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As Paixões de Júlia
Título original: Being Julia
Realização: István Szabó
Intérpretes: Annette Bening, Jeremy Irons, Shaun Evans, Bruce Greenwood, Michael Gambon, Juliet Stevenson, Rosemary Harris
Hungria/Grã-Bretanha, 2004, 2004
Estreia: 24 de Fevereiro de 2005
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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Julia Lambert (Annette Bening) é uma bela e talentosa actriz de teatro em final de carreira na Londres dos anos 30. Os seus papéis, histórias de amor e animadas comédias sociais, são grandes sucessos, fazendo de Julia uma das mais amadas actrizes do seu tempo. Mas, no teatro, como na vida, as aparências são muitas vezes enganadoras. Júlia atravessa uma crise de meia-idade e tanto o seu sucesso profissional como o seu casamento com Michael Gosselyn (Jeremy Irons) - marido liberal, produtor e seu agente - tornaram-se banais e insatisfatórios.
É então que conhece Tom Fennell (Shaun Evans), um belo e charmoso jovem americano que se apresenta como o seu maior fã. Julia acaba por render-se às suas atenções e vê-se inesperadamente envolvida numa apaixonada relação. A vida torna-se então mais ousada e excitante para Julia e as suas "performances" voltam a incendiar os palcos, até que o seu novo amor a relega para segundo plano. Depois de desfrutar do seu dinheiro e das suas relações sociais, Tom dirige agora a sua atenção para Avice Crichton (Lucy Punch) - uma jovem actriz à procura de uma oportunidade no mundo do teatro. Este irá servir-se de Julia para que Avice progrida na sua carreira.
Aparentemente resignada perante os acontecimentos, Julia aceita conseguir uma audição para Avie na sua nova peça. Contudo, Júlia reúne toda a suas qualidades como actriz e astúcia a fim de tecer um plano brilhante para a sua vingança...
«As Paixões de Júlia» baseia-se no livro "A Outra Comédia" (Theatre, 1937) de W. Somerset Maugham, tendo sido adaptado ao cinema por Ronal Harwood - premiado com um Óscar pelo argumento de «O Pianista» (2002) de Roman Polanski. István Szabó, provavelmente o mais conhecido e reputado realizador húngaro, teve um primeiro filme nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1979, com «Bizalom (1979), mas é principalmente reconhecido por uma reputada trilogia de filmes sobre a ambição e o poder (e o seu preço) nos anos 80, que contou com Klaus Maria Brandauer como protagonista: «Coronel Redl» (1985) e «Hanussen» (1988) foram nomeados para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, «Mephisto» (1981) foi mesmo premiado. O último filme a estrear em Portugal foi «Sunshine», saga de uma família húngara ao longo do século XX com Ralph Fiennes.
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Nomeações para os Óscares (1)
* MELHOR ACTRIZ, Annette Bening |
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João Lopes
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O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 10 de Março de 2005.
Baseado em Somerset Maugham, dirigido pelo húngaro István Szabó, este é o retrato de uma actriz dos anos 30 que tenta capitalizar a clássica oposição entre o "palo" e a "vida". Szabó tem uma atitude académica face ao material, mas passa alguma emoção pelas convulsões da intriga e, sobretudo, pelo magnífico trabalho de Annette Bening. |
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fernando.valerio@iol.pt |
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Trata-se de um filme sóbrio, sem extravagâncias, mas extremamente competente. Tem um argumento sólido, conta com uma magnífica interpretação de Annette Bening, que é muito bem coadjuvada pelo restante elenco.
Acima de tudo este filme conta com uma característica, bastante querida aos melhores cineastas europeus, que é a necessidade de conferir densidade dramática e psicológica a praticamente todos os personagens, o que permite ao espectador traçar um carácter e um perfil a cada uma das pessoas que se lhe deparam na tela. É evidente que assim a identificação com o filme torna-se mais fácil, conferindo-lhe mais substância e acima de tudo qualidade.
Fernando Valério |
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jmiguelcine@hotmail.com |
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Este filme de Isvtán Szabó tem uma coisa muito boa: humor. De facto, olhando para o filme no inicio, pensei que ia ser daqueles dramalhões “enrolados” na “art-direction” impecável e no guarda- roupa vistoso. Mas Szabó, julgo eu, terá pensado nisso e a verdade é que a montagem é tão rápida e corta as cenas tão depressa que, pelo menos, nunca nos deixa assistir placidamente aos “décors” ou a outros artefactos mais espampanantes (estamos num filme de época, é bom não esquecer). Pelo contrário: ao tornar as cenas curtas, com o mínimo de informação, Szabó deseja é “despachar” a história e não perder tempo a filmar aquilo que, para ser franco, apenas pode ter importância para o “background” se esse mesmo “background” tivesse papel fundamental na narrativa. Como não tem, o realizador poupa-nos dos “bonitinhos” e tenta ser concreto. Por outro lado, como as cenas são tão rápidas e acabam algures entre a anedota e o casual, o espectador vai-se rindo um pouco e começa a ter a ideia de que “suportar” o filme não será um grande problema. Isso é um ponto positivo.
No entanto, o cineasta, ao tentar tornar este filme em algo de leve, acaba por fazer coisas que, esteticamente, não sei se resultam. Utilizando “zooms” como substituição de “travellings” dá à textura formal do filme uma visão curiosa, se bem que, por vezes não resulte. A culpa não será do realizador. Porventura, a culpa é minha. Lá está, ao ficar habituado aos movimentos de câmara voluptuosos deste tipo de filmes, fiquei surpreendido por o realizador se afastar disso e tentar fornecer uma encenação que se aproxima, em certas cenas, do manuseamento de uma câmara de vídeo. Como se, quiçá, nos quisesse colocar, de uma forma imediata, quase reactiva, perante as personagens e as suas situações. A verdade é que não senti essa reacção, talvez por sentir sempre que o efeito do “zoom” é utilizado com base em enquadramentos, e suas respectivas escalas, que tem por base um academismo de encenação ao qual o cineasta tenta suprimir. Sim, a “velocidade” do nosso olhar está lá (no fundo, aquilo que o “zoom” faz) mas esbarra sempre na “mise-en-scène” dos actores e do espaço que é perfeitamente “normal”.
Por outro lado, nota-se que existe, neste filme, um sentido de épico que se desejaria transmitir. Na sequência final isso acontece, claro, muito por força da representação de Bening. Mas, em certos momentos do filme, isso também perpassa, se bem que os resultados sejam risíveis. A ideia de épico, para mim, é a noção de que o filme, em certos momentos, consegue ter uma “aura”, representada pela representação de um actor ou pela encenação de um plano ou pela utilização de música, que eleva o filme a um estado de grandeza, “arrastando” o espectador consigo. Aqui, também existe essa hipótese de cena, conjugada num plano geral de duas pessoas a beijarem-se, junto a um lago, rodeada entre duas árvores. Belíssimo. A música entoa, a câmara (colocada num barco) começa a fazer um “travelling” e, de repente, nota-se que o lago tem patinhos, daqueles que grasnam e, logicamente, acenam com a cabeça para cima e para baixo. Para além da distracção que fui obrigado a ter, os risos começaram a ser fortes e “aura”... Só aquela que nos faz voltar à sala de cinema, “saindo” do écran e voltando nós a ter uma posição exterior às personagens. Falhado momento este.
Uma palavra, claro, para Annette Bening. Tem uma representação fantástica, se bem que não tanto pelos movimentos histriónicos que enceta, como se esses fossem movimentos que bastassem “per si” . Mas por um motivo simples: leitura. Isto é, Bening dá, com os exageros dos risos, do corpo que não está quieto, quase aos saltinhos, das lágrimas que larga, reforçadas pelos gritos, uma leitura fantástica da personagem, deixando ao espectador tudo para este saber e também tudo para este ficar suspenso, deixando-nos cada vez mais tentados para ver mais e mais.
José Miguel Oliveira
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almeida_rita@sapo.pt |
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BEING JULIA
de István Szabó
Julia Lambert (Bening) é uma actriz de teatro em final de carreira na Londres dos anos 30, com um ego fútil, vaidoso e manipulador, constantemente alimentado pelos seus admiradores. A sua insatisfação pessoal e profissional é interrompida pelo aparecimento do jovem Tom (Evans) com quem inicia um romance turbulento. Michael (Irons) é, simultaneamente, o seu liberal marido e o seu conservador agente. Mas a vida de Julia encontra-se num ponto de viragem, onde vai ter de marcar uma posição ou para sempre ceder à nova geração o seu há muito conquistado estrelato.
Este filme levanta a interessante questão da representação como uma entrega total à arte, no ambicionado perfeccionismo para retratar sentimentos e emoções, e na dependência desse “fingimento” para viver a própria realidade. Julia é uma actriz tão perfeita que sabe as suas deixas de cor, repetindo de forma textual as mesmas frases em diversas situações a diferentes pessoas. Sabe que, para cada uma delas, ela tem um papel específico e faz questão de o representar.
A ausência de sentimentos “reais” na sua vida, tornam-na incapaz de viver os acontecimentos que se precipitam, a não se através daquilo que aprendeu, ou seja, a representação. Por isso, em milésimos de segundo é extravagantemente eufórica e tragicamente fatalista, indo da gargalhada à lágrima com uma desconcertante facilidade.
Quem se lembra de “American Beauty” (1999) de Sam Mendes, não se irá surpreender com o confirmado talento de Annette Bening, que tem aqui um desempenho magistral. A nomeação dos Golden Globe para Melhor Actriz de Musical ou Comédia vem apenas reforçar a previsão de que nem a Academy of Motion Picture Arts and Sciences poderá ficar indiferente à sedutora Julia.
O restante elenco completa-se com um discreto, mas sempre irrepreensível, Jeremy Irons, um delicioso Michael Gambon, dois refrescantes jovens, Evans e Punch, e uma subtil mas ácida Stevenson no papel da criada Evie, num dos melhores papéis secundários deste ano.
Baseado no livro “Theatre” (1937) de W. Somerset Maugham, e adaptado ao cinema por Ronald Harwood (premiado com um Oscar pelo argumento de “The Pianist” (2002) de Roman Polanski), o realizador húngaro oferece-nos um drama inteligente pontuado por um humor por vezes pérfido e pleno de finas nuances.
Quem ri por último, ri melhor.
Rita Almeida
http://cinerama.blogs.sapo.pt/
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