Angel – Encanto e Sedução

Título original: Angel
Título (Brasil):
Realização: François Ozon
Intérpretes: Romola Garai, Lucy Russell, Michael Fassbender, Sam Neill, Charlotte Rampling
Bélgica/Grã-Bretanha/França, 2007
Estreia: 15 de Maio de 2008

Crítica de: Jorge Pinto


Eurico
de Barros
Média dos
Espectadores
   
 
Inglaterra, 1905: Angel Deverell é uma jovem escritora dotada. Que sonha com o sucesso, a fama e o amor. Mas o que acontecerá se todos os seus sonhos se concretizarem?

*****

* François Ozon e Romola Garai no Cinema2000.


Torres Peixoto
Um filme simplesmente piroso, previsível e muitíssimo aborrecido.


Paulo Ferrero
O pior deste filme é mesmo tentar descobrir a fronteira entre a «charge» deliberada aos filmes puxa lágrima, de cariz mais ou menos novelesco de cordel, e o deliberado e extremado melodrama, tão ao gosto do cinema de bom gosto do novel e assombroso cineasta de mulheres, François Ozon, de seu nome.

Ou seja, enquanto sátira inteligente às adaptações, mais ou menos feéricas dos livrinhos de Barbara Cárter & Cia., «Angel» aguenta-se bem durante hora e meia. Mas, quando, aparentemente, o filme se toma a sério, a coisa descamba e nem mesmo o requinte da produção, dos interiores, do guarda-roupa, da recriação de época, e do registo do actores, faz com que o enfado persista. Um filme bonito mas piroso.

Cine-Australopitecus


JORGE PINTO (Cinema2000)  
O realizador francês François Ozon procura outro rumo na sua carreira com «Angel», uma sátira melodramática de época que resulta da adaptação do livro da escritora Elizabeth Taylor sobre a ascensão e queda de uma jovem rapariga que ambiciona fama e fortuna através da sua escrita. Inspirado nos épicos romanescos dos anos 1930/1940, o filme, na sua forma e conteúdo, tenta ser o mais fiel a este tipo de cinema. Para que o registo funcione nas nossas mentes, é fundamental que nos deixemos levar para um universo faz de conta que roça por vezes o absurdo.

Angel (Romola Garai) é uma ambiciosa jovem que frequenta o liceu e tem uma imaginação demasiado fértil no que toca à escrita. Ela “escreve e escreve” e, como diz a sua mãe, “arrepia o que vai sair daquela caneta”. Theo (Sam Neill), um editor de Londres, torna-se a sua fada mágica quando aceita publicar o seu livro popularucho. Este encontro transforma a vida de Angel, é o início do seu sonho tornado realidade. Num jantar com Hermione (Charlotte Rampling), a mulher de Theo, esta questiona a imaturidade da escrita de Angel, que é de tal modo galopante que possui traços desconcertantes: em "Urania", o seu primeiro livro, um personagem abre uma garrafa de champanhe com um saca-rolhas. Em jeito de fast forward, a narrativa avança e observamos a opulência do seu sucesso literário: ela é amada pelas massas, tudo em resultado de uma escrita banal. Mas na exploração da pequenez da condição humana, encontramos a arte de Angel.

A imaginação de Angel salta para além do papel e invade o seu espaço. A personagem pode ser tosca, mas não é idiota. Ela sabe o que quer e torna-se a senhora do seu novo domínio: Paradise House (reparem no nome), uma casa de campo impregnada de papagaios, pavões e cães dignos de retratos da feira de Carcavelos. É um mundo kitsch assinado por Ozon.

A sátira procede a um passo galopante quando Angel conhece Esme (Michael Fassbender), um pintor sem pinta de originalidade que abana o seu mundo. A sequência da declaração e pedido de casamento é um must: num instante o céu cinzento transforma-se em chuva para dar lugar a um arco-íris e terminar com um raio de Sol, tudo encadeado em dois minutos. As tiradas de humor continuam com a mãe de Angel que, pelas palavras da filha, é uma pianista famosa, quando de facto sempre trabalhou atrás de um balcão. A protagonista já não escreve ficção, ela cria a ficção em seu redor.

O drama anda de mãos dadas com a comédia e a catadupa de acontecimentos na vida da protagonista é típico deste registo, que mais parece um melodrama de Bollywood, de tantos infortúnios que acontecem à estrela da literatura pimba. «Angel» não tem pretensões moralistas ou alguma mensagem, é um épico suave de Francois Ozon. Dennis Lenoir (director de fotografia) recria a atmosfera da época edwardiana, Pascaline Chavanne no guarda-roupa e Katia Wyszkop na produção dos cenários estão em grande na concepção dos aspectos envolventes aos personagens.

Não é difícil viajar pelo mundo de Ozon e de Angel, aliás, é algo divertido. Se tivermos na memória os clássicos do género, o resultado não podia ser mais excêntrico.


     
 

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