Singularidades de uma Rapariga Loura

Título original: Singularidades de uma Rapariga Loura
Título (Brasil):
Realização: Manoel de Oliveira
Intérpretes: Catarina Wallenstein, Ricardo Trêpa, Diogo Dória, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Rogério Samora
Portugal, 2009
Estreia: 30 de Abril de 2009


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Numa viagem de comboio para o Algarve, Macário conta as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora: Mal entra para o seu primeiro emprego, um lugar de contabilista no armazém em Lisboa do seu tio Francisco, apaixona-se perdidamente pela rapariga loira que vive na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conhece-a e quer de imediato casar com ela. O tio discorda, despede-o e expulsa-o de casa.

*****

* Manoel de Oliveira, Catarina Wallenstein, Ricardo Trepa e Diogo Dória no Cinema2000.




Eurico de Barros
O primeiro escrito realista de Eça de Queirós, datado de 1873 e publicado originalmente no DN como oferta aos leitores, é adaptado aos nossos dias por Manoel de Oliveira num curto filme de uma hora, cheio de saborosos anacronismos, como a corte "à antiga" que Macário (Ricardo Trêpa) faz a Luísa (Catarina Wallenstein) ou o sarau musical e literário saído do século XIX. Uma belíssima miniatura cinematográfica.

(Diário de Notícias, 1 de Maio de 2009)


jorge araújo
SOM:A gravação da voz é horrível. O português já é uma língua muito fechada e os actores têm aversão a falar com naturalidade. Tudo isso combinado com a má qualidade do som, faz com que uma parte importante do filme esteja perdida.
IMAGEM: Planos fixos, para ser coerente. A câmara quase não se movimenta, mas quando o faz não é de forma relevante.Porquê a aversão aos movimentos de câmara? A mais distraem o espectador e são só fogo de vista, mas a menos pode empobrecer a narrativa: neste caso empobrece a construção das personagens,o que para um texto de Eça é uma perda.
O filme é visualmente desatraente, muito aborrecido e a ironia dramática não tem força suficiente. E a mordacidade queirosiana também não morde.
Citando as palavras de algum cinéfilo anónimo, "devolvam-me o meu tempo perdido!"


Paulo Lopes
Um filme povoado de anacronismos - saborosos, de acordo com Eurico de Barros,ou toscos, como sugere o comentário de João Mendes. Com alguma piada, temos o beijo no átrio do prédio; com alguma verve, o sarau (com o habilidoso - mas inútil e insólito - pormenor do tremor das mãos de Luís Miguel Cintra segurando o livro). Porém, a maior parte das falas e das interacções sociais parecem mesmo - eu diria surpreendentemente, se não fosse uma ironia um pouco pesada - mesmo do século XIX! Ou seja, é quase toda a dinâmica dramática do filme.
Desde "A Carta" (muito melhor pespontado) que não via nenhum filme do Manoel de Oliveira; a minha impressão é sensivelmente a mesma: a filmagem, tecnicamente, é muito atractiva, mas a direcção de actores é inábil e inadequada, os seus argumentos (ou as suas adaptações) são pavorosamente ineptos.


João Mendes
A contradição é sugestiva: a forma como, numa Lisboa moderna, o pequeno conto de Eça de Queirós consegue transportar uma moral mais impressionantemente actual que a própria visão de Manoel de Oliveira é desarmante: para todos os efeitos, a maneira como o realizador filma a adaptação, por ele mesmo feita, é perfeitamente anacrónica. E não no bom sentido.

Cheio de imagens hieráticas, sob a concepção de uma câmara austera (quando Trêpa dança no escritório, a cena, querendo ser cómica, é, pior do que isso, involuntariamente cómica) e com actores que comparam diálogos a altivezes, o filme apenas não descamba porque o anacronismo, apesar de bafiento, é o que dá peso a alguns momentos: a apresentação de Luísa, personagem de Catarina Wallenstein (que já aprendeu o valor seráfico do rosto “oliveiriano”) é uma pequena delícia de sedução e mistério algo infantis, e tem graça o desengraçado Trêpa mostrar-se meio atarantado com a pequena.

De resto, para além da citação a la Griffith, com o beijo omisso a envergonhar a câmara que foca os pés dos amados, de uma mofenta prolepse com Leonor Silveira e de alguns plano fulgurantes, fulgores esses talvez exagerados para a simplicidade do conto de Eça, mas não exagerados ao ponto de não se admirarem, temos de esperar até ao fim da hora de metragem para o seu momento mais assombroso: o de Macário comprar o anel de noivado apenas para se desobrigar de Luísa, rapariga que, para além de ser loura, não tem só singularidades: os seus caprichos “queirosianos” são o que de maior realce Oliveira não desfalcou.

E numa experiência pessoal que me valeu de pouco, valha-me isto: o de considerar Queirós como um progressista, ao contrário de Oliveira, um regressista, num filme que foca, mesmo que inconscientemente, o impossível encontro entre os dois.


Sérgio Santos
Eu confesso que não sou muito fã de Manoel de Oliveira, mas afirmo que é uma honra assistir a um filme desse senhor, o realizador mais antigo ainda no activo. Da longa carreira dele, só gostei de três filmes: “Aniki Bóbó”, “Vale Abraão” e “Um Filme Falado”. Detestei aquele filme dele que se chama “O Quinto Império, Ontem Como Hoje”, aliás, para mim, esse é o pior filme dele. Eu diria que Manoel de Oliveira tem um jeito muito peculiar e particular de filmar os seus filmes. Não percebo porque motivo, este “Singularidades De Uma Rapariga Loira” é detentor de somente 64 minutos de duração. O filme não é nada de especial, mas gostos não se discutem. Também não entendo porque motivo ele escolhe quase sempre os mesmos actores e actrizes para desempenhar os papeis nos seus filmes, nesse campo, Portugal já evoluiu bastante, temos muitos bons talentos no país, metade deles são jovens, que começaram em novelas. Não percebo porque motivo, o realizador centenário não faz um filme, por exemplo, baseado num drama urbano real ou numa história de amor. Não percebo porque motivo, Manoel de Oliveira não faz um filme destinado ao público actual, um drama actual. Mas todos os actores e actrizes estão de parabéns, porque fizeram um excelente trabalho neste filme.

PS: Recentemente vi um filme, que não posso deixar de o comentar neste espaço, já que a ficha do mesmo não se encontra disponível neste site. Trata-se do excelente filme, “The Fall – Um Sonho Encantado”, realizado por Tarsem Singh e protagonizado por Lee Pace e pela pequena e talentosa Catinca Untaru. Meu Deus, que excelente filme, uma obra prima do cinema recente. O filme é de uma qualidade extrema e de uma sensibilidade exímia. Recomendo a toda a gente que alugue este filme.


     
 

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