11’09’’01 – 11 Perspectivas

Realização: Claude Lelouch, Sean Penn, Danis Tanovic, Ken Loach, Alejandro González Iñárritu, Amos Gitai, Mira Nair, Shohei Imamura, Samira Makhmalbaf, Youssef Chahine, Idrissa Ouedraogo
Intérpretes: Ernest Borgnine, Keren Mor, Maryam Karimi, Emmanuelle Laborit, Nour El-Sherif, Dzana Pinjo, Lionel Zizréel Guire, Vladimir Vega, Tomorowo Taguchi
França, Grã-Bretanha, EUA, México, 2002
Estreia: 14 de Novembro de 2003


Eurico
de Barros
Média dos
Espectadores
   
 
 
Trata-se de um projecto de 11 Curtas sobre o 11 de Setembro por 11 realizadores que partilham as suas perspectivas muito particulares sobre o incidente que abalou o mundo. Cada cineasta teve 11 minutos, 9 segundos e um plano para reflectir sobre os atentados que atingiram Nova Iorque e Washington e mudaram o mundo há dois anos atrás.

O segmento de Ken Loach foi vencedor do Prémio de Melhor Curta-metragem no Festival de Veneza de 2002.


Eurico de Barros
O texto que se segue foi publicado no «Diário de Notícias» (14-11-2003), com o título `O 11 de Setembro íntimo e distanciado`.

Pensado para coincidir com o primeiro aniversário do 11 de Setembro, este filme de 11 realizadores de várias nacionalidades sobre a tragédia - cada um deles rodou um episódio com a duração de 11 minutos, nove segundos, e uma imagem - chega a Portugal atrasado e desgarrado da data comemorativa.

Entretanto, o Afeganistão dos talibãs sucumbiu às forças aliadas (aplausos), o Iraque foi invadido pelas mesmas (vaias) e o governo americano acabou por comprometer o capital de simpatia e de solidariedade que os EUA acumularam com o ataque terrorista ao World Trade Center.

O que mais impressiona em «11`09``01- Perspectivas» é que, dos 11 realizadores, dez adoptam uma perspectiva intimista - Claude Lelouch, por exemplo, filmou a separação de um casal novaiorquino no dia da tragédia, dizendo que o fim do amor pode equivaler ao fim do mundo - ou um ângulo paroquial - como o 11 de Setembro afectou o seu país, a sua gente, os seus humores. Assim fazem, com resultados muito diversos, e entre outros, Samira Makhmalbaf, Idrissa Ouedraogo, Youssef Chahine ou Mira Nair.

Só Alejandro González Iñarritu recorda explicitamente o horror do atentado e as vítimas. Por isto, e por usar de forma avassaladora, as imagens e os sons do dia 11 de Setembro, o seu episódio é o melhor. No pólo oposto, Ken Loach dá lustro ao antiamericanismo burgesso e desfralda a bandeira do antifascismo remendão, qual siamês britânico de Michael Moore. É o episódio mais lamentável de um filme excessivamente descentrado do seu tema.


Luciana Manoel
Tive a oportunidade de assistir o curta, no segundo semestre de minha graduação e particularmente achei muito bom.


manuelanastacio@sapo.pt
"Ensaios sobre a cegueira"

Lembrei-me de Baptista Bastos a perguntar aos seus convidados de um programa de televisão: “Onde é que você estava no 25 de Abril?”… O caso foi anedota mas… num outro reverso, quem de nós não contou já em que circunstâncias recebeu a notícia de uma Nova Iorque coroada de martírio e caliça? Onde estávamos nós? A maioria correu para uma televisão. Era como se o homem voltasse a descer de novo pela primeira vez na lua. Verdade seja dita: havia clima de festa mesmo nas lágrimas e no horror. Uma orgia de imagens, de sons, comentários… Lembro-me de ouvir o Miguel Sousa Tavares a dizer: “muito se escreverá sobre este dia… muitos filmes serão feitos…”. Pensei o mesmo. Ainda não estamos no tempo certo para fazer render um filme tipo “Titanic” ou “Pearl Harbour”. Nem creio que o tempo torne as coisas mais objectivas neste caso. Antes pelo contrário. O tempo irá mitificar aquilo que queria ser apenas um acto panfletário (à custa de um dos horrores mais cruciantes alguma vez tornados públicos de forma tão violenta graças à televisão e ao VHS dos turistas que passeavam em Manhathan) e nisso foi tornado. Não há um código deontológico para estas coisas (por isso mesmo até os embaixadores, gente tão diplomática, se atiram raivosos, hoje em dia, a objectos que apenas são arte, compreenda-se no contexto artístico actual, porque se questionam enquanto tal – há quem não perceba isso ou não queira perceber mas, a verdade, é que arte éngagé não deveria – digo eu, mas quem sou eu? – ser decorativa. O panfleto é em si mesmo belo ou aterrador pela verdade (há sempre uma verdade em qualquer panfleto). Não precisa de estética material. A própria ética dá-lhe a sua beleza. Quando vemos um filme cheio de imagens horrorosas… Lembro-me, por exemplo, do “Kanal” de Andrzej Wajda (poderiam ser outros…) … Se essas imagens trazem consigo podridão mas, ainda assim, nos comovem, não é pelo artifício mas pela verdade implícita. É nesse contexto que percebo o que levou Stockhausen a afirmar que a destruição das Torres Gémeas foi a maior obra de arte alguma vez produzida, digna de ser levada à Bienal de Veneza… Apesar de errar numa coisa: a Bienal de Veneza é que não seria digna de tal obra de arte. Arte Satânica? Talvez algo pior que isso, é verdade, mas que nos comoveu e fez mexer o pior que há de nós em querermos vasculhar na dor, em ouvir de novo os últimos telefonemas das vítimas (como no mais gabado dos segmentos do filme do Mexicano Iñárritu). Sendo sinceros: só não viu o acontecimento como uma obra de arte quem o viveu… Ou, daí, talvez seja nessas alturas em que o desespero nos leva ao mais sincero apelo à poesia. Talvez num último acto poético queiramos alcançar o Paraíso. Talvez um telefonema, talvez um salto para o último raio de luz. A beleza é infinitamente estranha. E consegue ser infinitamente dolorosa. Sem dor, duvido que soubéssemos o que é a beleza. Talvez infelizmente. Não sei.
Sei que há alturas em que criticar parece ser um exercício mórbido.
É por isso que elejo o filme de Sean Penn exactamente pela sua perigosa ambiguidade. Como o velho Borgnine diz para o espaço vazio onde deveria estar a sua amada: devias ter visto isto. Todos devíamos ver tudo. A tragédia é que a luz nos falta.
E estes filmes, irregulares, são sempre exercícios sobre a luz. Ensaios sobre a cegueira. Nunca conseguiriam ser grandes obras de arte porque morrem ofuscados pelo tema que elegeram: como diria Stockhausen (perversamente? Creio que não), por uma obra de arte infinitamente maior para a qual nunca haverá aplausos (que os houve) nem lágrimas (que as há ainda) que façam redimir um mundo onde a arte deixou de ser ficção.

Manuel Anastácio
http://literaturas.blogs.sapo.pt


maur.rodrigues@netcabo.pt
Apesar de alguns desiquilibrios - que prejudicam, de certa forma, estruturalmente o projecto no seu todo - esta visão livre dos acontecimentos do 11 de Setembro acaba por ser um excelente exemplo de como várias perspectivas nem sempre confluem ao mesmo nível. Sean Penn e o mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu (Amores Perros) assinam os melhores excertos. Os restantes limitam-se a construir histórias, mais ou menos, interessantes e intimistas, á volta da tragédia. Mesmo assim um documento significativo para a compreensão dos acontecimentos.
"somos guiados pela luz de Deus ou é ela que nos cega?"


davidmariano@gmx.net
“11’ 09” 01”, ou seja, as onze perspectivas de outros tantos realizadores sobre o impacto e efeitos do 11 de Setembro, é um exercício livre e reivindicativo da expressão das diferentes visões do trágico acontecimento nas várias, e correspondentes a cada cineasta, partes do mundo. E sem grandes rasgos criativos ou uma notória profundidade artística, salvo raras excepções, consegue constituir-se, através da diversidade e antagonismo dos seus olhares, como um interessante objecto de reflexão. A Alan Brigand se deve pelo, menos, a universalidade (e porque não o mérito) dessa proposta que acabaria por convencer uma variada “equipa de futebol” de consagrados (uns mais que outros) representando a simbólica selecção não apenas do Resto, mas de todo o Mundo. Já que o adversário, esse, revisto na face invisível do terrorismo, da intolerância, da miséria, do fundamentalismo, da amargura, do imperialismo, da cegueira, da loucura, vai desenhando-se conforme o espírito e a acção de cada curta, completando o inevitável dogma dos onze minutos, nove segundos e uma imagem exigidos.

Do conjunto, o egípcio Chahine é o que arranca a pior exibição, manifestamente confuso e perdido entre o retrato pessoal “á la Moretti” e o discurso demagogo, básico e superficial de rebate à herança e hegemonia militares dos Estados Unidos desde o final da Segunda Grande Guerra; a exemplo, posteriormente, dos muitos conflitos sob o gatilho e lista de interesses do Tio Sam. Consegue o milagre à beira-mar da invocação de fantasmas e ainda tem tempo para saudar-nos com pesquisas de Internet, jamais atingindo o crédito e a integridade de uma mensagem vã e redundante.
Ouedraogo, apesar da comédia e ironia, pouco melhora em relação ao companheiro de continente, mostrando um grupo de miúdos que descobre Bin Laden ao virar da esquina e a partir daí conspiram a sua captura, aspirando pois à incontável recompensa capaz de remediar os problemas de uma África a contas com pragas, fome e pobreza. A merecer-nos, contudo, o elogio de um sorriso.
Gitai é o israelita de serviço que escolhe num inteiro plano-sequência o “a posteriori” de um atentado nas ruas de Jerusalém no exacto instante em que as torres em Nova Iorque são atingidas. Prende-se numa repórter tentando a todo o custo entrar em directo para a televisão e acaba por fazê-la oscilar entre a crítica mediática e o suplício diário dos suicidas; jogo de legitimidades entre a tragédia israelita e nova-iorquina onde nem o seu episódio sai a ganhar.
Menos comprometedores são os filmes de Lelouch, Tanovic, Loach, Penn ou Nair, protagonizando desempenhos, apesar de todos os antagonismos, bem mais equilibrados e contidos.
O francês, por exemplo, acusa a coincidência da separação de um casal de amantes em Nova-Iorque através do mundo do silêncio e surdez da personagem feminina, cuja deficiência a impede de ouvir os acontecimentos. A dada altura escreve; “a América não foi feita para os surdos, apenas para os vencedores, para os largos arranha-céus que rasgam o céu”, como se o amor e os sentimentos não tivessem igualmente sido feitos para ela.
Quanto ao Bósnio, trata de relembrar as vítimas e o massacre de Srebrenica pelo testemunho anual dos vivos que ficaram para relembrar a dor e os mortos, activando a nota de consciência dos que a ela ficaram a assistir indolentemente (Estados Unidos à cabeça), mas incluindo-os na homenagem à data do drama.
O proletário e britânico Loach torna a alinhar no corredor da “esquerda”, optando por ilustrar a correspondência epistolar de um chileno ao seu 11 de Setembro, quando Allende seria derrubado pelas movimentações e estratégias de um Pinochet alimentado pela CIA, em relato ao mesmo tempo acusador e comungável, mas sempre bastante pertinente.
A Sean Penn caberia o lado mais esperado de todas as perspectivas, o de um norte-americano, elegendo o saudoso e enviuvado Ernest Borgnine para, numa fotografia e montagem exemplares, mostrar-nos o peso da solidão e das torres no seu triste quotidiano. Contraditóriamente, a queda destas iluminará esse destino tanto como devolvê-lo à vida no signo de ressurreição de um vaso de flores.
A indiana Nair vai buscar um caso verídico e trata de recuperar a história de uma vítima paquistanesa nos escombros do World Trade Center, inicialmente confundida como terrorista e que depois viria a ser descoberto ter agido como um herói. Ou a prova factual de como as distâncias entre a intolerância religiosa, os ressentimentos e o ódio encurtariam para a comunidade islâmica no território americano.

Para último, ficam sem dúvida os melhores, destacando-se claramente Iñárritu que no despojar da tela, vai aumentando o volume de cânticos de índios de Chiapas em conssonância com flashes de imagens televisivas próximas dos que se atiravam pelas janelas ou as despedidas e mensagens de amor gravadas nos telefones nesses instantes. É um registo forte, tenso e comovente onde a música do “Kronos Quartet” trata de sublinhar a ascensão divina da luz etérea sobre a sugestão do espectador. De todos, o mais genial.
À iraniana Makhmalbaf cabe-lhe o quadro realista de um dia de aulas para várias crianças afegãs refugiadas, a quem a professora primária trata de tentar explicar o evento terrível desse dia. Escolhendo como metáfora aos aranha-céus que nunca viram, a mesma chaminé alta onde trabalham a fabricar tijolos. Mas pondo igualmente nas suas vozes juvenis a discussão inocente das escolhas de um Deus pouco misericordioso com os homens.
Imamura, o japonês que parece desviar-se mais do tema sem aludir directamente aos acontecimentos, serve-se de uma parábola em jeito de lenda para assinalar os horrores da guerra num antigo soldado que dela regressa a julgar-se uma cobra. E é um dos casos mais singulares e apaziguadores que termina em beleza a longa sequência.

“11’09’’01” vale por isso; pela pluralidade de opiniões, pelo intimismo que muitas vezes abraça, pela crítica e oposição, no fundo, a uma tragédia que não é unicamente norte-americana, ou que antes vivia anunciada no seu próprio protagonismo histórico, surgindo aqui assinalado em prejuízo de muitas outras nações e comunidades. De facto, a maioria das suas visões políticas acabam por ser a face mais notória e controversa, pondo em causa algum do conteúdo estético que se poderia inaugurar. Embora aqui não se esperasse outra coisa. É que esse é um valor expressivo que, sem a dose ideal é certo, conseguiu, apesar de tudo, não submergir a qualidade de alguns olhares. E repito; vale por isso.

David Mariano


TIAGO PIMENTEL
Não é fácil olhar para um objecto tão fragmentado quanto este (quanto mais não seja pela diversidade de cineastas e culturas que nele habitam) e conseguir uma sensação final claramente definível. Até porque se há coisas muito boas lá dentro, há também episódios perfeitamente sensaborões e outros até obscenamente maus. O episódio mexicano (Iñárritu) é o único que lida directamente com as imagens do 11 de Setembro... sem as mostrar. Em boa verdade, Iñárritu recupera as imagens trágicas que todos conheceram e deixa apenas o som, obrigando o espectador a reviver essas imagens na sua memória. É, quanto a mim, o episódio mais forte, tanto mais que parte de um dispositivo audiovisual perfeitamente televisivo, negando-o logo de seguida, num paradoxo de sensações e emoções absolutamente angustiante.

Gosto muito do episódio israelita (Amos Gitai), pela forma como partindo de uma reportagem televisiva que dava conta de um acto terrorista em Israel, conseguia ao mesmo tempo passar naquele espaço um outro evento que ocorria do outro lado do mundo. Subitamente todo o espaço fica unido e deixam de existir fronteiras para a informação. Depois tenho um carinho especial pelo episódio da Makhmalbaf (Irão) e da perspectiva inocente, mas nunca ingénua, como lida com o fenómeno isoladamente. É um dos poucos segmentos que pensa apenas sobre o espaço que foi destruído e as pessoas que morreram. Nesse sentido é um filme sem um dimensão política evidente mas de uma compaixão humana avassaladora. Gosto também bastante do episódio francês (Lelouch), sobretudo porque, deixando a tragédia do 11 de Setembro para pano de fundo, consegue reproduzi-la de uma forma ainda mais fantasmática na extinção do amor entre dois corpos novaiorquinos. E o fim do amor representa sempre o fim de algo.

Pelo lado negativo, está a abominável carcaça política mais simplista e maniqueísta de todos os episódios: o segmento de Ken Loach (Reino Unido). Já são conhecidos os ideais radicais de Loach mas o seu segmento é menos um documentário e mais um comício político de um pedantismo tal que até a personagem principal parece estar a discursar para os simpatizantes de um partido de esquerda. Atenção que já nem se põe em causa concordarmos ou não com os seus ideais políticos, até porque um filme pode ser sempre um grande objecto político. Mas nunca se consegue essa dimensão à custa da alienação do espaço das personagens, convertendo essa dimensão numa espécie de tempo de antena onde Loach promove o seu discurso moralista, pedante e simplista. O episódio egípcio (Youssef Chahine) pertence ao mesmo espaço do segmento de Loach, com uma agravante: coloca em campo duas personagens e dá voz apenas ao militante anti-americano como se fosse uma simulação manipuladora e enviesada de um debate televisivo. Já o episódio de Sean Penn me parece mais híbrido embora tenha muitas dúvidas relativamente ao final e à forma como ele gere a queda das torres; o aparecimento do sol, nomeadamente, parece-me um elemento demasiado simplista e até perigoso para desmistificar uma certa ilusão americana, como que a sugerir, ainda que inconscientemente, o lado positivo da queda das torres. Como se vivessem na sombra ou numa escuridão que os impedisse de ver e fossem agora finalmente iluminados. Enfim, a revelação da morte da sua mulher pode emprestar alguma ambiguidade humana ao episódio mas tenho muitas dúvidas em relação à gestão de ideias e à própria perversidade que, a meu ver, desvirtualiza aquele segmento.

No fundo, é um filme desequilibrado, com coisas muito boas, outras muito más e muita paisagem. Um filme também algo distante do seu tema e bastante irritante com alguns discursos políticos militantes ou apenas moralistas, no mais redutor sentido da palavra.

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Tiago Pimentel
Wallace_ (IRC)
tiago_pimentel@hotmail.com
www.vivercontraotempo.blogspot.com


migmachado@portugalmail.com
Com mais de um ano de atraso chega finalmente às salas portuguesas “11’09’’01”. Trata-se de um filme, ou melhor da agregação de 11 longas metragens, cada uma com a duração de onze minutos nove segundos e um fotograma, que nos apresenta diferentes sensibilidades e formas de vêr e analisar os acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Não sendo um filme-homenagem, trata-se sobretudo (e ao mesmo tempo mais valia) de 11 propostas para pensarmos e analisarmos aqueles trágicos acontecimentos. Propostas essas vindas dos quatro cantos do Globo apresentadas por conhecidos realizadores.
Logicamente existiram curtas-metragens a meu vêr mais conseguidas do que outras. Destacaria fundamentalmente quatro: a de Samira Makhmalbaf (Irão) e o retrato da incapacidade do povo árabe em discernir da magnitude dos acontecimentos dada a sociedade subdesenvolvida e escassamente informada em que vivem e onde os problemas que realmente enfrentam são os seus verdadeiros 11 de Setembro.
Belíssimo o segmento realizado pelo francês Claude Lelouch que nos mostra um casal, ele guia turístico de surdos, ela própria surda, em plena Nova Iorque da manhã do atentado em plena crise relacional à beira da ruptura em que a verdadeira surdez não é muitas vezes a simples falta de palavras mas de actos.
Destaco ainda a curta de Mira Nair (Índia) e o clima de histeria e intolerância relativamente ao facto de se ser árabe na Nova Iorque pós-atentado. Uma mãe desesperada pelo desaparecimento do seu filho árabe o qual é acusado de cumplicidade nos atentados. O caminho curto entre ser-se vilão e herói e o que as descriminações podem ter de deturpação e cegueira da realidade no “melting pot” que se afirma menos perfeito que aquilo que é dito.
Momento alto é também a realização de Sean Penn que nos conta a história de um idoso viúvo e só e como a morte e vida são um ciclo constante em que a dor é omnipresente.
Relativa desilusão para as partes de Youssef Chahine, Amos Gitai (num único plano-sequência de um atentado em Israel no próprio 11 de Setembro, mas que falha pelo histerismo demasiado da situação e por uma certa aura cómica dadas as péssimas interpretações) e Ken Loach.
No entanto o sentimento que fica é que a valia do filme é superior à qualidade individualmente considerada das curtas-metragens apresentadas constituindo uma excelente proposta de reflexão sobre as principais questões pós-11 de Setembro vistas aos olhos da enorme diversidade cultural que constitui o mosaico que é o Mundo.

Miguel Machado


the_everl@hotmail.com
A distinção essencial para este caso tem que ser feita entre a ideia e a forma como ela é executada. Ou seja, a ideia de reunir onze realizadores das mais variadas nacionalidades para cada um dar a sua visão do atentado terrorista do 11 de Setembro vem a abaixo após o visionamento das curtas elaboradas. Há bons segmentos como são os casos da francesa, americana, indiana e a do Burkina Fasso. Mas os outros são desinteressantes e têm, em alguns casos, uma carga excessivamente propagandística (não é esta carga, por si só que nos afasta mas sim a sua construção). Destaque negativo para o segmento mexicano, de Iñarritu, completamente despropositado na violência das imagens reais do 11 de Setembro - exploração fácil do espectador. Apesar de tudo, é uma obra a ser repensada.

Dispensável

Daniel Pereira


   
“Quando fez o seu primeiro
documentário de «guerrilha», «Roger e Eu», (1989), onde persegue o então presidente da General Motors por causa do fecho de uma fábrica na sua cidade natal de Flint, no Michigan, Michael Moore era um cineasta desconhecido e sem cheta. Em 2002, Moore fez «Bowling for Columbine», e embora já seja milionário, continua a fingir que é ainda o proletário de boné e ténis, defensor dos «pequenos» e flagelo dos «poderosos». De demagogo esquerdista teso, Michael Moore passou a demagogo esquerdista endinheirado.”

“Enquanto realizador, Moore continua igual ao que era: o homem dos `apanhados` políticos toscos e populistas. que em vez dos cidadãos incautos persegue os vilões (todos de direita, claro) para os caçar desprevenidos a prevaricar ou oprimir.”

“Só Alejandro González Iñarritu recorda explicitamente o horror do atentado e as vítimas. Por isto, e por usar de forma avassaladora, as imagens e os sons do dia 11 de Setembro, o seu episódio é o melhor. No pólo oposto, Ken Loach dá lustro ao antiamericanismo burgesso e desfralda a bandeira do antifascismo remendão, qual siamês britânico de Michael Moore. É o episódio mais lamentável de um filme excessivamente descentrado do seu tema.”


Quer-me parecer que, na opinião de Eurico de Barros, tudo o que tenha a ver com ideologia esquerdista não merece ser alvo de reflexão. Digo isto baseando-me nas críticas que fez a Bowling for Columbine, de Michael Moore, que revi a propósito de Elephant, de Gus Van Sant. Agora constato o mesmo ao ler a crítica a 11´09´´01 – 11 perspectivas. E pergunto-me se um crítico de cinema tem como função defender ideais e posições políticas ou se, pura e simplesmente, deve analisar um filme por aquilo que ele é. É que por muito que tente, não entendo o porquê de tanta repulsa em relação à visão de Michael Moore (e não vi Bowling for Columbine) e Ken Loach neste documentário sobre o 11 de Setembro.
Pois bem caro Eurico. Mesmo não sendo isso o importante, posso desde já dizer que não sou de esquerda, o que não quer dizer com isto que as opiniões de pessoas politicamente distintas não me interessem e me sejam úteis. O segmento de Ken Loach, mais do que um “antiamericanismo burgesso”, é uma farpa as todos os que utilizam o belicismo como forma de atingir os seus fins. O que os EUA fizeram no Chile não tem desculpa, assim como o ataque do 11 de Setembro ao World Trade Center. Isto porque a força não é a melhor maneira de resolver as questões. Estes dois trágicos acontecimentos têm algo em comum: tiraram a vida a milhares de inocentes. Aliás, analisando o segmento de Ken Loach com atenção, sem estar a pensar se ele será de esquerda ou não, a personagem Pablo funciona como uma espécie de mediador em relação às duas atrocidades, não atirando deliberadamente as culpas aos EUA por tudo o que de mau acontece, mas antes dando exemplos de que actos bárbaros como o que os EUA cometeram contra o Chile em 1973, e o ataque às Twin Towers, ambos ligados por uma mesma data (11 de setembro) não é a solução para os problemas.
Também não percebi muito bem a expressão “antifascismo remendão”. Será que, caro Eurico, os regimes fascistas são bons exemplos, ao contrário dos comunistas? Será que o Chile, como Ken Loach nos mostra, não estaria melhor com um governo, ainda que comunista, do que com um golpe de estado para colocar no poder um ditador de extrema direita como Pinochet?
Caro Eurico, tenho imenso respeito por si e pelo seu trabalho, mas quer-me parecer que este género de crítica política maniqueísta não o favorece em nada, e muito menos acrescenta algo de útil às críticas que escreve.
Em todo o mundo existem valores e talentos, sejam eles de esquerda ou de direita. E no que toca a arte, como o cinema, esses preconceitos devem ser postos de parte para que não influenciem e desvirtuem a mensagem que pretendemos passar.

Cumprimentos


P.S. Aproveito para perguntar o porquê de não terem afixado o meu comentário a 11´09´´01, visto já o ter escrito na madrugada de sexta-feira. Acho que o enviei correctamente, mas se for esse o caso, por favor digam-me para que o torne a enviar.


Luis Mesquita
15.11.03
luismiguelmoura@netcabo.pt


Luis Mesquita
"A universalidade do cinema"


11´09´´01 é um objecto cinematográfico intenso e chocante. Leva-nos a pensar no rumo que o nosso mundo está a tomar e na maneira como resolvemos os problemas, sem qualquer sentido de compaixão e racionalidade.
É também uma óptima maneira de promover, se assim lhe posso chamar, a unificação das mais distintas culturas através de uma linguagem universal - O cinema, ou se quiserem, a imagem e toda a força que a mesma possui.
11 realizadores de vários cantos do mundo dão a sua visão muito particular e subjectiva sobre o fatídico dia em que os Estados Unidos sofreram a mais rude e humilhante derrota infligida por um inimigo. O bárbaro ataque ao World Trade Center provocou um efeito devastador a um país que se julgava invencível e nunca, por um instante, se apercebeu de que poderia ser um alvo tão fácil e desprotegido como qualquer um país invadido pelas forças norte-americanas. Mais do que uma retaliação, o 11 de Setembro serviu para despertar consciências adormecidas e perdidas na sua própria grandeza, e serviu também para mostrar como até os "grandes" se podem deixar vencer pelo mais “sofisticadamente simples” adversário.
Enquanto documentário, 11´09´´01 é riquíssimo pela diversidade e disparidade de visões e versões mostradas. Desde a dura e crua realidade Iraniana, passando pelo inferno do médio-oriente retratado no quotidiano Israelita, até à visão política nada abonatória para os E.U.A. de Ken Loach. Este último porventura o melhor e mais forte segmento de todos.
Vale a pena comparar a mensagem de cada uma das curtas-metragens, e perceber de que modo o 11 de Setembro afectou a realidade de cada um dos povos retratados no documentário.
O grande trunfo deste projecto reside porventura na mensagem que pretende passar.Não se pretende atribuir as culpas a ninguém em particular, mas sim a todos no geral. Porque se um lado errou, o outro também. A culpa do actual estado das coisas não reside apenas num só ponto geográfico, mas sim em vários espalhados pelo extenso mapa-mundo.


P.S. É lamentável e profundamente revoltante ver a quantidade de pessoas que se retiraram da sala antes do documentário terminar. Não consigo perceber o que leva algumas pessoas ao cinema. E muito menos consigo perceber como é que alguém pode ser tão indiferente quando falamos de um tema tão difícil e complexo. Será que as pessoas concorrem a ante-estreias por concorrer, sem sequer saber que tema é que o filme aborda? Será que não aguentam ver um filme que não tenha explosões e tiros nos primeiros 30 segundos? Ou será que a força dos sentimentos humanos (leia-se realidade) e o desenterrar dos problemas que nos afectam a todos é demasiado complexo e indiferente para certas pessoas? Os males não atingem só os outros. Os problemas bélicos e do terrorismo não se passam apenas nos E.U.A e no médio-oriente. Hoje são eles, amanhã poderemos ser nós. É por isso que interessa percebermos o porquê para que possamos ser capazes de não cometer os erros do passado.


Luis Mesquita
14.11.03
luismiguelmoura@netcabo.pt


     
 

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