Dolls

Realizador: Takeshi Kitano
Intérpretes: Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Tatsuya Mihashi, Chieko Matsubara, Kyôko Fukada
Japão, 2002
Estreia: 11 de Julho de 2003


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
 
É o regresso do cineasta japonês Takeshi Kitano com um filme que conta três histórias aparentemente independentes sobre a imortalidade do amor. Três histórias que se tocam suavemente pelo insustentável peso da tristeza.


João Lopes
Actor, realizador, «entertainer» muito popular no Japão, Takeshi Kitano construíu a sua imagem de marca através de filmes como «Sonatine» (1993), «Hanna-Bi» (1997) e «Brother» (2000), próximos de um certo imaginário americano (dos «gangsters» e das relações de violência) e, ao mesmo tempo, tentando perverter esse imaginário através de um misto de excesso e ironia.

O menos que se pode dizer de «Dolls» é que Kitano, desta vez não participando como actor, escapa ao próprio dispositivo sobre o qual se tinha alicerçado o seu culto. Ainda bem. De facto, «Dolls» possui a fragilidade e a vibração próprias de um exercício formal que aceita confrontar-se com uma tradição muito específica — o teatro de marionetas «Bunraku» —, aplicando a linguagem cinematográfica como um poderoso instrumento de reinvenção e transfiguração. Através de três histórias autónomas, mas que se vão entrelaçando a partir do meio do filme, Kitano elabora uma textura em que a teatralidade da representação vai a par do calculado artifício dos cenários e, por vezes, da própria montagem. Todas as histórias colocam em cena as ilusões e desilusões do amor, acabando «Dolls» por existir como um labirinto poético sobre a (im)possibilidade de dois seres existirem um através do outro.

(Comentário publicado no «DNmais», 12 de Julho de 2003)


jungle cat
É pena terem deixado de fora das listas este magnífico filme. É uma experiência poética e sensorial.É uma experiência. Talvez não seja para falar sobre, mas para sentir.
Literal, não literal: esta polarização não se aplica à vivência plástica e mocional da obra de arte.


   
Muito bom o filme. Foi o primeiro trabalho que pude ver do Takeshi. Denso e poético, são as palavras que uso para descrevê-lo.


   
Passo a ser suspeito a partir do momento que considero Takeshi Kitano um dos melhores realizadores da actualidade. Deixando pormenores tecnicos do realizador de parte, e focando somente este seu filme, em minha opiniao , digo que se está perante uma obra de 7º arte. A maneira como 3 histórias são contadas, sao simplesmente bem conseguidas, continuando Kitano a imprimir a violência quase extrema, (desta vez emocional) a todas as personagens. A fotografia transporta-nos para um bonito , mas melancolico , triste e macabro mundo de cores. Não é um filme fácil de se ver, para quem se habituou a filmes como "brother" ou para quem ache o cinema japonês horrivel. Mas mesmo essas pessoas, devem dar uma espreitadela neste belo filme.

Concordo com um dos comentários ao referir Hana-Bi como um bom filme e um pouco melhor, nao deixando este nada atrás.


jorgevaznande@hotmail.com
Eu tenho noção de este filme de Takeshi Kitano não ter sido recebido muito bem pela crítica. Aliás, tenho a impressão que Takeshi Kitano não é bem recebido pela crítica desde a sua aventura americana com "Brother". Não importa muito. Afinal, o que faz Kitano senão uma busca incessante do sentido profundo das emoções humanas? Este filme não fala de outra coisa que não seja o amor e nunca se mostra um beijo entre as personagens. Isso deve dar que pensar.

Jorge Vaz Nande
(http://apeste.blogspot.com)


John_Parker
Viagem Sem Retorno

Posso dizer, à partida, que tudo aquilo que eu escrever neste comentário não será suficiente para descrever ou exprimir, com proximidade, a real beleza desta grandiosa obra de Takeshi Kitano.
Takeshi Kitano disse recentemente, no decorrer de uma entrevista, que via «Dolls» como um dos seus filmes mais violentos e não como uma mera colecção de fotografias bonitas e sugestivas. E, de facto, é verdade: enganem-se aqueles que estão à espera de um filme «light» como «Verão de Kikujiro». Kitano continua num registo de sofrimento que destoa com a pureza da imagem ( como acontece em «Fogo de Artificio» ou «Ponto de Ebulição»).
Há um romance, tão inevitável como o destino, entre duas pessoas que é retomado após uma tentativa de suicídio por parte da mulher; há uma admiração, quase obsessiva, de um homem por uma famosa cantora Pop; há uma paixão quebrada e que volta a ganhar forma quando ele já se transformou num mafioso «Yakuza» e quando ela já envelheceu e perdeu a esperança. Estes são os «bonecos» postos a nu por Kitano e enquadrados em cenários belíssimos.
Na primeira história de amor há um cordão vermelho que une o casal e que vai dar vida às restantes histórias. Esse casal une-se para partir numa viagem que só termina com a morte. Porque, apesar das cores e da beleza do filme, trata-se de uma obra profundamente deprimente e violenta. O filme arrasta-se numa melancolia atroz onde os bonecos de Kitano sentem uma dor angustiante e que só é libertada pela morte.
É um trabalho de realização impressionante e uma obra que se desvia um bocado do habitual «Beat Takeshi violento». São amores tristes, manipulados pelo destino, que conferem ao filme uma dimensão humana impressionante. Sublime.

Classificação:****(Muito Bom)

Luís Mendonça
Alfred_Hitchcock@hotmail.com


anadavid@clix.pt
Comecemos por referir a enorme beleza plástica deste objecto de cinema, que transmuta um espectáculo de marionetas japonesas (“bunraku”) numa narrativa em imagem real. Ainda que desigual, uma vez que as três histórias que se combinam não se submetem ao mesmo tratamento estético, a fotografia gera momentos de enorme fulgor visual coadjuvada pelo design de produção – veja-se o magnífico plano dos amantes pendurados no precipício ou os momentos em que deambulam entre as folhagens vermelhas do Outono. Neste aspecto particular, o filme é digno de admiração.
O problema prende-se com a falta de implicação emocional com aquelas personagens que se querem vivas. Elas são bonecos iguais aos que figuram na introdução do filme, só que manipulados por Kitano. É o seu carácter unidimensional que motiva algum distanciamento em relação a esta(s) história(s) de amor enquanto tragédia(s) a que só a morte pode pôr fim. Sorumbáticos, não vivemos as vicissitudes das personagens, apenas as acompanhamos remotamente, sem nos esquecermos da ausência de espessura humana.
É incontornável a comparação com a obra anterior deste verdadeiro ícone japonês, sendo um lugar comum salientar a diferença deste filme em relação aos seus “violentos filmes de gangsters”, marca mais identificativa de Kitano, à excepção do belíssimo “O Verão de Kikujiro”. É verdade que aqui não há a mesma violência gráfica, nem o seu teor o exigia, mas uma óbvia violência implícita aos sentimentos. “Dolls” é como que uma dilacerante ópera japonesa com bonecos de aspecto humano. E inspira muita melancolia.

Jorge Silva


margo_channing@hotmail.com
O silêncio deste filme rasga qualquer palavra.
A cor da felicidade e do sofrimento - o vermelho - atira-nos ao chão com a intenção de nos querer, depois, levantar.
As três histórias... as seis vidas, o regresso ao amor depois da fuga, depois do medo, depois de descobrirmos, cá fora, o preto e branco que devolvemos às coisas. Não temos uma corda vermelha que nos guie, mas temos Dolls.

Eva


migueldomingues111@hotmail.com
Um dos factos mais curiosos acerca de Takeshi Kitano é como a sua carreira, a nível de percurso, é ciclicamente percorrida por laivos de "criancice". Não no sentido pejorativo, mas porque são as crianças que, ciclicamente, juntam à sua dimensão intrínseca a cópia daquilo que os adultos fazem, numa tentativa de assim aumentar o âmago da sua identidade. Assim, aos inúmeros violent cops/yakuzas que perfazem o núcleo da sua obra, juntam-se "0 Verão de Kikujiro", "Os Rapazes Regressam" e este "Dolls".

É injusto ver "Dolls" como um objecto calculista com vista ao prestígio, dado que era previsível a ira dos adeptos do nipónico perante a brusca mudança. É mais uma tentativa de percorrer um espectro maior de ambientes no mesmo filme, homenageando a tradição japonesa de embelezamento do quotidiano e da paisagem e, sobretudo,escapar à formatação que o anterior e excelente "Brother" já deixava antever. Neste, e partindo de uma lenda ancestral do país do Sol Nascente e na tradição do bunraku, teatro de marionetas aí tradicional, Kitano claudica clamorosamente num projéctico demasiado asséptico.

Porque Kitano aposta à partida num cavalo que nunca poderá vencer: ao deixar tudo nas mãos dos mais pequenos gestos, está a desvirtuar o seu talento de bulldozer, de cineasta que sempre trabalhou no fio da navalha entre o mau gosto da brutalidade e a violência como estética. Na primeira história, transversal a toda a obra, um amante produz a loucura da sua parceira ao escolher um casamento baseado no sucesso empresarial; esta é depois resgatada por ele,ficando ambos unidos por uma corda vermelha e a culpa de Matsumoto. Na segunda, o yakuza Hiro, volta ao parque onde a sua namorada ainda o espera todos os Sábados com o almoço, décadas depois deste a ter abandonado em prol da Máfia. Na terceira, Hakuma, estrela pop desfigurada recebe uma prova de amor de um dos seus groupies. O espectador nunca se pode concentrar nas personagens e nos seus arrependimentos - a culpa e o amor não concretizado são os temas recorrentes do filme - porque o cineasta nunca lhes dá oportunidade de serem, na mais ampla acepção cinematográfica: tornam-se esquemas, personagens planas cuja única função é serem escravas de um programa e nunca de emoções dominantes. Para além disso, ajudado pelo estilista Yohji Yamamoto, há uma perturbante escapadela pop totalmente desproporcionada, desnecessária e distractiva. Mas o pior erro de todos é a aposta na paisagem japonesa como elemento de crédito ao filme, piscadela de olho a um Ocidente sempre em busca da próxima dose de exotismo light.

Resumindo: a "criancice" não tem que ser má: basta ser temperada com a identidade, no que o episódio mafioso é um ponto positivo mas insuficiente; Kitano pode aqui ter aprendido muito, especialmente mas armadilhas que ir em busca de novos territórios cegamente pode trazer. Contudo, creio que com mais calma, com uma maior folga da corda na garganta e com (ainda) mais maturidade filmíca, um remake deste filme pode não ser totalmente despropositado...

Miguel Domingues


paulo_ferrero@hotmail.com
"Dolls" é um filme de marionetas Bunkaru do princípio ao fim. Porque a história central (a dos amantes unidos por uma corda) se baseia numa popular lenda daquele popular teatro japonês; porque quase todas as suas personagens "Dolls" (e, porque não todos nós, espectadores?) são elas próprias marionetas.

Magnificamente fotografado (a ajuda da paisagem japonesa é essencial!, desde as "sakura" em flor aos matizes outonais), "Dolls" mostra-nos mais uma vez a faceta romântica, melancólica e onírica do "yakuza" Kitano, num teatro da vida encenado ao pormenor.

Não estando ao nível de "Verão de Kikujiro", "Dolls" é um bom momento de meditação oriental, com alguns pormenores de grande beleza, como aquele plano final, dependurados no penhasco.

Pessoalmente, continuo a preferir "Sonatine" e "Hana-Bi" na sempre fascinante e surpreendente filmografia de Takeshi Kitano.

Paulo Ferrero





hugossousa2@hotmail.com
Belíssimo. Este é o filme de Kitano para quem não gosta de Kitano.

[hg]


luis at canau ponto net
Cumpre-me acrescentar, para dissolver confusões, que o texto que escrevi foi publicado antes da opinião de João Lopes, não lhe sendo, obviamente, dirigido. LC


luis at canau ponto net
Bom, aparentemente este filme levou muita gente a análises "formais" e a planos de apreciação aos quais eu não cheguei, nem penso em chegar. A obra de Kitano, supostamente "muito diferente" das anteriores (radicalmente diversa de "A Scene at the Sea" e "Hana-Bi"...?) não se me aferiu um filme que suscitasse análises de tal natureza, a medir centímetros de ecrã ou planos "redundantes". Não distingo o formal do substancial, o acessório do redundante; a fabricação do artificial da declamação poética. Será um problema meu? Ninguém é perfeito. Passei talvez 15 minutos estático em modo de "apreciação crítica", mas pouco depois fui vencido, desliguei funcionalidades analíticas cerebrais e deixei-me ficar colado à cadeira até ao final dos créditos finais.

Definitivamente, não é um filme que funcione com toda a gente, mas não entendo muito bem como é que é possível "venerar" "Hana-Bi" ou "A Scene at the Sea", mas entrar em desconstrucções tecnico-analíticas para pôr de parte este fabuloso filme de Kitano Takeshi.

Deixo um URL para outros desenvolvimentos: http://www.asia.cinedie.com/dolls.htm

Luis Canau


     
 

Deixe um comentário:

Nome:

Introduza aqui o código que aparece em baixo:


 
Classifique o filme: