ANNE BANCROFT (1931 - 2005)

Ganhou o Óscar de Melhor Actriz em 1962 por «O Milagre de Ann Sullivan», mas no cinema ficou marcada por Mrs. Robinson, que seduzia Dustin Hoffman em «A Primeira Noite». Anne Bancroft deixa-nos aos 73 anos.

Comentário de: João Lopes

 
 
 
   
 

Anne Bancroft em 1967 e em Novembro de 2004, com Matthew Broderick e Mel Brooks

 
Premiada com um Óscar por «O Milagre de Ann Sullivan», marcada pela personagem de Mrs. Robinson em «A Primeira Noite», filme geracional realizado por Mike Nichols em 1967, Anne Bancroft faleceu aos 73 anos.

Anne Bancroft morreu na passada segunda-feira, 6 de Junho, vítima de cancro, de acordo com um porta-voz do seu marido, Mel Brooks. Sobrevivem-lhe a sua mãe, com 98 anos, que encorajou as suas ambições como actriz, e duas irmãs.

Nascida Anna Maria Louisa Italiano, a 17 de Setembro de 1931, primeira geração de italo-americanos, logo na sua infância recebeu as primeiras lições de interpretação e dança. Em 1950, estreia-na na televisão como Anne Marno. Em 1952, assinou contrato com os estúdios de cinema da Fox e foi obrigada a deixar cair o seu nome demasiado "étnico" e entre os vários propostos pelo estúdio, escolheu "Bancroft", porque "lhe pareceu digno". Iniciou a sua carreira com filmes que falharam em demonstrar as suas qualidades interpretativas. O primeiro foi «Os Meus Lábios Queimam», de Roy Ward Baker, que não é certamente dos mais recordados protagonizados por Marilyn Monroe ou Richard Widmark.

Em 1958, cansada de westerns de série B e filmes ainda menos memoráveis, regressa a Nova Iorque, começa a estudar no Actors Studio ao mesmo tempo que se vira para o teatro na Broadway, sendo galardoada com um Tony (o prémio máximo da Broadway) na peça "Two for the Seesaw", com Henry Fonda, dirigida por Arthur Penn, provando as suas credenciais como actriz dramática. Em 1960, recebeu o segundo pelo seu papel da professora Annie Sullivan, em "The Miracle Worker", que ensinou Helen Keller, que nasceu surda e cega, e onde também era dirigida por Penn.

Perdendo o papel na adaptação cinematográfica de "Two for the Seesaw" para Shirley MacLaine, Arthur Penn resistiu às pressões dos estúdios para contratar uma actriz mais glamorosa para a adaptação de "The Miracle Worker". Em consequência, o orçamento foi muito mais pequeno. Com «O Milagre de Ann Sullivan», Bancroft recebeu o Óscar de Melhor Actriz Principal e Patty Duke, também repetindo a interpretação na peça como Keller, o de Actriz Secundária. A sua ausência da cerimónia contribuiu para mais um capítulo lendário da história de Hollywood, quando o seu prémio foi recebido por Joan Crawford, incendiando assim ainda mais a relação de ódio com Bette Davis, que estava nomeada esse ano pela 12.ª vez, por «O Que Aconteceu a Babby Jane» (em que Crawford e Davis trabalharam juntas).

Costuma dizer-se que Anne Bancroft teve duas carreiras, uma nos anos 50, e outra nas décadas seguintes. Os anos 60 são de trabalhos para a imortalidade, de «Discussão no Quarto» (1964, 2.ª nomeação aos Óscares, prémio no Festival de Cannes), de Jack Clayton, «Chamada Para a Vida» (1965), de Sydney Pollack, «Sete Mulheres» (1965), de John Ford. A popularidade de Bancroft atingiu o auge com esse filme geracional chamado «A Primeira Noite» (1967, 3.ª nomeação), de Mike Nichols, em que Bancroft interpretou a mãe da namorada de Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), simplesmente conhecida como Mrs. Robinson. Foi um papel que ela, desaconselhada por várias pessoas, quase recusou: o da "mulher mais velha a fazer sexo com um jovem". Entre muitas frases famosas que ficaram, destaca-se naturalmente quando o confuso e inexperiente Benjamin dirige-se a Mrs. Robinson e diz "Mrs. Robinson, está-me a tentar seduzir... não está?".

Embora a sua carreira tenha ficado definida por esse papel (mais do que aquele que lhe deu o Óscar) e nunca tenha sido tão popular como nesse momento, que a levou ao longo dos anos a proclamar o seu espanto por as pessoas nunca terem ultrapassado o seu impacto (o que não será difícil de explicar se pensarmos que, independentemente do filme, também está ligada à canção de Simon & Garfunkel), o estatuto como uma das actrizes mais respeitadas nos palcos, cinema e televisão manteve-se desde então.

Entre os filmes e trabalhos em televisão que merecem destaque contam-se «O Jovem Leão» (1972), de Richard Attenborough, «A Última Loucura de Mel Brooks» (1976), como ela própria, «Jesus de Nazaré» (1977), de Franco Zeffirelli (televisão), «A Grande Decisão» (1977, 4.ª nomeação), de Herbert Ross, ao lado de Shirley MacLaine. Novamente inesquecível em «O Homem-Elefante» (1980), também ele um trabalho inesquecível de David Lynch, produzido por Mel Brooks, «Ser ou Não Ser» (1983), de Alan Johnson (ao lado do seu marido), «Garbo e Eu» (1984), de Sidney Lumet, «Agnes de Deus» (1985, 5.ª nomeação), num confronto memorável com Jane Fonda, «A Rua do Adeus», de David Hugh Jones (com Anthony Hopkins) e, de forma particularmente memorável, em «Corações de Papel» (1988), de Paul Bogart, ao lado de Harvey Fierstein e Matthew Broderick.

Nos anos 90, para além de vários papéis em telefilmes, destacam-se presenças secundárias nos filmes «A Assassina» (1993), de John Badham, «Onde Reside o Amor» (1995), de Jocelyn Moorhouse, «Fim-de-Semana em Família» (1995), de Jodie Foster, «Espírito do Sol» (1996), um filme injustamente esquecido de Michael Cimino, «G.I. Jane» (1997), de Ridley Scott, «Grandes Esperanças» (1998), questionável experiência na língua inglesa por parte de Alfonso Cuarón, no filme protagonizado por Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow, «Antz - A Formiga Z» (1998), de Eric Darnell e Tim Johnson. Em 2000, foi a mãe de Ben Stiller em «Sedutora Tentação». Ainda em 2000, «Paixão em Florença» antecede o seu último filme, onde teve um pequeno mas delicioso papel, «Matadoras» (2001).

Em 2002 regressou ao teatro após uma ausência de 21 anos, com a peça off-Broadway "Occupant", de Edward Albee. Em 2003, faz o seu último trabalho à frente das câmaras, no telefilme «The Roman Spring of Mrs. Stone», pelo qual foi nomeada para um Emmy. Terá feito ainda a voz no filme de animação «Delgo», de Marc F. Adler e Jason Maurer, ainda por estrear.

Anne Bancroft casou com o actor e cineasta Mel Brooks em 1964, com quem teve um filho, Maximilian, em 1972. Após o casamento, nunca se sentiu constrangida em recusar trabalho em favor de outras obrigações pessoais, pagando o preço de não trabalhar tanto como podia. Uma ironia, já que em «A Grande Decisão», interpretara uma bailarina que abdicara da vida pessoal para prosseguir a sua carreira. Em 2000, reflectiu sobre o que pensou quando conheceu Brooks: "Este tipo parece-se com o meu pai e age como a minha mãe. É o indicado para mim." No dia seguinte a tê-lo conhecido, disse à sua psiquiatra: "Vamos despachar este processo, conheci o homem certo". Foi ela que o convenceu a fazer a adaptação musical do seu filme «The Producers» («O Falhado Amoroso») e após ver os ensaios com Nathan Lane e Matthew Broderick percebeu a falta que o teatro lhe fazia e fez o citado regresso após tantos anos. Aliás, uma das suas últimas presenças foi com o marido na série da HBO «Curb Your Entusiasm», de Larry David, interpretando uma paródia a uma cena de «The Producers».

Em 1980, Bancroft fez a única experiência como actriz, argumentista e realizadora, com «Água na Boca». Já na cerimónia dos Óscares de 1993, ela e Dustin Hoffman fizeram uma rábula à volta da famosa pergunta sobre a sedução de «A Primeira Noite». Mas desta vez a resposta foi "agora já não"...

08-06-2005

* Obituário no jornal Los Angeles Times.


João Lopes  
A bela e o monstro

Era ela que, no filme de David Lynch, olhava de frente o «homem-elefante» (John Hurt) e via nele, não o monstro, mas... apenas o homem.

Ann Bancroft possuía essa beleza sublime do olhar que não renega nada do que é humano. Nessa medida, e mesmo que a sua carreira não tenha a dimensão própria de uma star, a sua imagem pode simbolizar a maravilha primordial do cinema: a relação de uma câmara de filmar com um corpo, um olhar, um ser vivo.

Além do mais, Bancroft conseguia diluir de forma delicada as fronteiras tradicionais entre teatro e cinema. Por um lado, tinha a dimensão «natural» de todos os grandes actores modernos; por outro lado, a sua arte envolvia sempre um toque de «excesso» ou «artificialismo» que eram também, à sua maneira, um modo de celebrar o acto humaníssimo de rever o mundo, representando-o.

Era uma actriz que nos ensinava a trabalhar o nosso olhar. E também a humildade disso.

J. L.