Brother

Realizador: Takeshi Kitano
Intérpretes: Takeshi Kitano, Omar Epps, Kuroudo Maki, James Shigeta
EUA/Japão/França, 2000
Estreia: 26 de Outubro de 2001


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Eurico de Barros
«Em Roma, faz como os romanos», diz o velhíssimo ditado. Takeshi Kitano não deve conhecer o ditado, ou então não lhe liga a menor importância. E apesar de estar em Hollywood, fez como costuma fazer quando está em Tóquio. Em «Brother», apesar de estar em território estrangeiro, Kitano parece que não saiu da capital japonesa.

O filme conta a história de um «yakuza» (um «gangster» nipónico) que interioriza de forma distorcida o «bushido» (antigo código de honra dos samurais) e, caído em desgraça na sua terra natal, vai para paragens estranhas - isto é, Los Angeles -, onde transforma um mísero «gang» local, liderado pelo seu incompetente irmão, também ele um deslocado cultural, numa temível força do crime.

A geografia alienígena, os costumes estranhos e a raça dos membros do bando - quase todos negros - não têm nada a ver com o assunto. A identificação fraternal entre o «yakuza» desenraízado (interpretado com o habitual laconismo de expressão e de discurso pelo próprio Kitano, que não fala inglês e aqui quase não dá uma para a caixa nem sequer em japonês) e o jovem Denny (Omar Epps) fazem de «Brother» o primeiro filme de «yakuza» multiculturalista, no melhor sentido da tão maltratada palavra.

O resto, são os silêncios «zen», a serenidade «cool», o estilo visual prático e espartano e a ultraviolência súbita e rápida que fizeram a fama de Takeshi Kitano. Mais uma Cidade dos Anjos filmada como se dos bairros periféricos ou dos arrabaldes de Quioto se tratasse. Estamos nos antípodas da aculturação exuberante e instantânea de um John Woo a um país, uma cidade e um modo de fabrico da sua indústria cinematográfica.

Moral da história: em Roma, podes muito bem não fazer como os romanos e levares a tua avante. «Right on, brother!»


João Lopes
Correndo o risco de chocar alguns amigos, só posso confessar a minha perplexa distância face a um filme como «Brother». Takeshi Kitano parece-me, cada vez mais, um copista maniqueísta dos efeitos mais superficiais do «thriller» made in USA, ornamentado com os artifícios de uma metafísica de quinta ordem. Ainda por cima, da simples construção dramática do espaço à gestão narrativa do tempo, é tudo de uma linearidade amadorística de bradar aos céus. Que me perdoem os que, assim, ofendo. Não é essa a minha intenção.


   
Na minha opinião estamos presente de uma grande obra cinematografica.
Brother de takeshi Kitano, leva-nos para o mundo dos gangs, repleto de violência e cenas chocantes do submundo do crime.
Brother da-nos a conheçer a cultura dos gangs "yakuzas",cultura associada com violêcia e gore.
Resumindo , neste filme encontramos material para satisfazer todos os amantes de filmes de gang´s, desde a Mafia italiana ,passando pelos os "yakuzas" e acabando nos mexicanos , ou seja uma delicia para os amantes do genero.

Fernando C
|__Blade__|


dirceu@netcabo.pt
Kitano mantem uma coerencia que casa bem com o rarefeito espaco de L.A., palco para uma historia de ascensao e queda sempre num clima de desencanto. A analogia com o western e possivel (o impossivel duelo final) e, ainda que possa ser preterivel face a anteriores momentos da obra "kitaniana", a sua construcao e poderosamente tragica.


jpmachado44@hotmail.com
Sei que vou chocar muita gente, mas gostei mais deste “Brother” do que d’ “O Verão de Kikujiro” (de que também gostei), de “Sonatine” e de “Fogo de Artifício” (dos quais não gostei...!). Reconheço as semelhanças de “Brother” com os últimos filmes referidos, em especial com “Sonatine”, mas só agora compreendi a mensagem de Takeshi Kitano. Neste “Brother”, Takeshi Kitano consegue expor as suas ideias de uma forma mais organizada, mais esquemática, o que me permitiu “entrar” no seu universo. E há muita beleza neste cinema, de facto!
O que em “Sonatine” e em “Fogo de Artifício” eram sequências longas sem interesse, aqui são momentos serenos, com que me deleitei; o que em “Sonatine” e em “Fogo de Artifício” era violência gratuita, aqui é uma reflexão sobre a violência!
Só foi pena o final. O filme deveria ter terminado no momento em que Yamamoto morre, com a câmara a subir, mostrando o deserto...


joaquim.c.lucas@clix.pt

BIG – BROTHER TAKESHI KITANO - UM YAKUZA NA AMÉRICA


Ao observarmos o passar da fita entre a violência inusitada da acção desenvolvida, a inexorável impassibilidade de Yamamoto (Takeshi Kitano) – o protagonista - polvilhada por um par de tiques faciais, o omnipresente vazio da afectividade em cada cena e a peculiar demonstração irónica do comprometimento com códigos de honra que na ancestral cultura nipónica até no crime organizado ditam a sua lei, percebemos afinal o que é o cinema de autor e, aqui em particular, deparamo-nos com a distinção que faz da cinematografia do realizador japonês Takeshi Kitano obra única no panorama do cinema mundial actual. O curioso desta questão de percepções de que aqui se fala é que sinto que elas acontecerão mesmo que os contactos com a filmografia anterior do autor sejam nulos até à altura da confrontação na sala com este irrepreensível «Brother».

O brilhantismo deste objecto fílmico reside entre outros aspectos mas essencialmente na clara comutação que se dá entre aquilo que observamos e o que afinal sentimos que é a mensagem de Kitano. Porque todo o argumento de «Brother» foi construído de forma muito metódica no que se pretendia fosse (e foi.) uma relação causa - efeito. E isto porque existem três fins que – na minha perspectiva - nortearam a feitura deste filme, um deles inconfessável. Explicar ao ocidente e nomeadamente aos americanos o que é um “Yakuza”, com tudo aquilo que lhe está subjacente, Criar uma espécie de aliança dos oprimidos contra o opressor, exposto no composição multirracial de minorias étnicas no grupo que desenvolve em Los Angeles, e, inconfessável objectivo, Exportar o seu cinema para ocidente, para novos mercados. Daí que o argumento tenha funcionado de forma a que Yamamoto fosse obrigado a abandonar Tóquio e o Japão e se desse a confrontação com outros grupos para a devida constatação de diferenças com os códigos de honra “Yakuza”. Código, aliás, não apreendido pelos diferentes elementos do grupo o que o leva à sua perda.

Aquilo que se aplaude é que Takeshi Kitano acaba por se manter fiel ao seu percurso como autor e a violência exposta – regular em Kitano - surge muito mais como uma fatalidade assente em valores e condutas do que como sinónimo de crueldade gratuita. Por outro lado, seguir os passos do esfíngico Yamamoto de tendência natural muito mais para o operacional que para quadro executivo, é regalarmo-nos numa perfeita exibição da ironia onde a expressão corporal esconde de forma voluntária a lucidez da mente.
No final do filme não consegui deixar de imaginar o gozo que deverá ter Takeshi Kitano ao rever algumas cenas do seu filme. É que, em muitas delas, o realizador andou sempre muito próximo de um humor negro muito corrosivo para não dizer ultra - sarcástico. Resta saber se cada um nós terá percebido esta característica fundamental de «Brother».


Joaquim Lucas, 2001.11.11



miguel_lopes25@hotmail.com
Em " Brother " assistimos à primeira incursão de Takeshi Kitano por terras americanas e ao retomar de uma temática que tinha sido, de certo modo, abandonada em " Kikujiro ".Pessoalmente assumo-me como um verdadeiro apreciador do estilo deste cineasta. Porém não posso deixar de apontar algumas limitações ao novo filme de Kitano, quer sob o ponto de vista narrativo ( este " Brother " não atinge o climax de uma história tão envolvente como a de " Hana Bi" ou até mesmo " Sonatina " ), quer sob o aspecto estético-formal, vertente que nas anteriores peliculas concedia uma dimensão lirica muito forte e envolvente, suavizando,mesmo, a enorme violência que estava subjacente ao argumento. De facto a violência de " Brother " é exposta de uma forma mais crúa. Mas talvez Kitano tivesse entendido que a transposição do seu pecúliar universo para terras do "tio sam" devesse sofrer alguns ajustamentos. Não quero com isto dizer que o cinema de Kitano fica adúlterado, a marca do mestre não se apagou.Porém " Brother " fica muito aquém de outros filmes do cineasta, que eu aprendi a admirar. Mas como Kitano é um grande cineasta seria um " sacrilégio" qualificar " Brother " como sendo um mau filme, digamos que talvez seja um filme menos conseguido.Mas creio que se deve perdoar Kitano, porque a um " Irmão " tudo se perdoa.
Miguel Lopes.


paulo.ferrero@iapmei.pt
Com "Brother", Takeshi Kitano esclarece todas as dúvidas que pudessem
eventualmente existir: ele é o melhor realizador japonês da actualidade, o
único que rema contra a maré sufocante e omnipresente dos vizinhos chineses
e coreanos. E fá-lo tanto a nível de filmes violentos, como em filmes
românticos ou em comédias. Provou-o com "Hana-Bi" ou "Violent Cop", mas
também em "Verão de Kikujiro", por exemplo.
Desta vez, Kitano pulverizou todos os filmes pretensamente "yakuza" que
foram feitos anteirormente pelos estúdios dos States (de Pollack a Scott),
além de que prova que é possível num filme brutalmente violento lidar, de
forma metafórica e humorística é certo, como valores sentimentais, sociais e
rácicos.
Neste "Brother" não só ficamos a saber que isso de ser-se branco, preto ou
amarelo pouco ou nada tem que ver com o fundo da questão, quando o que se
trata é da natureza humana e dos seus mais insondáveis propósitos.
Kitano sabe como ninguém comunicar com a plateia neste seu "Brother", seja
por via da violência incontida, brutal, gratuita, explosiva, sádica e
imprevista que lhe imprime de forma continuada mas bem gerida; quer nos
longos e pensados silêncios que tudo dizem ou na música intencionalmente
minimalista que acompanha este notável "take over" japonês que Kitano
conseguiu filmar na América. Há verdadeiras sequências de antologia nesta
lição que Kitano nos dá sobre honra e irmandade, mas também ambição e
devoção.
"Brother" é ainda um filme dominado totalmente pelo olhar metálico e pelo
rosto esculpido de Kitano (ficamos rendidos ao tique facial e ao humor
imprevisto de Beat Takeshi), no que é bem acompanhado pelas personagens
excelentemente trabalhadas dos "brothers" Omar Epps (na figura do irmão
conquistado) e Susumu Terajima (como irmão "yakuza"); mas que ao ser
unipessoal tem mais força do que muitas sociedades limitadas que por aí
andam.
Quando chega o genérico final, apetece dizer: obrigado sr.Kitano! Arigato
Kitano-san!



Paulo Miguel Ferrero



anadavid@clix.pt
Sensação saliente: Kitano cineasta sobrevalorizado?

Este "Irmão" faz-me colocar novamente a questão (depois de "Fogo de artifício") da eventual sobrevalorização de Takeshi Kitano.
Apesar de apenas conhecer "O Verão de Kikujiro", para além dos dois filmes citados, afigura-se-me um tanto duvidoso a alegada "enorme originalidade" do homem. Ainda por cima, grande parte do seu reconhecimento crítico passa pelos filmes "mais violentos", quando me parece bem melhor "O Verão de Kikujiro" (o seu OVNI, em termos de temática) do que qualquer um dos outros. Enfim, nada de dramático...
A encenação da violência, devedora de Scorsese e associável a Tarantino, é a pedra de toque deste filme. Não está, contudo, impregnada na história como em Scorsese, nem é uma excepção prolongada até ao delírio como em Tarantino. Aqui, é uma regra quase monocórdica e irrisória, capaz de cansar pela sua tangente cómica. Ou seja, trata-se de um dispositivo que em vez de aprofundar o impacte visual torna gratuita toda e qualquer morte ou sofrimento.
E depois há os interlúdios falsamente existencialistas, com planos onde não acontece nada, mais tiques autorais do que outra coisa. Não nego, todavia, a existência de momentos saborosos (o da impenetrabilidade dos japoneses é irresistível, principalmente se nos detivermos no rosto de Kitano), mas o estranho é num filme com um argumento interessante o realizador ser uma menos-valia. Sim, acho que esta história filmada por um outro realizador podia ser bem melhor. Até porque, por exemplo, a (não) utilização dramática da paisagem de Los Angeles ajuda a retirar fôlego a um tipo de filme que exige ser infectado pela pulsão geográfica. Permitam-me, pois, discordar de quem diz que Kitano faz muito bem em filmar nos E.U.A. como se estivesse no Japão...

Jorge Silva


ricardo.gross@fnac.pt
"Vocês japoneses são impenetráveis!", é a expressão que atiram à cara de Aniki/Takeshi Kitano, antes deste ser crivado de balas que são vistas apenas nos estragos produzidos num pequeno restaurante semi-abandonado. Só o desabafo, perdoem-me o entusiasmo, é já todo um programa cujo início remonta a "Violent Cop", primeira incursão de Kitano atrás das câmaras, mas também e, sobretudo, a "Sonatine", a sua primeira obra-prima reconhecida no Ocidente.

Muitos filmes, muitos yakuza e muitas mortes depois, persistimos (nem todos, obviamente...) incapazes de penetrar a psicologia que se esconde por detrás de uns óculos escuros e de uma cara ainda mais roubada de expressividade pelo acidente que lhe paralisou um dos lados e que aconteceu, de verdade, na vida de Takeshi Kitano, mais ou menos por alturas de "Kids Return" e "Getting Any?". Talvez não exista de todo qualquer psicologia? Talvez não exista mesmo nada dentro daquelas figuras?...

Logo, convém remeter a fruição dos filmes de Kitano que, como observamos em "Brother", se mantêm, iguais a si próprios, em Los Angeles como em Tóquio, para o trabalho formal (o burlesco das formas geométricas e narrativas - as tão referidas elipses - alvo de contínua sabotagem pela montagem) que é mais frequentemente para levar a brincar do que a sério.

O lado sério da questão passa-se por intermédio de rituais de uma infância perdida para sempre... Os momentos de diversão, frequentemente relacionados com o desporto (o baseball mas também, em "Brother", o basketball), cruzam-se com a violência gráfica que interpreta "à letra" os códigos de honra da máfia japonesa - dos tais yakuza.

"Brother" revela-se um excelente compacto da obra de Kitano que se reporta a este universo e, de certa maneira, esgota o seu tema. É o filme mais "seco" do realizador, aquele em que a infindável contagem de corpos substitui por completo os interlúdios feitos de flores pintadas que mais parecem animais e vice-versa, vistas nos filmes anteriores.

Há ainda algum fascínio com a masculinidade destes personagens (as belas tatuagens nas costas) mas, à semelhança do que Scorsese fazia no "Tudo Bons Rapazes" e a RTP2 nos dá a ver, felizmente, todas as Segundas-feiras, com os "Sopranos", logo somos confrontados com o impacte da violência e com a componente auto-destrutiva destes mesmos homens.

Kitano tem óbvios, fascínio e repulsa, para com os tipos que incarna e também para com todos os outros que surgem dos seus filmes. Talvez por isso os prive da tal psicologia? No fundo, ao fim de tantas obras, talvez nem ele mesmo ainda se/os compreenda...

Sem ressentimentos,

RG


Paulo23@correio.pt
Quem não conhece o estilo de realização do Sr. Kitano vai sofrer na pele a decisão de ver o filme baseada apenas no trailer de apresentação.

Pessoalmente, acho que é uma má politica de marketing tentar criar expectativas que não são cumpridas pelo filme.

Falando do filme: pessoalmente, não aprecio obras cinematográficas que usam o meu tempo em futilidades. Os inumeros e loooongos planos da inexpressividade do rosto do personagem principal - por acaso o Sr. Kitano - empurram o espectador para um estado vegetativo do qual as cenas mais violentas não conseguem nos despertar.

Imaginem uma situação de um maniaco-depressivo em que 99% do tempo este está em grave depressão. Assim me senti como espectador. As longas cenas de tédio cinematográfico eram apenas interrompidas por muito breves situações de violência.

Felizmente o periodo de depressão apenas durou até 1 hora depois do final do filme. Mas como podem perceber da minha mensagem ainda ficaram algumas marcas. É pena. Até acho que o argumento era interessante.

Paulo


tiago_pimentel@hotmail.com
Nunca o espaço geográfico se deixou dominar por um espaço étnico nestas proporções. Depois de ter feito uma pausa nos filmes de «yakuza» violentos e sanguinários, Takeshi Kitano regressa a casa reencontrando-se não em Tóquio, mas em Los Angeles. E é nesta cidade americana que Kitano larga as suas bagagens e reconstroi todo o seu cinema como um turista que se recusa a falar a língua local.

A estrutura do filme poderá lembrar trabalhos de Scorsese («Goodfellas» e «Casino») num contexto atmosférico menos envolvente mas muito mais retórico e, sobretudo, sereno. É muito característico em Kitano filmar tanta violência e conseguir, ainda assim, deixar transparecer tanta serenidade silenciosa e pausada.

«Hana Bi» é um trabalho magnífico sobre o estudo da inquietude, enquadrado numa pintura tão pacífica e serena que culmina num final brilhante numa praia (onde mais poderia ser?). «Brother» tem esta serenidade mas, acima de tudo, tem o inconformismo de Kitano perante a sua personagem que parece sugerir uma inevitabilidade de conflitos vários com o exterior independente do espaço físico. E «Brother» é isso mesmo, uma exteriorização física, um romper cultural, uma aculturação de choque, tudo para mostrar que os grandes valores permanecem intocáveis independentemente da geografia da situação.

É importante referir que gostar do «Verão de Kikujiro» não é factor de decisão para se ver este filme. É preciso, antes, uma reflexão sobre os mais antigos de Kitano («Hana Bi», «Os Rapazes Regressam») para ter a garantia certa. Pessoalmente, sou um admirador incondicional do trabalho do sr. Kitano e da sua breve pausa mais divertida e faladora com «Verão de Kikujiro». O seu regresso é tardio (quem esperou pela estreia do filme sabe do que falo) mas compensa. Muito bom.

Tiago Pimentel


     
 

Deixe um comentário:

Nome:

Introduza aqui o código que aparece em baixo:


 
Classifique o filme: