, mas é suficientemente sólida para se adicionar à lista de filmes a descobrir.
Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com |
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CINEMA2000 |
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bardus.blogspot.com |
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Quem toca um instrumento musical, já perdeu (nem que por uma vez) a noção do tempo. As mão deslizam pelo teclado, procurando a melodia perfeita e o tempo passa sem se fazer notar. Mas isto também acontece na vida. Perder a noção do tempo e espaço quando fazemos algo que nos dá prazer.
Este não é um filme apenas para amantes de musíca. É um filme para amantes da vida (espero que sejam todos os que lêem esta critíca).
A história acompanha a vida de Tom. Tom tem 28 anos e está destinado a seguir as pegadas do pai no mundo, às vezes brutal, do imobiliário. Mas um encontro inesperado leva-o a acreditar que ele pode tornar-se, à semelhança da mãe, pianista. Para tal, prepara-se para uma audição com uma virtuosa pianista chinesa. Ela não fala uma palavra de francês, por isso a música é a única forma de comunicação. Mas as pressões do seu mundo de trabalho são cada vez maiores e cada vez mais difíceis de suportar...
Acho que acontece a todos. Chega a um momento em que explodimos, porque na nossa vida do dia-a-dia temos muitas vezes de engolir em seco. É um método de defesa, no entanto, muito perigoso. Porque quanto mais engolimos, mais vamos libertar no momento da explosão.
Realizado por Jacques Audiard, volta a trazer o cinema Françês para o patamar que merece, um patamar bem alto. Depois de uma primeira incursão com o filme “Um Herói Muito Discreto” (que nunca cheguei a ver) com Mathieu Kassovitz, regressa com esta pérola “De tanto bater o meu coração Parou” (um dos mais belos títulos de cinema dos ultímos tempos).
Romain Duris domina o filme com uma interpretação contida mas que explode com o avnçar do filme. Actuação perfeita de um actor em ascensão. E o cinema europeu bem precisa de estrelas de cinema para o combate (desleal é certo) com Hollywood.
Em apenas 3 salas o filme continua a conquistar o seu público e garanto que não é por acaso. É um grande filme, sem dúvida um dos melhores do ano. Aconselhado para todos os que necessitam de ver um filme sem ser em inglês. Esta é a vossa melhor opção (este ano???).
Nota do Filme – “De Tanto Bater o meu Coração Parou” – 8/10 (****) |
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jomisilva@netcabo.pt |
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Primeiro, devo dizer que não vi a obra-prima que muitos apregoavam. Porém, é um filme muito interessante, visceral, ao jeito de algum Scorsese (mormente «Taxi Driver» e «Os Cavaleiros do Asfalto»). E como a cinefilia estabelece automaticamente uma geografia mental, é imperioso constatar que o mesmo Harvey Keitel que encarna a personagem principal de «Fingers» (a origem americana deste remake) aparecia também nos referidos filmes...
Avancemos. Não há dúvida que este é daqueles filmes que gravita totalmente sobre o seu protagonista (tal como «Dancer in the Dark» o fazia em relação a Björk, só para dar um entre muitíssimos exemplos). De facto, o Tomas desempenhado (de forma excelente, como é reconhecido) por Romain Duris é o centro da fita que joga tudo na nossa implicação mental com ele. Tomas vive inquieto e tudo à volta dele se edifica como dilemas (pai/mãe, amor/prazer, claro/escuro, pai/filho) a que tem que reagir quase sempre impulsivamente. É, pois, um filme dual, de contrastes, que explana a psicologia da sua personagem central quase em filigrana, dando a conhecer até os seus mecanismos mais ínfimos.
Não obstante o grande interesse que desperta na sua globalidade, parece faltar-lhe um certo arrebatamento e uma maior ligação dramática entre Tomas e o mundo exterior. Ou seja, é um bom retrato psicológico, mas não chega a ser sociológico.
Jorge Silva
avidanaoeumsonho.blogspot.com |
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paulo_ferrero@hotmail.com |
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Eis aquele que é talvez o melhor filme actualmente em cartaz em Lisboa. Porquê?
Porque Audiard mostra que está na crista da onda do cinema francês, ao fazer de um argumento básico - um rapaz parisiense, que por fora é uma coisa e por dentro é outra - um dos mais desconcertantes filmes franceses dos últimos anos, fazendo-nos puxar por uma personagem do princípio ao fim.
É verdade, o título em francês é de apertar o coração, logo ali, mesmo antes de se ver o filme. E depois é o corpo tortuoso, aprisionado da personagem protagonizada por Romain Duris (e esta, hein?) que nos é familiar, porque algures vivido.
Essa luta titânica entre a mediocridade rotineira e a maldição do génio, que quer sair e não pode, e que sufoca à primeira/última oportunidade, tal qual um pêlo cujo poro não o deixa sair, é algo que contagia.
É verdade que a fotografia e a música ajudam, bem como a acutilância da língua francesa e a excelência de alguns dos bons actores franceses do momento, também, mas o filme tem momentos absolutamente magníficos, a começar pelas sequências das aulas de piano em que a supervisora chinesa e o pupilo francês se começam por entender e desentender até convergirem na mais perfeita das harmonias.
«De Battre Mon Coeur S`Est Arrêté» é mesmo aquele filme que Toback nunca conseguiria fazer.
Paulo Ferrero |
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davidmariano@gmx.net |
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“De Tanto Bater o Meu Coração Parou” de Jacques Audiard
GARRAS SOBRE O PIANO
Filme belo e tenso este de Jacques Audiard que chega às nossas salas, imprescindível, no mínimo, para quem procura ainda no cinema uma verdadeira estória de um tempo que não deixa de ser o nosso; “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” é um exemplo possível de que há modos de narrativa do quotidiano e do pulsar humano capaz ainda de surpreender e cicatrizar o grande écran com temas de plena intensidade. É uma obra genuína, pelo menos, no sentido em que revela uma interpretação imensa como a de Romain Duris, verdadeiro animal acossado que guia a câmara por ruas e corredores parisienses a que não é alheia uma invocação nostálgica – e não será de todo desapropriado integrá-la no contexto da ‘nouvelle vague’ que suscita, da imagem de Jean Paul Belmondo, símbolo marginal de uma outra capital francesa e de uma outra época de cinema, é certo. Duris, insistamos, caminha por aqui na dimensão de um animal selvagem preso entre grades, em círculos concêntricos e indiciando através da nossa atenção, a perspectiva e procura de outros horizontes além da rotina diária que o leva a realizar soturnos planos imobiliários. Refiramos tais linhas e pontos da paisagem como uma busca, um apelo pela vocação que a música integra na viciosa dimensão da personagem; revisto no piano como instrumentalização de uma redenção típica.
Se nos permitíssemos a defini-la como uma estória de amor seria preciso referir que para encontrarmos o objecto feminino de tal sentimento; as teclas e as notas musicais completariam esse percurso. Não é por acaso que o papel da professora de piano chinesa, a que Duris a determinado momento se entrega para uma nova aprendizagem, está lá, ininteligível (não consegue falar outra língua senão a da sua terra natal, desafio que por esse motivo nos oferecerá as cenas mais caricatas e divertidas), mas providencial; falar em fortuna seria, nesse aspecto, contrariar a carga passional que até aí o conduziu, e seria também esquecermo-nos da dor que o motiva.
É, pois, nesse capítulo, que “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” encerra em si um tom poético e de traços corporais bem definidos, ferido até, e que acaba por fazer com que o título lhe sirva na perfeição. A vida fez-se, creia-se, para que retratos como estes prevalecessem.
David Mariano
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almeida_rita@sapo.pt |
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DE BATTRE MON COEUR S`EST ARRÊTÉ
de Jacques Audiard
O realizador de “Sur Mes Lèvres” (2001), numa “vingança” pelos remakes americanos de filmes franceses, regressa com este remake do filme “Fingers” (1978), de James Toback com Harvey Keitel no papel agora desempenhado por Romain Duris (“L’Auberge Espagnol”, Cédric Klapisch, 2002).
Thomas Seyr (Duris) segue as pisadas do pai (Niels Arestrup) no negócio imobiliário, onde a sua tarefa é forçar os indesejáveis para fora das suas casas, por todos os meios possíveis (colocando ratos, cortando a electricidade e a água, e ocasionalmente partindo tudo), para depois as comprarem por um preço baixo para os seus clientes. Adicionalmente, Tom faz também algumas cobranças difíceis para o seu pai, geralmente recorrendo a argumentos violentos.
Um encontro com o antigo agente da sua mãe, Mr. Fox (Sandy Whitelaw), que o convida para uma audição, desperta em Tom a vontade de recuperar o tempo perdido e regressar ao piano. Mas, para isso, ele vai necessitar de treino e acaba por contratar Miao Lin (Linh Dan Pham), uma pianista chinesa recém-chegada a Paris que não fala uma palavra de francês.
Audiard coloca-nos a meio da narrativa, onde temos que decifrar quem é quem, o que fazem e porquê. Com o esclarecimento, somos obrigados a reavaliar a primeira impressão que temos de Tom e acompanhamos com vontade a sua evolução.
Tom vive num dilema, bastante próximo do colocado às crianças sobre gostarem mais do pai ou da mãe: divide-se entre a responsabilidade de corresponder às expectativas do pai, que aproveita qualquer ocasião para uma chantagem emocional, e a paixão pela música herdada da mãe, uma talentosa pianista já falecida que, como um fantasma ausente, impele Tom para a concretização de um sonho.
Duris tem uma interpretação poderosa, que consegue ser sedutora e repelente em diferentes momentos, mas com igual intensidade: de raiva, arrogância, ressentimento, vingança, intimidade, vulnerabilidade, sensibilidade, e até a generosidade com que cobre as mentiras adúlteras de um colega.
Tom é um anti-herói, uma bomba prestes a explodir, uma questionável moral, que não hesita recorrer à violência, mas também capaz de ternura. Audiard e Duris fazem um retrato complexo de uma personagem num contexto dinâmico e absorvente, sem nunca perder a consistência e credibilidade, dividido entre a expressão da arte e contenção da violência. E gostamos dele, com falhas e tudo.
A beleza deste filme não se resume ao título (do original “De battre mon coeur s`est arrêté”, passando pelo “De tanto bater o meu coração parou” português, até ao “The beat that my heart skipped” inglês). Os batimentos desta narrativa são compassados, a tensão ritmada e a música, entre sístoles e diástoles, enleante.
RITA ALMEIDA
http://cinerama.blogs.sapo.pt/
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the_everl@hotmail.com |
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Personagens como Thomas Seyr não há muitas e interpretações como a de Romain Duris também não. Isto para dizer que seguir Tom em “De Battre mon Coeur s’est Arrêté” é das melhores experiências cinematográficas neste ano de 2005. O filme é um “remake”, bastante livre diz-se, de “Fingers” (1978), de James Toback. E parece que é dos anos 70 que Tom sai, botas de “cowboy” ou casaco de cabedal constituindo a sua indumentária. “Easy Rider” ou “O Cavaleiro do Asfalto” seriam bons títulos para um texto sobre o filme. Aliás, é mesmo Robert De Niro/Johnny Boy, do “Mean Streets”, de Scorsese, que Tom faz lembrar. Um bocado mais moderno é certo – sempre com “headphones” a tocarem electro ou rock.
Tom trabalha no mercado imobiliário, mas de uma forma muito duvidosa, efectuando golpes ilegais de vários géneros. Tarefa que aprendeu com o pai é importante dizer. Farto da vida que leva, e ao surgir a hipótese de entrar na cena musical como pianista – aprendeu a tocar piano com a falecida mãe, pianista profissional –, Tom decide ter aulas para treinar o talento há muito guardado com o objectivo de singrar na audição. E quanto maior é o seu desejo pelo piano, maior começa também a ser o seu desinteresse pela sua “profissão”.
Muito bem conseguida pelo argumentista e realizador Jacques Audiard é a intensidade do filme. Se quisermos, para além da personagem também o filme é devedor de “Mean Streets” ou do cinema americano dos 70’s em geral. Sempre com a câmara a acompanhar (muitas vezes, de muito perto) Tom, o espectador acompanha-o também e é isso que faz tudo tão intenso – estamos dentro do filme. É claro que para isto contribui imenso a interpretação frenética de Romain Duris, mas mérito para Audiard, já que foi a ele a criar a personagem e, se calhar também por isso, sabe filmá-la muito bem.
Mas é claro que “De Battre…” não é só forma. Tom é uma personagem muito bem explorada. A sua relação com os pais, por exemplo, sem ser preciso escancará-la, é bastante importante para o perceber. Mais precisamente a sua relação com o pai, vai funcionar muito bem no momento da catarse. Mas o que é realmente arrebatador é ver Tom a tentar transformar-se. Para alguém como ele, aquela incursão no mundo do piano é algo dificílimo (note-se como os seus “amigos” reagem à situação). Mais: a própria personalidade nervosa, brusca e agressiva de Tom é algo que em nada se adequa com a de um pianista. O filme é também este autêntico “tour de force” da personagem.
A audição há de chegar. E depois a redenção. Isto para falar do final em que pensamos que o filme foi também uma história de amor (aquele ajeitar do banco do piano…). É no amor que o piano lhe trouxe que Tom encontra a sua hipótese de redenção. Para confirmar na sequência violenta (ainda Scorsese…) em que pode vingar o pai. Porém, já não é o mesmo Tom que está ali. Porque de tanto bater o seu coração parou.
Obra-prima
Daniel Pereira
30-08-05
www.escrevercinema.blogspot.com |
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CINEMA2000 |
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mabsinto@aeiou.pt |
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"De Tanto Bater o Meu Coração Parou" de Jacques Audiard
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Para começar, desde logo não se pode deixar de reparar no excelente título, "De Tanto Bater o Meu Coração Parou"... esse é desde logo o primeiro impacto que temos com a obra, de seguida desde o genérico inicial ou da primeira sequencia do filme, será facilmente atingido por uma direcção fotográfica intensa, mas não intensa no que respeita à iluminação (ao brilho), antes ao contraste e à saturação, são filmados pequenos pontos de luz numa imensa sombra, filmados por uma visão nervosa, seca e bruta de Audiard, que praticamente coloca as suas imagens "ao lado" ou mesmo "dentro" de cada personagem, em particular Tom.
Tom é fabulosamente interpretado por Romain Duris ("A Residência Espanhola"), é um anti-herói, ou melhor, uma personificação de herói destruido, que se encontra escondido até ao momento da descoberta.
Tom como qualquer herói tem uma vida dupla, não que tenha super poderes, não que tenha problemas psicológicos que o façam prever o futuro, mas antes, tem um forte conflito interior entre o passado e o futuro, entre seguir a terrível e desonesta vida de agente imobiliário como o seu pai, ou seguir um sonho de infância, pianista, como a sua falecida mão.
"De Tanto Bater o Meu Coração Parou" é um realista, tudo o que aqui se filme é um mundo, um mundo interior de uma pessoa que como a qual existe milhões. A ligação entre pai/filho, é constantemente alterada, assim como a relação entre filho/mãe falecida, num dos mais fortes momentos, em que Tom escuta as gravações de piano da sua mãe, recordando sentimentos e vivências, com um Romain Duris com pleno sentido de câmara e completamente exposto.
Mas será na ligação desses "dois mundos" que o filme terá o seu ponto menos bom, pois por momentos parece algo desfragmentado, sem uma unidade, mas sem nunca largar o espectador. Em boa verdade o filme no que se trata de interesse, assemelha-se a uma composição clássica para piano, por momentos "pianíssimo", e em outros momentos "fortissímo".
Com a melhor interpretação do ano até ao momento, Duris faz em momentos recordar DeNiro em «Taxi Driver», com uma suberba realização, com excelente banda sonora e uma direcção fotográfica a corresponder a todo o drama, "De Tanto Bater o Meu Coração Parou" é um dos grandes filme do ano. Intenso, brutal, violento, calmo, sereno, contido, são alguns adjectivos que poderão qualificar o filme, mas se unicamente nos dirigir-mos ao filme como "um filme humano", resumiremos a essencia da obra.
9/10
Na verdade "De Tanto Bater..." não parte de uma ideia original, parte sim da ideia base de «Finger" (1978) filme americano com Harvey Keitel. Mas será isso que fará com que "De Tanto Bater..." não seja um filme "original", tendo em conta o actual panorama cinematográfico, este filme será uma verdadeira raridade.
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Manuel Barros =» http://rollcamera.blogspot.com
P.S.- já agora aproveito para agradecer e felicitar o Cinema2000 pela ante-estreia do filme, à qual tive oportunidade de assintir. |
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b.p.v@iname.com |
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Há algo que se tem implantado tanto que se tornou natural: qualquer filme americano que apareça tem, no próprio momento do seu lançamento, a sua "história" construída. Todos os seus dados são imediatos: podemos encontrá-los em qualquer site de cinema (mesmo nas críticas que aparecem neste), podemos dizer tudo sobre todos os seus componentes. Daí que se vejam cada vez mais críticas que começam com uma historiografia completa dos elementos laterais do filme (passado do realizador, actores, produção, etc.), fazendo com que o filme seja muito mais um elemento de biografia de alguém do que algo que tem (independentemente desses elementos) vida própria, antes uma acumulação (mais mecânica) de partes do que um todo (uma obra).
A verdade é que não podemos saber o contrário e os dados são coisas paradas, manipuláveis e seguras; e então lemos, muitas vezes, o sentido que o filme faz na sequência da obra de alguém, como este é um passo natural que já se podia perceber nos filmes anteriores, que os filmes anteriores já continham índices que encontramos aqui. Claro que tudo isto é feito a posteriori, quando as coisas são flagrantes, um pouco como os prognósticos no fim do jogo; gostava de encontrar um crítico que fizesse estas considerações antes de as saber como um facto, antes de saber qual é o próximo filme do realizador x, antes de, perante a morte, dizer o que foi a vida olhando para trás. Leria o crítico que usasse a coragem e que dissesse "vai ser assim", que tomasse o risco mais do que a evidência como seu objecto. E se me disserem que isto é impossível, relembro-vos que, noutro regime, Mourinho foi comentador de futebol na televisão em jogos da selecção nacional e lembro-me de o ter ouvido dizer, 5 minutos antes de acontecer, explicando como e porquê, que Costinha deveria jogar 10 a 15 metros mais à frente no campo. Talvez, então, possamos dividir rudemente: há os que lêem a história e os que a fazem.
Este regime de marketing que se instalou faz com que o leitor vá para um filme já informado; essa informação, no entanto, não é aleatória mas seleccionada: aquilo em que se repara não é livre mas é algo que está pré-definido, uma anotação prévia, uma indicação que levamos já para dentro de um filme que ainda não nos impressionou, isto é, ainda não se relacionou connosco. Daí que já todos sabemos o que acontece em "9 songs", tenhamos ou não visto: há uma agenda que se instala sobre o filme (no caso: música e sexo) que limita a observação (como na ideia de que a resposta está sempre contida na pergunta) e, principalmente, que minimiza todos os elementos que não são os dessa agenda. Podemos então dizer: "9 songs é um filme porno com banda sonora" e sair aliviados do filme porque temos sobre ele uma certeza, porque tomámos posição, porque o dominámos, porque ele não nos escapou. Dizer a incompreensão era dizer uma desinteligência nossa - e para isso estamos menos disponíveis, daí que haja mais gente a ir ver o filme para confirmar que é mau (como muita gente a ler os livros da moda, para não ficar para trás, para que a socialização se cumpra) do que gente a dizer, à saída da sala, "não compreendi o que me queriam dizer".
Daí que tenha sempre a tentação de saber o menos possível antes de ver qualquer filme. O King, por exemplo, disponibiliza as críticas dos filmes exibidos e muitos de nós acabam por resistir a essa tentação de compreender antes, o que, a acontecer, impedia que o filme nos dominasse.
E fui assim que fui ver este filme, sabendo apenas o título e pouco mais, e foi assim que o filme me dominou. Estar perante ele tendo certezas (o estilo do realizador, os tiques dos actores, um esquema genérico da narrativa, o tipo de fotografia) seria criar um espaço inviolável, ou seja, seria, de facto, não deixar que o filme chegasse a mim mas antes aceder a uma série de verdades e rótulos prévios que me diziam o que e como devo ver. Deste modo há uma relação aberta entre estas duas entidades (eu / o filme) e o filme pode tocar-me, as coisas que se passam nele podem ser minhas. E então encontro-me no filme, o que é, digo eu, a melhor forma de ver cinema e, principalmente, a melhor forma de ver este filme, que o exige. |
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duarteoliveira@hotmail.com |
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"De Battre Mon Coeur S`Est Arrêté" de Jacques Audiard
Curioso e interessante filme este. Acompanha a frenética vida dupla de um homem - os seus esquemas manhosos em negócios imobiliários e a sua paixão, herdada da mãe, pela música e pelo piano. Mas a sua narrativa flutuante, que nunca chega verdadeiramente a assentar e a ganhar consistência, acaba por se tornar numa faca de dois gumes - por um lado, dá um ar vivo e vertiginoso ao filme, por outro, descontextualiza muita da sua potencial força dramática. Menção especial para Romain Duris, um actor em ascensão.
Duarte Oliveira
http://panteonesco.blog-city.com
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