Lilja 4-Ever

Realizador: Lukas Moodysson
Intérpretes: Oksana Akinshina, Artyom Bogucharsky, Lyubov Agapova, Liliya Shinkaryova, Elina Benenson
Suécia/Dinamarca, 2003
Estreia: 2 de Maio de 2003


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Eurico de Barros
Este texto foi publicado no «Diário de Notícias», de 2 de Maio de 2003, com o título `A triste sina sueca de uma jovem russa desamparada`.

É um filme muito triste. Tristíssimo. Sem uma réstea de esperança, muito mais carregado do que «Tudo ou Nada» de Mike Leigh.

Além de ser o feel bad movie do ano, «Lilya para Sempre» é o primeiro filme do sueco Lukas Moodysson a estrear-se em Portugal. E é a primeira longa-metragem apresentada pela Zero em Comportamento enquanto exibidora, na sequência da aposta feita, em 2002, na curta portuguesa «Crónica Feminina». Esta estreia vem ainda na continuação lógica da apresentação em Portugal, pela Zero, no «Festival que Veio do Frio», das duas primeiras fitas de Moodysson, Fucking Amal e Together, comédias dramáticas certeiras na apresentação dos ridículos e contradições do mundo dos adultos, a partir do ponto de vista dos jovens que o partilham.

«Lilya para Sempre» é mais uma história de confronto do mundo juvenil com o adulto, mas pintada com tintas muito negras. Lilya (Oksana Akinshina) é uma vítima anónima do fim do comunismo. Abandonada pela mãe e pela tia num quarto imundo num prédio degradado de um subúrbio miserável de uma cidade russa, Lilya é enganada por um namorado, que a mete na prostituição na Suécia.

Moodysson descreve com insistência crua e bruta o calvário de Lilya, mas o que acaba por prejudicar o filme não é, a certa altura, e por força do efeito de acumulação, o realismo impenitente virar melodrama . É a nota de fantástico pueril e «poético», com o aparecimento do anjo da guarda de Lilya, que lhe amolga a veracidade. O sofrimento da personagem já lhe tinha garantido o Paraíso, sem que fosse preciso Moodysson vir frisá-lo com asinhas postiças.


João Lopes
«Lilja 4-Ever» — também por vezes citado internacionalmente como «Lilya 4-Ever» — é, em tempos recentes, uma das genuínas revelações no mercado português: terceira longa metragem do sueco Lukas Moodysson (n. 1969), surge como um caso exemplar de um cinema que parte de uma exigência realista que nunca se reduz às formas mais esquemáticas de «naturalismo», hoje em dia promovidas por muitas ficções de raiz televisiva.

No centro dos acontecimentos está a personagem da jovem Lilja (que Oksana Akinshina compõe com um misto de vibração e contenção, raro em muitas actrizes veteranas), habitante de uma povoação decadente, algures na Rússia. Com 16 anos de idade, abandonada pela mãe (que parte para os EUA, na miragem de um futuro utópico), Lilja acabará manipulada por uma rede de prostituição que opera em território sueco. O filme surpreende, sobretudo, pelo desencanto do seu olhar humanista, não transigindo na atenção com que vai expondo as tensões — sociais e emocionais — que contaminam a acção.

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A nota de estreia que se segue foi publicada no «DNmais» de 3 de Maio de 2003:

Lilya tem 16 anos e vive uma vida pobre e desencantada, algures na Rússia; a mãe abandonou-a, partindo para os EUA à procura do «El Dorado»; entre sonhos (muitos) e desilusões (diárias), Lilya acaba por ser levada para a Suécia por uma rede de prostituição de jovens... Dito assim, poderíamos supor que este não passa de um filme em que a temática social «impõe» uma dramaturgia mais ou menos maniqueísta. Nada disso. Se é verdade que «Lilya 4-Ever» tem o peso de um realismo genuinamente social, não é menos verdade que estamos perante um objecto que não vacila, nem perante a complexidade das situações, nem no paciente labor com que expõe a multiplicidade afectiva de cada personagem. Nos minutos finais, o filme arrisca num inesperado registo de fábula que, pela sua candura, acaba por se adequar à vulnerabilidade de Lilya (a espantosa Oksana Akinshina) e do seu pequeno amigo Volodya (interpretado por Artyom Bogucharsky, um caso raro de talento natural). Esta é também a oportunidade para descobrirmos Lukas Moodysson, cineasta sueco nascido em 1969 que, apesar de ter assinado apenas três longas metragens, é já, em vários contextos, uma referência de culto.

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JC
Para quem está um pouco cansado das americanices, aqui está um bom filme!


   
NÃO SE ESQUEÇAM DE ASSINAR OS COMMENTÁRIOS. OBRIGADO.

CINEMA2000

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Sobre o comentário anterior:

A única razão por que o comentário anterior foi aprovado para estar on line é a sua paixão pelo filme a que se refere — respeitamos as convicções dos outros, coincidam muito ou pouco com as opiniões aqui expressas (que, não poucas vezes, são também elas salutarmente contrastadas).

De resto, o comentário, até pelo seu anonimato, reflecte um preconceito pueril que, desde o princípio, não queremos favorecer.

De facto, escrever mais uma vez os nossos Srs. da crítica fizeram o favor de "estragar" mais um excelente filme é, no mínimo, menosprezar a variedade de pontos de vista que este filme suscitou na imprensa, nomeadamente no respectivo fim de semana de estreia.

Os «Srs. da crítica» não esperam que toda a gente concorde com eles. Seria, aliás, uma tristeza e uma monotonia se tal acontecesse — aliás, há décadas que os «Srs. da crítica» começam por não concordar entre si e não se dão mal por isso. Acontece que, hoje como sempre, seria simpático não tratar um grupo profissional — seja ele qual for — como uma colecção de marionetas que podem ser reduzidos a qualquer generalização simplista.

Obviamente, qualquer análise desta questão — e, sobretudo, deste filme — terá que ser feita em regime de seriedade e mútuo respeito. Este site existe para isso.

João Lopes
CINEMA2000


   
Assim, brevemente (espero poder cá voltar com mais tempo) achõ que é um filme a não perder.
Tive a sorte de ser "arrastada" por um amigo logo na sexta-feira passada para ir ao 1º dia deste filme no cine-estudio 222 e muito sinceramente fiquei deslumbrada com o filme.
É tipo "um murro no estomâgo com luva-branca". Uma descida aos infernos que não pode deixar ninguém indiferente.
O mue amigo, no final, dizia que aquilo que lhe fazia lembrar o "ondas de paixão", do Lars von Trier...A mim, não, embora consiga entender o que ele quer dizer.
A questão do milagre e o sinal de Deus.
Mas acho que o filme tem outros (muitos) atributos, que são já marca do Moodysson (sim, eu já tinha apanhado os anteriores filmes deles nos Festivais do Frio I e II).

Façam um favor ao filme: Não o percam!!!
E se de facto acreditam na diversidade da oferta de filmes no nosso País, façam alguma coisa por ele, ajudando à sua divulgação pois o filme bem precisa e merece ser visto por muita gente.
Não liguem à maioria das criticas que o filme teve, pois mais uma vez os nossos Srs. da crítica fizeram o favor de "estragar" mais um excelente filme.

Ainda bem que há quem tenha a ousadia de nos dar a ver coisas novas, diferentes e importantes.

Cumprimentos


     
 

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