Título original: Caos Calmo
Título (Brasil):
Realização: Antonello Grimaldi
Intérpretes: Nanni Moretti, Valeria Golino, Isabella Ferrari, Alessandro Gassman, Blu Yoshimi, Hippolyte Girardot, Kasia Smutniak, Denis Podalydès, Charles Berling
Itália, 2008
Estreia: 18 de Dezembro de 2008
Média dos Espectadores
Frequentemente, Pietro é acometido de uma estranha mistura de caos e calma. Desde a morte da sua mulher que não tem paz. Lara morreu, inesperadamente, num dia de Verão. Pietro não estava em casa, na altura. Estava na costa, a salvar a vida de uma outra mulher, uma desconhecida. Um dia, quando está a levar a filha à escola, Pietro decide esperar por ela no carro. E continua a fazer o mesmo nos dias que se seguem. Escondido no seu automóvel, começa a observar o ambiente e descobre os refúgios dos outros. Os seus patrões, colegas e familiares aparecem para reconfortá-lo. Mas a única coisa que conseguem fazer é falar-lhe da sua própria dor sem limites e fugirem da sua incompreensível calma. No entanto, Pietro começa lentamente a recuperar.
O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 24 de Dezembro de 2008, com o título `Filme italiano encena invulgar situação de luto`.
De que falamos quando falamos de felicidade? Afinal de contas, a pergunta não é filosófica, mas eminentemente prática. É uma pergunta que, todos os dias, nos entra pelas nossas casas através de telenovelas e anúncios de telemóveis, nas palavras de políticos e figuras do jet-set: todos falam da sua felicidade e, por vezes, garantem-nos mesmo que têm receitas para a nossa felicidade...
Se outras razões não houvesse, estas bastariam para fazer de «Caos Calmo» um filme eminentemente actual. Nele se conta a história de Pietro Paladini, administrador de uma empresa de televisão (o pormenor não será secundário) que, na sequência da morte acidental da mulher, passa a viver uma estranha rotina: todos os dias acompanha a filha Claudia ao colégio, sem depois se dirigir ao emprego; fica no jardim em frente ao colégio, vai lendo, frequentando o café, conhecendo pessoas. Com o decorrer dos dias, Pietro acaba mesmo por ir recebendo colegas e familiares, como se tivesse criado um novo "escritório" que tem tanto de posto profissional como de confessionário.
Produção italiana apresentada no Festival de Berlim do passado mês de Fevereiro, «Caos Calmo» está, em termos temáticos, muito próximo do padrão de telefilmes familiares que faz parte da produção regular de algumas televisões europeias (nomeadamente em Itália e França). Em todo o caso, demarca-se das suas convenções e do seu determinismo, antes do mais graças a um trabalho de argumento que em nenhum momento procura encerrar as personagens em "modelos" dramáticos ou moralistas.
E se é verdade que a realização de Antonello Grimaldi (precisamente alguém com experiência dividida entre cinema e televisão) possui a vantagem da sobriedade, não é menos verdade que é difícil imaginar «Caos Calmo» sem a muito contida, e também muito subtil, composição de Nanni Moretti na personagem de Pietro. Moretti consegue colocar em cena o desconcertante paradoxo de um homem dividido entre as obrigações sociais que decorrem do seu próprio luto (de acordo com as regras desse luto, as outras pessoas esperam que ele se comporte de forma "lógica") e a súbita descoberta de um vazio interior que, afinal de contas, ele próprio desconhecia.
Ao contrário de uma telenovela, a história de «Caos Calmo», adaptada de um romance de Sandro Veronesi, não se encerra num esquema de "soluções", "inocentes" e "culpados" (mesmo se é verdade que o tema da culpa perpassa por todo o seu desenvolvimento). O filme acaba mesmo por possuir a transparência simples, porventura naïf, de um retrato social que, para lá do jogo das aparências, nos revela a solidão das suas personagens. Talvez possamos defini-lo como um conto moral cuja "mensagem", algo irónica, está condensada no próprio título: este é um sistema de relações profundamente abalado nos seus valores e certezas e, ao mesmo tempo, um universo que se distingue por uma bizarra e contagiante serenidade. Dito de outro modo: mesmo sob o efeito normativo da televisão, o cinema social italiano continua vivo.
cabirius
Tal como "O quarto do filho" um filme sobre a perda e o processo de cura, mas ao contrário deste, nada opressivo e desesperado. È um caos calmo, resignado mas de certa maneira optimista. Moretti apresenta-se aqui contido, preciso, humanizado (brilhante a cena de sexo).Uma prestação que pega no filme e o torna seu.Nunca um filme sobre o luto transmitiu tanta alegria de viver.
José Machado
Fazer um filme não é fácil, contudo este de início parece prometer uma história com interesse mas que descamba numa "seca" monumental recorrendo a lugares comuns, Fusão - Não Fusão,e que, quando estamos quase nos braços de Morfeu nos abana com uma cena inesperada (solução fácil metida à pressão) de sexo, precedida de um seco telefonema "podes vir", solução fácil pensarão o realizador e o produtor mas que se encontra completamente desenquadrada da história.
Torres Peixoto
Uma história de extrema dignidade cujo alcance não se compadece com o cinismo e os problemas da actualidade. Não é realizado pelo Moretti mas encaixa perfeitamente no seu universo.
Nuria Amaral
Uma pérola da sétima arte. Um grande filme.
Rui Pinto
O que promete de início perde-se em banalidades de origem americana e em pontapés no argumento.
Uma mão cheia de nada. Se não fosse Moretti nem sequer haveria mão.
Sérgio Santos
Excelente filme. Adorei este filme realizado por Antonio Luigi Grimaldi e poderosamente interpretado por Nanni Moretti e por Blu Di Martino. O filme é baseado num livro escrito por Sandro Veronesi. Fiquei supreendido com este pequeno filme. Nanni Moretti é um bom realizador, e eu apenas vi três filmes dele: “Caro Diario”, “Aprile” e “Il Caimano”. Ele é um bom actor e um excelente realizador. Basicamente, “Caos Calmo” relata a história de um homem, Pietro Paladini, que leva uma vida normal com a esposa e com a filha, Claudia, um dia, a esposa morre e Pietro vê-se sozinho no mundo a criar a sua filha. Pietro pede uns tempos no emprego e passa a dedicar os seus dias a deambular pelo grande jardim que fica em frente à escola da filha, vai conhecendo o quotidiano de algumas pessoas que por ali desfilam diariamente, como por exemplo, uma mãe que passa por ali com o seu filho deficiente ou Jolanda, uma jovem que passeia o seu cão no jardim. Pelo meio, arranja tempo para se encontrar com o irmão e com algumas pessoas relacionadas com o seu emprego.
O filme conta também o quotidiano de Pietro com a filha, Claudia. Nanni Moretti e Blu Di Martino possuem poderosas interpretações e demonstram na perfeição a empatia que nutrem um pelo o outro, como pai e filha, na história, claro. Quem me dera que todos os pais fossem assim com as (os) suas (seus) filhas (filhos). Como eu já disse, a história de “Caos Calmo” está espectacular e o filme consegue cumprir os seus objectivos, enquanto drama. É um poderoso drama sobre uma tragédia que sucedeu a uma família como outra qualquer e conta a forma como um pai e uma filha dão a volta ao problema gerado pela ausência da mulher da casa. Ela torna-se numa menina muito amiga do pai e ele decide proteger a filha de tudo e de todos, passando os dias no jardim que fica em frente à escola, durante todo o tempo em que ela está nas aulas. É um pai muito dedicado à sua filha.
Adorei a presença do realizador Roman Polanski no papel de Steiner. Em resumo, trata-se de um filme excelente, muito bem interpretado e realizado, uma surpresa neste final de ano, um dos melhores filmes de língua não americana que eu já vi até agora. “Caos Calmo” vai direitinho para a minha lista de filmes preferidos e para a lista dos melhores filmes estreados em 2008 em Portugal. Um dos melhores filmes de Nanni Moretti.
Luís Diogo
CAOS CALMO - Dispensável.
tenho dito que embora o cinema Americanop esteja algo em baixo, o cinema não americano anda mil vezes pior. Já não aparecem bons filmes europeus como era normal há alguns anos.
Moretti era um exemplo dessa onda europeia. O seu QUERIDO DIÁRIO é um filme que já vi 4 vezes.
Sei que este filme não é realizado por ele, mas esperava bem melhor. É um filme televisivo, com simbologias forçadas, e sem nos fazer sentir absolutamente nada seja pelo que for. Vive de coincidências impossíveis e não consegue criuar um mundo credível. Toda a conversa sobre a Fusão das duas empresas, é claramente superficial e cheia de lugares comuns.
O filme a certa altura perde completamente o rumo e qualquer razão para continuar. Prolonga-se, sabe-se lá porquê. Mas quando acaba, acaba mesmo. Não fica na nossa mente nem mais um minuto.