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A Lenda de Bagger Vance
Realizador: Robert Redford
Intérpretes: Will Smith, Matt Damon, Charlize Theron, Bruce McGill, Joel Gretsch, J. Michael Moncrief, Jack Lemmon
EUA, 2001
Estreia: 5 de Outubro de 2001
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Eurico de Barros | João Lopes | Média dos Espectadores |
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João Lopes
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Primeira impressão, breve e entusiasta. Mais do que isso: fascinada. Mais ainda: de reverência por aquele que é, sem qualquer dúvida (enfim, digo eu...) um dos títulos maiores de 2001.
Com «A Lenda de Bagger Vance», história de um jogador de golfe à procura da sua identidade, Robert Redford confirma-se como um dos mais admiráveis individualistas do cinema americano contemporâneo. Fiel ao classicismo da fábula humana (Capra, anos 40, etc., etc.), ele consegue, aqui, um objecto de contemplação e êxtase cujo núcleo é, afinal, o desporto como vitória, não sobre o outro, mas sim sobre a história individual do próprio jogador.
O lugar-comum dirá: é um filme «lento». Será um problema óptico, mas desculpem lá o mau jeito: na sua serenidade, «A Lenda de Bagger Vance» viaja a uma velocidade supersónica. É o agitado «Moulin Rouge» que parece uma matilha de caracóis.
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aliciat@portugalmail.pt |
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Robert Redford ou a Arte de captar toda a Magia, Beleza, Encanto, Paz e Mistério da Natureza, através da mestria de um estilo de realização muito característico.
Metáfora perfeita: O Golfe ou como somos, por vezes, as únicas barreiras a serem derrubadas nesse Jogo Sublime e de Mistérios insondáveis - A VIDA.
Elenco: actores no seu melhor.
Alicia Tavares |
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anadavid@clix.pt |
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Sensação saliente: Um certo realismo mágico excelentemente fotografado por Michael Ballhaus.
Demasiado clássico, no sentido mais formal da expressão, este último filme de Robert Redford assenta na arte de bem contar uma história cuja simplicidade é pincelada por uns traços de magia cativante.
Uma história de alguém que se reencontra consigo próprio vista pelos olhos exagerados de uma criança que o idolatra. Eis o pressuposto para uma viagem bem disposta (e bem filmada) pela competição (neste caso, o golf) e a capacidade desta ajudar a viver de acordo com os valores de cada um. Claro que a mensagem encerra uma dose de utopia infelizmente arredada da nossa realidade, mas o cinema serve também para isso. Para nos mostrar como as coisas poderiam ser, ou como elas são numa realidade paralela que podemos adoptar.
Similitudes com "Campo de sonhos" são iniludíveis, mas aqui vence a alegoria, já que diversos pontos do argumento lembram-nos estar na presença de algo irreal (mas não menos belo). Uma lenda. A dimensão quase imaterial de Bagger Vance (uma espécie de anjo da guarda, ou de consciência), a risível história de amor entre as personagens de Damon e Theron e o adocicamento geral de todas as arestas mais dramáticas do filme.
Ou não fosse uma narrativa despontada de uma infância deslumbrada. Um conto com muitos pontos acrescentados e com muitas passagens matizadas. E que matiz cria Michael Ballhaus para esta lenda cinematográfica. Uma das melhores direcções fotográficas do ano.
Não sendo um prodígio e podendo aborrecer alguns espectadores pelo seu ar démodé, esta é uma fita sedutora pela sensibilidade, pureza e visão romântica da vida.
Jorge Silva |
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joaquim.c.lucas@clix.pt |
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RECUPERAR A VIDA ATRAVÉS DO GOLFE
Filmes há em que escalpelizá-los racionalmente se revela uma tarefa muito mais do que dispensável intimamente rejeitável. Relembro ainda a sala escurecida quando, anunciando o términos do filme, surgiu o genérico final na tela. O posterior acender das luzes, as pessoas a abandonarem a sala, e eu continuando com o olhar preso no écran gigante. «A Lenda de Bagger Vance», é uma experiência do domínio dos sentidos, é um desprendimento emocional que se apodera de nós e é desencadeado pelo discorrer de uma história mística, de uma metáfora sobre a vida, ou sobre como renascer para a vida. E sim, se há coisas que não se aprendem necessitam unicamente ser relembradas, também existem reacções que não se explicam surgem simplesmente da emoção sentida.
O filme fala de Rannulph Junuh, o homem que um dia fizera sonhar a muito sulista e carismática Savannah. Apanhamos a sua história em plena depressão económica e enquanto veterano da 1ª Grande Guerra Mundial. Junuh é então um náufrago da vida, um homem psicologicamente perturbado esbracejando noites dentro em muito álcool e tentando manter-se à tona agarrado a um baralho de cartas. Numa espécie de fuga para a frente e antes quebrar que torcer, o seu antigo amor (uma belíssima Charlize Theron), procura salvar o sonho de uma vida - de uma vida que prossegue agora na sua depois do desaparecimento de seu pai - reerguer um enorme empreendimento turístico-desportivo ligado ao golfe, organizando um grande torneio. E é então que, ajudado por um místico “caddy” negro, por um pequeno jovem que o idolatra e sentindo renascer em si a sua antiga paixão, que Junuh intenta recuperar o seu golfe. Mas, muito mais que recuperar o seu jogo, o golfista prepara-se para se recuperar para a vida. E é disso, e da capacidade de se voltar a acreditar em si mesmo afastando fantasmas do passado mas não perdendo a arte da contenção, que nos fala este «A Lenda de Bagger Vance». Isto através de uma fotografia belíssima, de uma áurea intensa de nostalgia, de uma sensação forte de melancolia que se vai apoderando de nós.
«A Lenda de Bagger Vance» é um filme que de certa forma recupera o cinema mais clássico e que revela ainda as características mais salientes na filmografia do realizador Robert Redford. É um filme onde não existe a pretensão da intelectualidade, onde o original ou o erudito não têm lugar por opção. É um filme de uma encantadora simplicidade, que procura sobretudo mostrar o lado mais puro e importante de coisas que a exacerbada competitividade por vezes tende a esquecer.
[Enquanto relembrava tudo o que atrás descrevi e que resultou da minha emoção logo após o visionamento do filme, esqueci-me que o argumento é, aqui e ali, um pouco pobre; que apesar de passado em plena recessão económica e numa altura onde existiam ainda clivagens entre negros e brancos no sul dos Estados Unidos, o filme não questiona e nem se questiona; que para um sofrido e mergulhado no álcool veterano de guerra, o actor Matt Damon possui um perfil físico demasiado angelical. Esqueci-me e nem vou querer relembrá-lo, este filme pelo que proporciona em termos da satisfação do espectador, merece que não demos importância ao que noutros casos seria relevante mas que aqui perde qualquer significado.]
Joaquim Lucas, 2001.10.14
P.S. – «Pinóquio» é, para mim, uma referência incontornável nos filmes de animação. Não apenas pela extremada função didáctica que atinge nos mais pequeninos, como pela brilhante criatividade que fez de si um belíssimo filme que conta uma espantosa história. Vimos há pouco, em «A . I.: Inteligência Artificial», um pequeno robô que queria ser amado como se de um menino de verdade se tratasse. Tal como o menino de pau, Pinóquio, que se transformou, pela sua capacidade de amar, num menino de verdade. Em «A Lenda de Bagger Vance», existe um “caddy” místico (Bagger Vance, o próprio), uma personagem meio celestial que acompanha o golfista Junuh na sua recuperação para a vida. Quando este a atinge, Vance dá o seu trabalho por terminado e volta com um sorriso para o vazio desconhecido de onde chegou. É que, muito mais que um anjo da guarda, esta personagem lembra-me uma outra: a figurinha simpática que era a Consciência de Pinóquio e que sempre o acompanhava. Até que a sua missão ficou cumprida.
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ricardo.gross@fnac.pt |
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Diz-me como jogas, dir-te-ei quem és! O golfe, desporto do individualista e do cavalheiro, por excelência, serve de metáfora à própria vida no muito belo e mais recente filme de Robert Redford, “A Lenda de Bagger Vance”. O facto de se tratar de uma lenda, isto é, de um conto, de uma história transfigurada pelas tradições (pela tradição do cinema clássico da era de Frank Capra, é óbvio), de uma fantasia (ainda de acordo com definição retirada de um qualquer dicionário), inscreve neste filme uma demanda utópica que preenche grande parte da sua singularidade.
Redford apresenta-nos uma visão purificada do mundo em “A Lenda de Bagger Vance”. Um mundo onde não existem bons nem maus, antes pessoas onde convergem as facetas do herói e do seu próprio adversário. A história de Runnulph Junuh, exímio jogador de golfe caído em desgraça devido a traumas psicológicos que tiveram origem na sua participação na 1ª Guerra Mundial, é exemplar da aura mitológica de que o cinema sempre fez cobrir a história norte-americana.
Acontece que, colocando-se fora de qualquer distanciamento que pudesse dar origem a reacções igualmente preconceituosas, o filme de Redford, enquanto visão purificadora e utópica dos trajectos da história individual e colectiva, apela exclusivamente àquilo que em nós resta do ser humano nobre com forte sentido ético. Aquele que no interior das confusões e paradoxos da vida contemporânea, não encara esta como um desafio, para vencer ou ser vencido, mas antes como algo que deve sobretudo ser jogado, ser vivido.
Esta constatação serena que encontramos, no cinema americano presente, em apenas outro realizador – a saber, Clint Eastwood – é o que atribui a “A Lenda de Bagger Vance” as suas qualidades de relacionamento harmonioso com os actores (Damon, Smith e Theron, todos excelentes na sua subtil “star-quality”), com o belíssimo espaço natural que os rodeia (um extenso green de luxo, em Savannah, Geórgia) e com a própria matéria cinematográfica – convém aqui destacar a assombrosa direcção fotográfica de Michael Ballhaus. Se “O Encantador de Cavalos” era “As Pontes de Madison County”, de Robert Redford, talvez “A Lenda de Bagger Vance” seja o seu “Caçador Branco, Coração Negro”.
RG
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antunes725@yahoo.com |
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“Magic Time!” são as palavras com que “A Lenda de Bagger Vance” se inicia. Também eram as palavras ditas por Jack Lemmon antes de começar a filmar uma nova cena nos seus filmes e é ele que aparece à nossa frente. Graças a Robert Redford (numa feliz premonição), ficaram registadas para sempre essas palavras que o pai de Jack Lemmon lhe transmitiu e que ele usava antes da rodagem de todas aquelas cenas que deram origem a alguns dos melhores filmes que vimos nos últimos 50 anos.
Uma pessoa não deve ser dada a nostalgias em demasia, mas ver “A Lenda de Bagger Vance” fez-me entrar nesse estado de espírito. O filme presta-se a isso, já que, uma semana depois de “Inteligência Artificial”, estamos perante uma fábula de um homem que tem de se desafiar a si próprio… através do golfe para recuperar (salvar) a sua vida.
Mas a grande felicidade é ver Lemmon naqueles escassos minutos em que aparece, no início e no fim, e ouvir a sua voz como narrador o resto do tempo (normalmente não gosto de voz off, mas abro uma excepção). Jack Lemmon é “Hardy Greaves”, que sofre no início do filme o seu 5.º ataque cardíaco… todos ocorreram durante torneios de golfe (um prazer que o actor cultivava também na vida real e percebe-se assim a razão que o levou a associar-se ao filme) e ao deitar-se na relva, Hardy começa a recordar os acontecimentos da sua infância, quando conheceu o seu ídolo, um homem que teria uma grande importância na sua vida… na vida de muita gente.
Com 18 anos era o “golden boy” do golfe e estava noivo da rapariga mais bonita de Savannah: Rannulph Junuh tinha um grande futuro pela frente. Veio o envolvimento norte-americano na Grande Guerra (a guerra para acabar com todas as guerras) e Junuh (Matt Damon), como muitos da sua idade, alistou-se a partiu para as trincheiras francesas.
A guerra das trincheiras, como a própria ideia deixa antever, não foi uma verdadeira guerra, mas um inferno que ceifou a vida a uma boa parte da juventude europeia e mundial daquele tempo. E nesse inferno, a vida galante e paradisíaca que Junuh até então vivera vai sofrer uma alteração radical…
Após o fim da guerra, Junuh não consegue regressar a casa. Perante isto, Adele Invergordon (Charlize Theron), a rapariga com quem iria casar, torna-se sócia do pai e avança com a sua vida. Eventualmente, o capitão Junuh acaba por regressar aos Estados Unidos, mas apenas em 1928, traumatizado e amargurado com o que viveu. Reprime a que fora a sua noiva e refugia-se na bebida e no póquer, isolando-se da sociedade de que fora um dos mais distintos “filhos”.
Adele e o pai são apanhados pela Depressão de 1929, com um campo de golfe novinho em folha e sem clientes. Para os angariar (e pagar as dívidas), após o suicídio do pai, ela decide organizar um torneio de $10 mil dólares com os 2 maiores jogadores dos Estados Unidos. No entanto, torna-se essencial que alguém de Savannah entre igualmente no jogo para conquistar o interesse do público e a única pessoa que o podia fazer era Junuh.
Mas este perdeu o seu “swing” que, como o filme nos mostra, é muito mais do que o movimento que permite dar a pancada na bola de golfe. Para o ajudar a recuperar, surge do nada Bagger Vance (Will Smith), que se tornará no seu caddie (a pessoa que transporta o saco dos tacos e uma espécie de guia espiritual) e Hardy Greaves (aqui com 12 anos, interpretado por J. Michael Moncrief), um miúdo que é uma espécie de assistente de ambos. Embora ambos consigam pô-lo a jogar, algo mais terá ainda de ser feito, já que o Junuh de 1917, o campeão, não regressa mais e será então ao longo desse torneio que será feita a caminhada em direcção à paz e ao equilíbrio interior que procura.
“A Lenda de Bagger Vance” é um filme realizado por Robert Redford que chega a Portugal com um atraso de 11 meses, depois do seu fracasso financeiro (custou $60 milhões, rendeu metade) e ainda piores críticas (nota: estive a ler agora algumas e acho que o filme foi sabotado). Como em muitos filmes sobre desporto feitos antes, o pretexto é falar sobre a espiritualidade da vida usando um desporto como metáfora misticista. Assim, da mesma forma que “Duas Vidas e o Rio” não era um filme sobre pesca à linha ou “O Encantador de Cavalos” sobre cavalos, “A Lenda de Bagger Vance” não é sobre golfe, mas sim sobre um indivíduo numa encruzilhada perante a qual terá de aplicar toda a sua energia para se transcender.
Redford conseguiu mostrar isso mesmo de forma muito convincente no filme de 1992, protagonizado por um ainda pouco conhecido Brad Pitt; em “A Lenda de Bagger Vance”, o seu 6.º filme como realizador, não terá sido tão bem sucedido. Mas a nostalgia está lá e é convincente (como são, em geral, todos os filmes que se passam no sul dos Estados Unidos), a reconstituição da época é irrepreensível, assim como a fotografia do grande Michael Ballhaus (a banda sonora de Rachel Portman é um pouco óbvia) e a realização de Redford é clássica e elegante (como sempre), criando imagens lindíssimas, passando pelo filme um certo espírito de “Campo de Sonhos” ou “Um Homem Fora de Série” (este com Redford actor, mas sendo o baseball o jogo).
É um pouco dificil falar do filme racionalmente, pois gostei bastante dele emocionalmente. Mas indo pela parte racional, o grande problema d´ “A Lenda de Bagger Vance” é uma parte do argumento quase desastroso, numa adaptação a cargo de Jeremy Leven (“Don Juan De Marco”), em que é difícil acreditar que não tenha conseguido escapar às armadilhas que o romance de Steven Pressfield eventualmente encerrava.
Ok, o filme é bonito e o trama que avança ao mesmo tempo do golfe nunca é aborrecido (nem o golfe, o que é um alívio, considerando que já sabemos como isto vai acabar), além de que consegue lidar com a questão espiritual de forma mais ou menos convincente. Isto talvez se deva a Will Smith e ao seu underacting, no que é a melhor interpretação que lhe vejo em muito tempo (talvez desde “Seis Degraus de Separação”, já de 1993). Embora eu não possa dizer que ele o tenha tornado inesquecível, “Bagger Vance” é uma interpretação muito boa, naquele misto de sabedoria do golfe e da vida que Michael Clarke Duncan já tinha feito no “À Espera de Um Milagre”. Uma maravilha, não haver racismo na Georgia dos anos 30…
O problema é que existem alguns pontos fracos na lógica ao longo do filme que talvez justifiquem, senão o seu fracasso junto do público, pelo menos a ausência nas listas a considerar para a atribuição de prémios no final do ano. Por exemplo: Junuh regressa ao fim de 10 anos, passa 3 a enfrascar-se e no dia D está pronto para jogar. Eu até posso aceitar que uma pessoa passe 3 anos bêbado e consiga que isso não se manifeste na sua cara e que se apresente bonitinho numa questão de dias, acho é esquisito que o filme não o mostre a beber durante o torneio. Repare-se, metade do filme é sobre o torneio de dois dias e só o vemos beber um copinho no final do primeiro dia.
Mas “A Lenda de Bagger Vance” não é sobre isto e vamos acreditar por um momento que a espiritualidade da questão o faça esquecer a bebida ou mesmo que ele ainda não estivesse afectado pelo álcool ao ponto de se considerar uma doença. Vamos acreditar que basta algo do género: o golfe é um jogo “que não pode ser ganho, apenas jogado” ou que o que aconteceu não foi “há muito tempo”, foi apenas “há um momento atrás”.
Sobra o grande buraco, o único que não posso esquecer, que é a forma inacreditável como o argumento lida com o casal, com o “amor” entre duas pessoas que o destino separou e em que uma delas esteve ausente durante 10 anos sem dizer “água vai”. O par Damon-Theron é bonito e funciona bem nas poucas cenas em que estão verdadeiramente juntos (a melhor de todas é quando ela o visita à noite e lhe oferece sexo em troca da sua participação no torneio). Mas a dor de uma mulher é assim tão facilmente esquecida? A dor de ambos não se resolve com meia dúzia de palavras ditas numa conversa no banco do jardim ou atrás de uma árvore, mas quase parece? Será que temos de aceitar que enquanto se vai descobrindo o “velho” Junuh nas tacadas entre os vários buracos, varre-se dela pura e simplesmente todo o ressentimento? O filme justifica melhor a recuperação dele do que a dela…
Pronto, vamos aceitar tudo isto. Porque não, se o filme transcende em muito estas coisinhas? Quem é que me diz que, daqui a 20 anos, a minha experiência de vida não ajuda a explicar tudo isso? Para já, “A Lenda de Bagger Vance” é a memória de filmes que o “vento levou” (mas longe de apenas ser isso), tem um charme quase irresistível e tudo o que escrevi atrás ocorreu-me depois das luzes da sala se acenderem, após duas horas de puro prazer com esta fábula.
Podemos perguntar-nos que filme teria saído se, em vez de Matt Damon e Will Smith, estivessem Robert Redford e Morgan Freeman, como o primeiro pensou fazer inicialmente, mas não vale a pena. Vamos apenas agradecer que um filme de duas horas em que muito pouco “realmente” acontece não seja aborrecido, que os últimos 20 minutos sejam bons e que não hajam explosões nem acontecimentos tão inesperados quanto implausíveis, que demora exactamente o tempo certo a contar a sua história.
Matt Damon já teve interpretações melhores e as suas deficiências notam-se principalmente no período amargurado, mas vamos culpar o argumento (é melhor, pois o coitado esteve em 3 fracassos o ano passado: “A Lenda de Bagger Vance”, “Titan AE” e “Belos Cavalos”, este já em vídeo). Embora Damon realmente pareça um golfista, o argumento nunca nos permite entrar completamente na complexidade do seu Junuh, o que, quanto a mim, foi uma oportunidade perdida.
Por aquilo que disse atrás, Charlize Theron tem uma personagem ingrata, mas pelo menos não morre no final do filme, embora ainda não seja desta que eu fique extasiado com algo mais que a sua beleza. Já o miúdo J. Michael Moncrief deve ser alvo de todos os elogios, pois é excelente, o melhor do filme e que deixaria outros profissionais envergonhados.
Todos os secundários são igualmente interessantes, mesmo que em personagens de cartão. Um destaque especial para a caracterização das lendas reais do golfe, principalmente a que está a cargo de Bruce McGill (que alguns se lembrarão como “Dalton”, o amigo maluco de MacGyver ou no seu papel em “O Informador”) e que aqui interpreta Walter Hagen com um prazer evidente.
Bagger Vance despede-se de Junuh. Vira-se para Hardy Greaves, dizendo-lhe que se voltarão a encontrar. Quando o filme regressa a Jack Lemmon, este levanta-se da relva novamente, depois de sobreviver a mais um ataque, pega no saco dos tacos e rume em direcção ao sol que se põe e ao encontro de alguém que acena, ao mesmo tempo que a câmara se afasta.
Estamos perante o momento mais bonito que Redford criou. Não porque eu esteja a ver Bagger Vance, mas precisamente porque não estava a ver Hardy Greaves, mas sim um homem que sabia (tinha que saber) que estava perto do fim da vida e continuou a trabalhar até ao último momento. E isso comoveu-me… “A Lenda de Bagger Vance” foi o último filme de Jack Lemmon. “Magic Time” de facto…
Nuno Antunes (4/10/2001)
3,5 em 5 |
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