É Mais Fácil Um Camelo...

Realizadora: Valeria Bruni Tedeschi
Intérpretes: Valeria Bruni Tedeschi, Chiara Mastroianni, Jean-Hugues Anglade, Denis Podalydès, Lambert Wilson
França, 2003
Estreia: 18 de Julho de 2003


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
 
* Site oficial português: http://www.atalantafilmes.pt/2003/emaisfacilumcamelo

*****

Federica é rica...muito rica... demasiado rica...

E este privilégio aprisiona-a e impede-a de viver a sua vida de adulta, de assumir as suas escolhas no quotidiano: as tentativas do namorado que quer criar uma família, o reencontro inesperado com um antigo amante, os conflitos com a família desconectada da realidade e destabilizada pela morte anunciada do pai. Oprimida pela futura herança, pelas relações confusas com o(s) que a rodeia(m) e pelo peso de uma culpabilidade lancinante, Federica encontra consolo no imaginário: nos seus sonhos acordada em que a realidade se torna perfeita e maravilhosa.


Eurico de Barros
Este texto foi publicado no «Diário de Notícias», de 18 de Julho de 2003, com o título `Tirem-me esta fortuna da frente`.

Topol cantava «If I were a rich man» em «Um Violino no Telhado», pondo a personagem do camponês Tevye a enumerar todos os prazeres da vida de que poderia desfrutar se fosse rico. Federica (Valeria Bruni Tedeschi), a personagem principal de «É Mais Fácil Um Camelo...», é a anti-Tevye. Ela é rica, «muito, muito rica», nas suas próprias palavras, e detesta sê-lo. Federica carrega a sua riqueza como um pecado mortal. Em vez de recorrer a um psiquiatra, como a sua neurótica e gananciosa irmã Bianca (Chiara Mastroianni), vai quase diariamente sarrazinar um jovem padre que já não pode ver à frente a complexadíssima «pobre menina rica». O dinheiro não faz girar o mundo de Federica: emperra-o.

Dizia o outro que o dinheiro não dá a felicidade, mas ajuda muito. Para Federica, e ao contrário dos dois irmãos, o dinheiro só desajuda. É um fardo, um peso na consciência, uma fonte de culpa em jorro contínuo. Nascida em berço de ouro, deram-lhe tudo quando era criança e adolescente. Agora, adulta, não consegue nada para si própria. Maturidade, estabilidade, amor, um lar, marido, filhos, uma carreira, tudo lhe foge. Federica é o camelo do título e o reino dos céus a vida «normal» por onde não consegue caber. A culpa será mesmo dos milhões que ela tem no banco, ou serão eles o álibi invocado por Federica por ser um falhanço no dia-a-dia?

«É Mais Fácil Um Camelo...» é a primeira longa-metragem realizada por Valeria Bruni Tedeschi, que ultrapassa desde logo o obstáculo das nossas reticências ao sofrimento endinheirado da personagem, ao torná-la verosímil, não a fazendo nem muito simpática nem excessivamente torturada - antes um nada cómica, por vezes irritante de pedir um par de estalos. Sentimos que se fosse pobre, Federica seria igualzinha ao que é na riqueza e faria da falta de dinheiro a origem de todos os seus males. Depois, Tedeschi não está interessada em erguer um filme de «tese» sobre o dinheiro, assinar um libelo político anti-ricos ou bordar um conto moral. Ela quer fazer o retrato de uma mulher complicada e imatura e da sua família privilegiada, da qual tenta ser o contraponto mas é também uma consequência.

Muito autobiográfico, ao ponto da mãe de Tedeschi fazer de mãe de Federica e de certas referências só poderem ser captadas pelo círculo familiar e íntimo da cineasta e actriz, «É Mais Fácil Um Camelo...» contém hesitações e imperfeições de primeiro filme (o desenho animado era mesmo necessário, por exemplo?). Sendo também que pretende reproduzir a confusão e o atarantamento de Federica, interpretada por Valeria Bruni Tedeschi algures entre o auto-retrato confessional e a composição ficcional, sem mendigar a nossa piedade para ela e correndo mesmo o risco de a tornar insuportável. Tedeschi exige ao seu elenco tudo o que exige de si mesma, pelo que «É Mais Fácil Um Camelo...» não sofre do complexo de exibição ou da autocondescendência que por vezes afectam outros filmes assinados por actores. Valeria Bruni Tedeschi conseguiu meter o seu camelo cinematográfico pelo buraco da agulha do nosso gosto.


João Lopes
Vale a pena sublinhar uma feliz coincidência: em paralelo com o lançamento do belíssimo álbum de estreia de Carla Bruni (...), surge nas salas este «É Mais Fácil um Camelo...», primeira realização da sua irmã Valeria Bruni Tedeschi. Em ambos os casos, as tensões da vida afectiva estão em cena. O filme, provavelmente fazendo apelo a algumas reminiscências autobiográficas (embora a questão não seja pertinente para a sua leitura), traça as convulsões da vida de uma família muito rica, no interior da qual duas irmãs se relacionam de modo bem diverso com os pais e até com as memórias da infância. É um dispositivo melodramático clássico a que a realizadora acrescenta uma perturbante componente moral: a de uma culpa devoradora que afecta a relação das personagens com a sua própria riqueza. O que mais impressiona no trabalho de Valeria Bruni Tedeschi (também co-autora do argumento e uma das intérpretes principais) é o desencantado rigor com que aborda a teia afectiva que coloca em cena, emprestando ao seu filme um brilho dramático e uma subtileza psicológica francamente invulgares. Os actores são todos extraordinários, incluindo Chiara Mastroianni, compondo a outra irmã, e Lambert Wilson, admirável na personagem do filho errante que regressa a casa por causa da doença do pai. Em resumo, depois de a termos admirado como actriz em títulos como «A Casa», de Sharunas Bartas, ou «Quem Me Amar Irá de Comboio», de Patrice Chéreau, Valeria Bruni Tedeschi afirma-se como uma voz originalíssima da actual produção francesa.

(comentário publicado na edição de 19-07-2003 do «DNmais»)


the_everl@hotmail.com
É o primeiro, e até agora único, filme de Valeria Bruni Tedeschi que conhecemos como actriz. É caso para dizer que as referidas motivações pessoais para fazer um filme, de certa forma, auto-biográfico têm o seu quê de verdade.

Em “Il est Plus Facile Pour un Chameau…” a realizadora interpreta o papel (principal) de uma mulher riquíssima que sente uma culpa tremenda por sê-lo. Aliás, toda a sua família, pai, mãe, irmã e irmão, tem a sua personalidade marcada, de uma forma ou de outra, pela sua condição económica.

O melhor do filme é o seu trabalho sobre as relações entre os vários membros desta família, trabalhando as suas fraquezas emocionais e criando, assim, uma certa tensão sempre que estão juntos. O filme opta também por uma narrativa descontínua de forma a mostrar a família há sensivelmente 20 anos atrás; compreendem-se melhor certos motivos e origens das personagens.

O filme peca por ser um pouco repetitivo e, consequentemente, vai deixando de interessar. Falta, com certeza, mais experiência a Tedeschi enquanto realizadora que, porém, mostra talento enquanto argumentista. Queremos ver novo filme escrito e realizado por ela. Até lá ficamos com o que temos e vimos neste filme: uma grande actriz.

A ver

Daniel Pereira
23-07-05
www.escrevercinema.blogspot.com


   
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CINEMA2000


anadavid@clix.pt
Filme assumidamente confessional e autobiográfico, “É Mais Fácil Um Camelo...” enreda-se um pouco na teia restrita da sua autora, embora seduzindo q.b.
A história é contada com frescura e o humor domina o tom das temáticas mais sérias. Contra si tem o facto de pretender (ou pelo menos parecer) ser mais um exorcismo pessoal do que uma mensagem com pertinência filosófica e/ou cinematográfica.

Jorge Silva


Alfred_Hitchcock@Hotmail.com
Mais uma coisa:

«belíssimo álbum de estreia de Carla Bruni»

Concordo em absoluto.


jpmachado44@hotmail.com
Pelos vistos, vem no Evangelho:
“É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.”
É esta convicção que atormenta Federica, uma trintona rica, muito rica, incalculavelmente rica (“um poço sem fundo”, como ela diz em determinado momento), cuja vida sempre foi demasiado fácil; ela e os irmãos nunca precisaram de lutar por nada, nunca precisaram sequer de trabalhar. E se o irmão Aurelio parece conviver bem com essa realidade, viajando pelo Mundo, e se a irmã Bianca vai aprendendo a lidar com essa situação através das sessões de Psicanálise, Federica, por um lado, sente uma culpa enorme por ter tanto dinheiro (ainda por cima, tem um namorado de esquerda, que é agora professor de História, mas que teve um percurso de vida marcado por muitas dificuldades financeiras) e, por outro lado, a sua condição não lhe deu instrumentos para se tornar autónoma, não alcançou a maturidade emocional; pela primeira vez na vida, tem que tomar decisões e sente-se perdida. Procura um padre para a apaziguar e para lhe dar orientação.
Pela minha descrição, poderá não parecer, mas “É Mais Fácil um Camelo...” é uma comédia, dramática é certo, mas também super-leve (os parêntesis oníricos, animados e os flash-backs são muito engraçados e as cenas nas aulas de ballet são hilariantes), despretensiosa; uma lufada de ar fresco, que é a primeira vez como realizadora de uma já conhecida actriz, Valeria Bruni-Tedeschi (que, em 1993, foi a actriz-revelação do cinema francês ao protagonizar o filme “As Pessoas Normais Não Têm Nada de Especial”, de Laurence Ferreira-Barbosa, onde interpretava, brilhantemente, o arriscado papel de uma mulher no limite entre a saúde mental e a loucura). Valeria é também co-autora do argumento e interpreta a protagonista, Federica. Neste seu primeiro filme, Valeria Bruni-Tedeschi inspirou-se na sua própria vida (também ela vem de uma família muito rica, que, por isso, também se viu obrigada a fugir de Itália para França), tendo mesmo convidado a sua mãe para interpretar o papel de mãe da protagonista.
Um último comentário: a cena final é deliciosa!

JP Machado


John_Parker
«É Mais Fácil Um Camelo Passar Pelo Buraco De Uma Agulha Do Que Um Rico Entrar No Reino Dos Céus»

Valeria Bruni-Tadeschi inspirou-se na sua própria vida e desenhou o auto retracto de uma mulher( Frederica) incompatibilizada com a vida. Trata-se de uma espécie de patinho feito, mas detentor de um património imenso.
É precisamente assim que começa «É Mais Fácil Um Camelo...»: Frederica encontra-se com problemas de consciência em relação à sua posição na sociedade e pergunta ao Padre local se o titulo de rico será ou não um condicionante perante a figura imaculada de Deus. O Padre responde que «é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus»...
Pelos vários momentos a que vamos assistindo ao longo do filme, podemos concluir rapidamente que se trata de uma obra critica, claramente de esquerda. Politiza a caricatura quando Frederica, enquanto nova, é raptada por um conjunto de «Cheguevaras» e ganha o seu carinho ao dizer ser comunista. A cena que se segue é absoluta-mente brilhante: os ditos raptores a cantar em alto e bom som «O Povo Unido Jamais Será Vencido», acompanhados, também em alto e bom som, pela familia de Frederica. Tudo isto passado no mais requintado dos ambientes e com a maior das exaltações por parte da família Burguesa.
Não há dúvida que as recordações de infância são o melhor que o filme tem para nos oferecer, apesar de haver uma outra cena magistralmente realizada e interpretada: aquela em que o namorado de Frederica, num jantar em casa da familia abastada, fala da vida dura do seu pai operário.
De resto, o filme anda em torno da vida desgraçada do protagonista e as suas desavenças com a família e namorados. É também curiosa a relação que Frederica tem com o Padre local: um homem perfeitamente céptico em relação às suas crenças e que lhe diz para consultar um psiquiatra, em vez de recorrer ao auxilio divino.

Classificação:**( a ver)

Luís Mendonça
Alfred_Hitchcock@hotmail.com


     
 

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