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Wanda
Título original: Wanda
Realização: Barbara Loden
Intérpretes: Barbara Loden, Michael Higgins, Dorothy Shupenes, Peter Shupenes, erome Thier, Marian Thier
EUA, 2004
Estreia: 19 de Agosto de 2004
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João Lopes | Média dos Espectadores |
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| Único filme realizado pela actriz Barbara Loden, esposa do realizador Elia Kazan, um retrato perturbador de uma mulher à deriva nos anos 70e que, realizado em 1970, estreia agora em Portugal. |
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João Lopes
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O texto seguinte foi publicado no Diário de Notícias a 19 de Agosto de 2004.
Desejo de realismo
Entre meados dos anos 60 e a reorganização dos grandes estúdios de Hollywood, ao longo da década de 70, o cinema americano viveu um período de fascinantes contradições. Por muitas razões, históricas, culturais e simbólicas, mas também por motivos especificamente económicos. Isto porque a concorrência com o rival cada vez mais poderoso (a televisão) veio valorizar muitas alternativas que já não tinham a ver com o fausto clássico das mais lendárias produções dos estúdios. Simplificando, podemos dizer que, desde o ambíguo realismo do cinema de John Cassavetes até à liberdade on the road de um filme como «Easy Rider» (1969), o cinema americano estava a (re)descobrir os trunfos de uma assumida austeridade material e expressiva.
«Wanda», uma produção de 1970, é uma expressão directa, e das mais modelares, desse estado de coisas. Que o filme apenas se estreie agora, em Portugal, eis o paradoxo (que, aliás, está longe de ser exclusivo do nosso país). Na verdade, este foi durante muito tempo um daqueles objectos "esquecidos" da história do cinema, recorrentemente citado como uma experiência fundamental na sua época e... invisível.
Além do mais, o filme funciona como testemunho histórico de um tempo de reconversão do próprio estatuto das mulheres, não apenas no interior do cinema mas, de um modo geral, na indústria do entertainment: Barbara Loden, realizadora, argumentista e actriz principal de «Wanda» é, obviamente, o núcleo irradiante desse processo de transformação das imagens e da iconografia feminina.
Nascida em 1932, Barbara Loden teve uma vida tragicamente breve, vindo a falecer em 1980, vítima de cancro. Começou por se distinguir como modelo. Depois de uma breve passagem pela Broadway, foi graças a Elia Kazan que se iniciou em cinema, interpretando papéis secundários em dois dos seus filmes: «Quando o Rio Se Enfurece» (1960) e «Esplendor na Relva» (1961). Seguir-se-ia a consagração nos palcos, integrada na companhia do Lincoln Center, então dirigida por Kazan. Com a sua composição em «Depois da Queda» (Arthur Miller), recebeu um prémio Tony.
Curiosamente, foi a realização de «Wanda» que, em definitivo, a libertou de qualquer dependência da sua imagem inicial de "mulher objecto" (Kazan, que com ela se casou em 1968, recorda esse processo em algumas belas páginas da sua autobiografia, «A Life», publicada em 1988). Para isso terá contribuído, de forma que não deixa de ser irónica, a própria personagem de Wanda, uma mulher à deriva depois do seu divórcio. Desleixada e sem vontade própria, o seu alheamento faz mesmo com que, logo a abrir o filme, o marido ganhe, em tribunal, a custódia dos filhos do casal.
«Wanda» é uma espécie de fantasma do modelo clássico de heroínas cinematográficas. E não apenas por que lhe falta qualquer componente de glamour. Simultaneamente, a sua imensa vulnerabilidade expõe o silêncio interior de um mundo (feminino) dominado pelos homens. E é desconcertante e, ao mesmo tempo, de uma estranha beleza que a personagem de Norman (Michael Higgins), que Wanda segue de forma quase canina, acabe por ser um modelo insólito de "herói": assaltante que vive de pequenos golpes, na sua monstruosidade afectiva e pequenez moral, ele é um incauto revelador da arrogância e do poder masculino.
Em última instância, na árvore genealógica do cinema americano, «Wanda» ficou como um ovni paradoxal: nele se exprime um desejo de realismo que, em boa verdade, nunca abandonou as mais diversas formas de produção, tanto de Hollywood como dos circuitos independentes. Daí que, passados mais de 30 anos, o trabalho de Barbara Loden esteja muito para lá de uma qualquer curiosidade de "museu": é a expressão viva de um cinema que nunca abdicou de interrogar a sociedade de onde emana. |
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@ http://resistenteexistencial.blogspot.com/ |
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Este filme é uma reposição e estreia entre nós. Original de 1971, foi realizado pela mulher do famoso realizador Elia kazan e completamente ignorado. "Wanda" é a história de uma mulher da working class que foge da sua vida desoladora, deixando para trás os filhos e o marido. Mais tarde, encontrará um bandido que lhe proporcionará algo para preencher a sua vida. Ao mesmo tempo heroína face à dura que enfrenta e outras vezes amoral e egoísta, Wanda é uma personagem enigmática, pouco apelativa, mas tenaz. É assim que conquista Mr. Davis e consegue escapar para uma outra vida, pelo menos até que...
"Wanda" é sobretudo uma experiência cinematográfica avant-la-letre. Basta dizer que é parecido com "Bufallo 66", o aclamado filme underground de Vincent Gallo, mas 20 anos anterior a este. Não é uma obra-prima. Sofre de limitações de orçamento (o filme terá sido executado por meia dúzia de pessoas) e nem sempre prima pela qualidade de direcção ou actuação dos personagens. Vale sobretudo para cinéfilos de linha dura interessados num pequeno e arrojando filme dos anos 70, em que a ambiguidade da protagonista e o olhar "moderno" da realizadora (na verdade são a mesma pessoa) são as grandes valias do filme.
Wanda, de Barbara Loden *** estrelitas (bom)
Nuno Pinho - http://resistenteexistencial.blogspot.com/ |
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Alfred_Hitchcock@hotmail.com |
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Vivem-se, hoje, tempos de grande efervescência política nos EUA. A propaganda atingiu proporções demenciais que abarcam desde a mais singela reivindicação ou contestação política até ao mais radical e pungente exercício de (auto-)retrato social. «Wanda» é um desses exercícios de cinema que se mostra mais pertinente do que nunca. O ano passado vislumbramos obras que, de forma ostensiva, colocavam em dúvida os alicerces da sociedade americana, há muito acossada por uma certa cegueira parcial, onde o «sonho americano» parece prevalecer sobre os mais catatónicos problemas morais e éticos pós-11 de Setembro.
Actualmente, vivemos um tempo em que a América começa a rever-se política e socialmente, o cinema é disso exemplo. No ano passado, os ultra aclamados «Mystic River» e «Elephant» punham «em cheque» os ideias que alimentam, em doses maciças e há tempo a mais, o ego Norte-Americano. «Mystic River», melodrama «revisionista» de Clint Eastwood com clara influência clássica, envolvia a américa profunda num ambiente crepuscular, onde as raízes americanas saiam destroçadas. «Elephant» de Gus Van Sant fazia de uma visita a uma escola Americana uma experiência atordoante e aterradora. Este tempo de introspecção está a revestir, agora, a forma de contestação politica- «Fahrenheit 9/11» e os , ainda por estrear, «The Manchurian Candidate» de Jonathan Demme e «She Hate Me» de Spike Lee são disso exemplos. Ou seja, e repito, Wanda acaba por ser um dos filmes mais oportunos a estrear nas salas. A questão é que Wanda é um filme de 1970 realizado por uma mulher, curiosamente ou não, a mulher de Elia Kazan, Barbara Loden. Venceu prémios em catadupa ( incluindo Veneza) e, desde aí, eclipsou-se...
Porque regressa agora «Wanda»? é uma pergunta que se deve impor, porque não há maior ovni na história do cinema. Wanda é o retrato da outra América, possivelmente, aquela que a América imperial e dona do mundo pretende camuflar- foi, ladeada pelos despojos da sociedade, que Wanda se transformou num cadaver ambulante, resignada ao fracasso e à morte.
Até certo ponto, «Wanda» surge, paradoxalmente, como um filme pioneiro que nunca ninguém viu, mas que atravessa , em surdina, todo o cinema dos anos 70. «Taxi Driver», «Alice já Não Mora Aqui» são dois exemplos máximos disso.
Loden chega a ser iconoclasta quando, num quarto decrépito e medonho, se vislumbra , num quadro, uma bandeira dos EUA tombada sobre a haste, morta e amorfa, como a personagem principal que dá nome ao filme. Não há plano que nos mostre uma réstia de esperança, uma oportunidade de redenção. Tudo aqui se encerra no mais atroz dos silêncios ( para que se perpetue, na nossa memória, a última imagem de Wanda).
Luís Mendonça, John-Parker. |
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