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Nos Meus Lábios
Realizador: Jacques Audiard
Intérpretes: Vincent Cassel, Emmanuelle Devos, Olivier Gourmet, Olivier Perrier
França, 2001
Estreia: 16 de Maio de 2003
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Eurico de Barros | João Lopes | Média dos Espectadores |
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Site oficial português: http://www.atalantafilmes.pt/2003/nosmeuslabios.
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Carla é uma rapariga com uma deficiência auditiva, o que não a impede de atender os telefones numa empresa em que faz tudo... por um salário de miséria e sem nenhuma consideração especial. Tem 35 anos, uma aparência vulgar e acha que merece outras coisas da vida.
Paul tem 25 anos. É bonito, mas também é um ex-condenado que está a tentar endireitar a sua vida... só que é completamente incompetente em tudo o que não seja o seu «ramo» de trabalho.
Sobrecarregada com trabalho, Carla pede ao seu patrão para contratar um assistente para a ajudar: Paul. Com a sua chegada, ela vê uma possibilidade de reequilibrar as coisas: o que não conseguia obter pela via normal –competência, seriedade–, vai conseguir através da violência e da chantagem. Em troca, Paul vai aprender um ofício, uma nova forma de se comportar, sem esquecer que capacidade de Clara ler lábios abre todo um novo campo para as suas capacidades criminosas.
Sozinhos não conseguem atingir os seus objectivos, falta-lhes qualquer coisa, um não pode fazer nada sem o outro. A dois, tudo é possível.
«Nos Meus Lábios» ganhou três Césares em 2001: melhor actriz, melhor argumento e melhor som. |
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Eurico de Barros
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Este texto foi publicado no «Diário de Notícias», de 16 de Maio de 2003, com o título `Encontro de mundos distantes`.
O primeiro mundo que aparece em »Nos Meus Lábios», de Jacques Audiard, é o das pessoas quase invisíveis, que só têm existência concreta para os outros quando estes precisam delas. Carla (Emmanuelle Devos) é secretária numa empresa de construção e passa grande parte do dia nesse mundo, tão apagada que até lhe entornam café em cima da secretária sem reparar que ela está lá sentada e ao menos lhe pedirem desculpa. Sofre de surdez parcial, o que a isola ainda mais no seu mundo. Mas lhe dá a vantagem de entrar e sair do mundo que a ignora sempre que lhe apetece. E de ler nos lábios dos outros sem que eles reparem.
O segundo mundo é o das pessoas na margem da sobrevivência, com um pé no pequeno delito, que o cidadão médio desconhece ou faz apenas uma ideia de como seja, das notícias de polícia no jornal e na TV. Paul (Vincent Cassel) vivia nesse mundo antes de ser preso e, libertado, quer evitar lá voltar. Paul tem que arranjar um emprego, que o conduz a trabalhar sob as ordens de Carla, como paquete. Os dois mundos distantes encontram-se e Carla e Paul descobrem que, além de se sentirem um pouco menos sozinhos, podem ser úteis um ao outro. Porque duas fraquezas separadas, juntas podem fazer uma força.
Jacques Audiard é filho de Michel Audiard, um dos grandes argumentistas do cinema francês, e escreveu para outros realizadores antes de começar a filmar os seus argumentos, em meados dos anos 90. Entroncando nas séries B americanas dos anos 40 e 50 onde casais vulgares desenvolvem invulgar relação simbiótica que os leva a uma vida de crimes, e escrito por Audiard a meias com Tonino Benaquista, «Nos Meus Lábios» é o filme de um argumentista com as qualidades da frugalidade expressiva e de um realizador com as virtudes da eficácia concisa.
Um gesto, duas situações, três olhares, meia dúzia de diálogos, alguns sons, um par de personagens rápida mas profundamente caracterizadas, quatro ou cinco ambientes, uma câmara ágil e próxima de quem filma, uma montagem em picotado e uma simpatia nunca oculta por prevaricadores (desde que saídos das fileiras das pessoas comuns sem sorte), chegam para Jacques Audiard fazer um brilharete.
Mas seria injusto não citar também Emmanuelle Devos, que compõe Carla como mulher que se confunde com o seu meio ambiente e depois se torna senhora de tudo em redor. E Vincent Cassel no gandulo Paul, que nunca muda de camisa e não é capaz de expressar emoções senão por impulsos primários ou actos anti-sociais. Já me esquecia de que «Nos Meus Lábios» é também uma história de amor, sem ganga sentimental para a intriga, piedadezinha para as personagens, ou atrasos de vida no fluir do filme. Ou não fosse Jacques Audiard um talentoso de espírito prático. |
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João Lopes
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| Uma curiosa ideia dramática — uma mulher cuja relativa surdez a obriga a tentar compreender o comportamento dos outros através da leitura dos lábios — que, infelizmente, se perde pelo caminho. De facto, «Nos Meus Lábios» começa como um intenso exercício interior que, a pouco e pouco, vai decaindo para um modelo de policial em que os efeitos de «choque» se tornam mais importantes do que a complexidade das próprias personagens. Em todo o caso, sublinhe-se a composição de Emmanuelle Devos, na personagem central, sem dúvida uma das mais versáteis actrizes francesas da actualidade. |
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gonn1000@hotmail.com |
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A UNIÃO FAZ A FORÇA
Uma das boas surpresas do cinema francês recente, "Nos Meus Lábios" (Sur Mes Lèvres) apresenta uma bem conseguida mistura de drama e policial, desenvolvendo atmosferas de suspense sem nunca subvalorizar a complexidade das personagens.
O ponto de partida desta película de Jacques Audiard é a relação de Carla, uma secretária parcialmente surda de uma empresa de construção, e Paul, um ex-condenado que tenta reorganizar a sua vida e vai auxiliar Carla no emprego.
Solitários e com um dia-a-dia pouco próspero, os protagonistas de "Nos Meus Lábios" geram uma ligação que os faz adoptar uma postura menos individualista e, aos poucos e em conjunto, conseguem ir superando alguns obstáculos.
Assim, Carla vai ultrapassando a sua timidez e insegurança, características que levam a que os outros a subestimem, e Paul vê reduzida a sua esfera de inadaptação e desvio.
Seguindo estas duas personagens de perto, "Nos Meus Lábios" é um filme intimista que entrecruza eficazmente tensão dramática com as inquietações próprias de um thriller, proporcionando um interessante olhar sobre o amor, a solidão, os laços de confiança ou o ostracismo visível nas relações sociais contemporâneas.
Jacques Audiard ofecerece um seguro trabalho de realização, apostando num realismo lacónico, num estilo sóbrio e num ritmo astuto e envolvente. A direcção de actores é igualmente sólida, com destaque para o par central, composto por Emmanuelle Devos (apropriadamente frágil e relutante) e Vincent Cassel (em mais um desempenho viril e carismático).
Longe de revolucionário, mas quase sempre entusiasmante - excepto no dispensável subplot sobre o desaparecimento da esposa do polícia - "Nos Meus Lábios" é uma obra intrigante, sensível e absorvente, mais um exemplo da versatilidade da cinematografia francesa actual.
Gonçalo Sá
http://gonn1000.blogspot.com |
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anadavid@clix.pt |
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Um thriller muito interessante que procura a verdade das personagens e foge da maioria dos lugares-comuns inerentes ao filme de género.
Uma boa proposta do cinema francês, em que o mais interessante se joga a um nível interior, nas mentes das personagens e naquilo que é implícito. Ao contrário de um eventual “remake” americano, onde não é difícil adivinhar (pela tradição do que nos é dado ver nos últimos anos) que se privilegie a dimensão espectacular mais associada ao explícito.
Jorge Silva |
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paulo_ferrero@hotmail.com |
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Muito do interesse de "Sûr Mes Lèvres" reside na interpretação espantosa de Emmanuelle Devos (cada vez mais apurada) e na ideia que lhe serve de ponto de partida, i.e.; o "fruto proíbido" poder ser factor-alavanca para o desabrochar para a vida.
A ideia de que uma secretária surda, recatada e tímida, desperta para a vida por contacto com o crime é bem urdida. Só é pena que o filme comece a tropeçar a partir do momento em que Devos quer ser mais papista do que o ... Cassel Jr.
Realce para a boa realização de Jacques Audiard, quase sempre feita de grandes-planos, muito bem conseguidos, apesar de algo pela rama.
Patéticas a personagem e a história do agente de liberdade condicional ... Talvez fosse para ler nos lábios, mas, serviu para quê?
Paulo Ferrero |
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