O Emprego do Tempo

Realizador: Laurent Cantet
Intérpretes: Aurélien Recoing, Karin Viard, Serge Livrozet
França, 2001
Estreia: 28 de Março de 2003


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
 
* Site oficial português.

* Entrevista com Laurent Cantet e Aurélien Recoing (em francês).

* Ver igualmente «O Adversário».


Eurico de Barros
Este texto foi publicado no «Diário de Notícias», de 28 de Março de 2003, com o título `A mentira como um emprego a tempo inteiro`.

Era uma vez um homem que durante quase 20 anos mentiu à família e aos amigos, sobre um emprego, um ordenado e um estatuto social que já não tinha, sem que eles descobrissem. Se costuma ir ao cinema e desconfia que já viu esta história -verídica- num filme, está certo. O tema de «O Emprego do Tempo», de Laurent Cantet, rodado em 2001, é o mesmo de «O Adversário», de Nicole Garcia, feito em 2002, mas que se estreou em Portugal primeiro do que aquele.

Ambos os filmes baseiam-se no mesmo livro, «L`Adversaire», de Emmanuel Carrère, sobre o «caso Romand», mas são muito diferentes um do outro, e não apenas pelo facto de Cantet alterar o final da história. Onde Nicole Garcia fez um filme de terror ancorado no real quotidiano e deu a Daniel Auteuil o papel de um homem que por dentro é um monstro e que mente sem que nunca nos seja explicado porquê, Laurent Cantet rodou um thriller de rosto humano: o do magnífico Aurélien Recoing, interpretando um homem igual a muitos outros que vive uma mentira como se ela fosse verdade.

O «emprego» de Vincent, o quadro que simula estar empregado porque não teve coragem de dizer à família e aos amigos que foi despedido, é a ocupação do tempo livre a fingir que trabalha.

Cantet segue-o como um repórter mudo e neutro, enquanto ele passa os dias às voltas no carro, dorme estacionado nas áreas de serviço ou à beira da estrada, entra à socapa em empresas para as visitar ou fingir que está à espera de uma reunião com alguém, instala-se em bibliotecas como se fosse actualizar-se profissionalmente. Sempre com a sua «farda» de executivo, a pasta cheia de documentos, sempre amável, sereno e discreto, misturando-se na multidão dos quadros de empresas iguais a ele. Mas que, ao contrário dele, continuam a trabalhar.

A vontade de Vincent continuar a «ser» como os seus pares, a perfeição da sua simulação, o seu talento camaleónico, a sua capacidade de dissimulação, é tratada por Laurent Cantet como se a personagem, inconscientemente, procurasse a invisibilidade, desaparecer da vista de todos. Por isso, perto do final, Vincent deixa-se engolir pela noite.

«O Emprego do Tempo» é um filme absurdo de capa realista, um policial sem crimes onde o culpado também é a vítima, simultaneamente prevaricador e inocente, digno de censura mas também de compreensão. Quem recusaria um emprego ao correctíssimo Aurélien Recoing?


João Lopes
Provavelmente, a comparação com o magnífico filme de Nicole Garcia («O Adversário») não nos ajuda muito a entrar neste singularíssimo trabalho de Laurent Cantet. Feito um ano antes, «O Emprego do Tempo» pega na história do «affaire Romand», não exactamente para a «reconstituir», antes para dela colher uma ideia central: a de um homem que, face a uma súbita situação de desemprego, inventa uma vida fictícia com a qual, durante muito tempo, irá enganar a família e os amigos. No limite, ele «engana-se» a si próprio, deslocando-se para uma «terra de ninguém» afectiva onde só a denegação e o silêncio podem prevalecer.

«O Emprego do Tempo» funciona como uma espécie de fábula assombrada pelo seu próprio delírio, expondo os laços da existência como coisa infinitamente frágil e vulnerável. Aurélien Recoing, actor sobretudo do teatro francês, é um prodígio de transparência e mistério, vida e quietude letal.


jtrb24@hotmail.com
Cantet a misturar realismo e onirismo de forma sábia e profundamente inteligente.Âs tantas,já não sabemos se estamos a assistir a um filme dramático se a um filme fantástico.Talvez os dois géneros em simultâneo.Não há certezas absolutas,mas mesmo assim arriscamos:Cantet não tem rival à altura no que diz respeita a cineastas franceses que surgiram nos últimos anos.

Tiago Ribeiro 03/05/03


anadavid@clix.pt
Interessantíssimo estudo sociológico esta segunda obra do realizador francês Laurent Cantet. É uma reflexão muito actual acerca da forma como as normas laborais, que enformam o sistema social que conhecemos (de uma forma geral, o europeu) podem gerar excluídos.
Para reflectir sobre os valores da contemporaneidade e, sem demagogias, pôr em causa muitos lugares adquiridos.

Jorge Silva


paulo_ferrero@hotmail.com
A distribuição de filmes em Portugal é muito "sui generis"! Só assim se explica que "L`Emploi du Temps" (de 2001) esteja só agora a ser projectado quando o seu primo-direito sanguinolento (e "mais" verídico), "L`Adversaire", de Nicole Garcia e que era de 2002, já o tenha sido há muitos meses.

Tal facto poderia ser irrelevante, mas sabendo que ambos têm como ponto de partida um célebre episódio que quebrou o quotidiano francês, aqui há uns anos, seria bem mais aliciante ter ambos os filmes em cartaz ou, pelo menos, que o primeiro - "L`Emploi du Temps" - tivesse aparecido por cá antes do outro.

Contudo, é certo que os dois filmes são completamente diferentes, já que na versão de Nicole Garcia o que contava era o poço de talento que é Daniel Auteuil e uma visão psiológica terrivelmente perturbadora e insinuante (a que Badalamenti dava uma ajuda); neste "L`Emploi du Temps" o objecto em análise continua a ser o factor humano, sim, mas visto sob a frustração de um emprego rotineiro (não fora Cantet o autor de "Ressources Humaines"), como tantos que há por aí); e suas consequências nefastas nas relações intra-familiares, entre marido e mulher e entre pai e filhos (em ambos os sentidos).

Nesse aspecto, Aurélien Recoing e a câmara de Laurence Cantet são sublimes na forma contida e intimista com que retratam e contam a angústia de um homem que anda aos solavancos, de cabeça vazia, durante sete meses a fio.

As melhores sequências são as do refúgio de montanha, e aquela em que a mulher de Vincent (grande papel de Karin Viard) parece perder-se. Já o envolvimento com o contrabandista é totalmente inoportuno e redundante.

Paulo Ferrero



the_everl@hotmail.com
Vincent (Aurélien Recoing) foi recentemente despedido mas diz à família que se despediu e inventa um novo emprego, mais precisamente, na ONU. A sua vida resume-se às viagens de automóvel até à Suíça para manter a mentira credível e a reencontros esporádicos com a família. Laurent Cantet filma o percurso de Vincent: desde o princípio da mentira até ao fim. E quando o realizador está disposto a filmar uma personagem é preciso que o actor responda. E a interpretação de Aurélien Recoing é sublime – tanto enquanto bom pai de família como enquanto indivíduo angustiado com a sua mentira, atingindo um apogeu quando as situações chocam. Entende-se então que Vincent é alguém completamente inadaptado à máquina social; prefere a mentira do que a solução normal – um novo emprego. E é aí que a ambiguidade do final resulta na perfeição: afinal Vincent engolirá o fardo de um novo emprego ou foi ele próprio engolido pela máquina social?

A não perder

Daniel Pereira


John_Parker@netcabo.pt
«O Emprego do Tempo» de Laurent Cantet


«L´Emploi du Temps» é já um dos melhores filmes deste próspero ano de 2003. Trata-se da história de um economista de relativo sucesso (Aurélien Recoing) que ao ser confrontado com o despedimento, cria todo um universo de ilusões: o sentimento insuportável da desilusão leva-o a criar um emprego fictício e toda uma vida paralela que acaba por se sobrepor ao estado real das coisas.
Numa abordagem directa e seca a este filme, poderíamos dizer que se trata de uma obra de cariz social, cujo tema central é o desemprego numa classe hierárquica mais abastecida. Tema esse abordado de forma vincada e politizada no anterior filme de Cantet, o fabuloso «Recursos Humanos». Contudo, «L´Emploi du Temps» acaba por ir mais além de um filme de classes, é também uma profunda reflexão sobre os comportamentos humanos e a nossa capacidade de criar situações e, de forma inconsciente, assimilá-las como reais: Aurélien Recoing nunca chega a admitir o fracasso.
A realização de Laurent Cantet é de um equilíbrio extremo, que só nos aproxima das personagens do filme. Aurélien Recoing é absolutamente fabuloso, uma das melhores interpretações masculinas do ano.

***** (obra-prima)

Luis Mendonça.


     
 

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