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Adeus, Dragon Inn
Título original: Bu san / Goodbye Dragon Inn
Realização: Tsai Ming-Liang
Intérpretes: Lee Kang-Sheng, Chen Shiang-Chyi, Mitamura Kiyonobu, Miao Tien, Shin Chun, Yang Kuei-Mei, Chen Chao-Jung, Lee Yi-Cheng
Taiwan, 2003
Estreia: 10 de Março de 2005
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Eurico de Barros | João Lopes | Média dos Espectadores |
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Na última noite antes de um velho cinema fechar uma jovem japonesa corre para o cinema, mesmo apesar da chuva. O cinema parece deserto, sem vida. Mas, no entanto, há algumas pessoas, algumas talvez não sejam pessoas. Uma arrumadora coxa e um jovem projeccionista trabalham no cinema, mas nunca se encontraram. Todos os dias, até à última noite, a arrumadora procura o projeccionista na cabine de projecção, mas ele nunca está. Ela olha uma última vez e continua à sua procura pelos corredores da sala de cinema labiríntica. Mas continua sem o encontrar. Quando o filme termina, as pessoas saem e a porta fecha-se... Mas o jovem projeccionista repara que a arrumadora se esqueceu do termo da comida, por isso resolve ir à sua procura. Antes da sessão terminar, no ecrã gigante é projectado um filme de há 36 anos chamado “Dragon Inn”.
Um jovem japonês que veio até ao cinema à procura de outros homossexuais choca com alguém que se parece imenso com o espadachim do ecrã. No entanto, agora são velhos, sentados na sala escura e vazia, olhando o seu próprio filme. Choram...
Serão reais ou apenas espíritos que não querem partir?... |
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Eurico de Barros
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O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 11 de Março de 2005.
Tsai Ming-Liang ambientou «Adeus, Dragon Inn» num imenso cinema de Taipé à beira do fecho, e fez do seu filme uma espécie de anti-«Cinema Paraíso». Em vez de sentimentalice e nostalgia cinéfila, temos uma tristeza difusa e muda e uma evocação de felicidade passada e irrecuperável, acentuados pelos rigorosos planos-sequência do realizador, que extrai o melhor efeito visual e emcocional do enorme cinema vazio e decadente. |
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flyp@netcabo.pt |
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O poder das sinopses e dos cartazes
É assustador ver como uma sinopse bem construída ou uma crítica bem escrita, cheia de palavreado bonito e referências históricas, assim como um cartaz graficamente apelativo, podem induzir em erro o comum dos mortais. De facto, e aparte a incontestável riqueza teórica do argumento, este é um filme totalmente vazio, sem conteúdo. Não se passa nada, não acontece nada. A ideia é muito interessante, teoricamente possível de explorar, mas o resultado final é de uma nulidade atroz. O filme poderia causar mal-estar ou desconforto, incomodar, mas não… a mim, com o seu vazio apático, causou sonolência e vontade de sair, excepcionalmente, antes do fim da sessão.
filipe neves |
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almeida_rita@sapo.pt |
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ADEUS, DRAGON INN
de Tsai Ming-Liang
No cinema Fu-Ho de Taipei, projecta-se o filme “Dragon Inn” (Hu King, 1966). Ao longo da história percebemos que se trata da última sessão deste cinema em ruínas. Mas os seus poucos espectadores parecem mais interessados em fumar, comer ou passear do que em ver o filme, talvez justificando o lamento que o cinema perdeu, nos dias de hoje, grande parte do seu magnetismo.
Um turista japonês (Kiyonobu) foge da chuva. Como um convite, segura um cigarro por acender, até ser conduzido ao corredor secreto onde passam homossexuais, como sombras anónimas. A jovem que trabalha na bilheteira (Shiang-chyi) coxeia pelas escadas e corredores, procurando o evasivo projeccionista (Kang-sheng).
Apenas um idoso (Tien) e o seu neto, e um homem circunspecto (Shih), vêem com atenção o que se passa na tela. Mais tarde percebemos que ambos são os jovens protagonistas da obra projectada. Num filme marcado pela frieza e pelo desencanto, o reencontro de ambos é o momento mais caloroso, adicionado-se, no entanto, à tristeza geral.
“Adeus, Dragon Inn” é um filme amargo sobre a solidão e o isolamento, o seu silêncio e os seus ecos. O cinema é aqui o espaço onde se cruzam, como fantasmas, vidas desligadas, onde as emoções não se tocam. É também uma história sobre o desejo e a perda.
Ming-Liang filma de uma forma extremamente lenta, arrastando-nos para o desespero dos seus personagens, para a angústia do seu sofrimento, e deixa-nos também a nós no mesmo silêncio. O contraste com a acção que se desenrola na tela é evidente.
O cinema torna-se o personagem mais importante da história, todos os recantos nos são mostrados, os corredoras, as janelas, as goteiras que deixam entrar a chuva. Como as rugas de um velho moribundo, todas as fissuras deste edifício degradado contam a história de quem passou por ali.
Mas é também ao cinema como experiência, como acto de dedicação e de afecto, que Ming-Liang se refere. E se o carácter abstracto deste filme o torna uma peça difícil de absorver, é talvez mais fácil entender o seu objecto: a ligação emocional que se atinge no escuro com a partilha de uma mesma experiência.
Rita Almeida
http://cinerama.blogs.sapo.pt/ |
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paulo_ferrero@hotmail.com |
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A acção, ou a falta dela, tanto se podia desenrolar em Taipé como em Portugal. É o quotidiano. A cena repete-se quase todos os anos: as velhas salas de cinema começam por encerrar temporariamente, para nunca mais abrirem, ficando ao abandono e, vezes demasiadas, ao sabor da especulação imobiliária. Na circunstância, trata-se de uma sala imensa, um templo abandonado já pelos crentes, entregue à decadência e aos fantasmas.
Fantasmas de actores que viram espectadores, do último filme em cartaz, da última sessão. Fantasmas de sonhos do écran que nunca se hão-de realizar (é notável o plano da bilheteirinha coxa, hipnotizada pela beleza e pelas façanhas da actriz-personagem da tela). Fantasmas de cortinas, esvoaçando. Fantasmas sexuais. Chuva que cai em baldes, pelos corredores e pelas salas da velha sala de cinema. W.C. decrépitos, a que só a água correndo parece dar vida. O velho projector reboninando a película. A ausência de diálogos. O destino. A falta de memória que as novas gerações parecem ter.
«Good bye Dragon Inn» poderá parecer um filme estranho para quem nunca tiver conhecido salas assim. Mas também poderá ser um filme belo. Irmão gémeo de «Cinema Paradiso», mesmo que abuse de planos-sequência «à la» Oliveira, e utilize alguns estereótipos desnecessários (ex. a bilheteirinha tinha mesmo que ser coxinha? o turista japonês tinha que ser turista sexual? ainda por cima homossexual?). Um filme de Tsai Ming-Liang. Está tudo dito.
Paulo Ferrero |
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Jtrb79@hotmail.com |
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Mais acessível que as anteriores obras de Ming-Liang estreadas entre nós, mas nem por isso concedendo facilidades ao espectador. Segundo o senso comum, é um cinema "radical", feito de longos planos-sequência e também longos silêncios. Apesar disto( ou será por causa disto?), existe, nesta obra, uma profunda melancolia por um passado assim não tão distante. Talvez seja assim, silenciosa e resignadamente, que melhor se filma a perda.
Tiago Ribeiro 16/03/2005 |
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