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Tudo o que Perdemos
Título original: Things We Lost in the Fire
Título (Brasil):
Realização: Susanne Bier
Intérpretes: Halle Berry, Benicio del Toro, David Duchovny, Alison Lohman, Omar Benson Miller, John Carroll Lynch
Estados Unidos/Grã-Bretanha, 2007
Estreia: 24 de Abril de 2008
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Média dos Espectadores |
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Audrey e Brian Burke têm um casamento feliz há 11 anos e são pais de dois filhos. Quando Brian morre ao tentar defender uma mulher que estava a ser atacada pelo seu marido, Audrey fica perdida. Num impulso, recorre a Jerry Sunborne, um viciado em drogas que era amigo do seu marido desde a infância, convidando-o a mudar-se para um quarto adjacente à sua garagem, na esperança de que ele a possa ajudar a enfrentar a sua súbita perda.
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* Susanne Bier, Halle Berry, Benicio Del Toro e David Duchovny no Cinema2000. |
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António Mercês |
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O Fogo Purificador
“Tudo o que Perdemos” revela-se como uma profunda reflexão acerca daquilo que é (se há alguma forma de definição possível ou totalmente abrangente) a existência humana.
Aquilo que é tido como garantido, uma existência estável, um casamento feliz, uma descendência adorável, um cenário aprazível a um bom equilíbrio emocional. Algo próximo daquilo que é o verdadeiro conceito de Felicidade (se o mesmo existir efectivamente, na sua acepção mais primordial – quem sabe…)
Tudo isto é súbita e violentamente segado por um fatal acaso do destino, o qual separa para sempre (pelo menos a um nível físico) o casal que partilhava em comunhão esta agradável existência. Ironicamente, ao tentar praticar o Bem ao próximo, procurando valer-lhe da melhor maneira que sabia e podia, de acordo com os recursos que tinha ao seu dispor. Esta fase da narrativa fílmica deixa-nos a pensar até que ponto será viável tentarmos praticar o Bem, ou até que ponto esse exercício não estará eventualmente condenado a priori ao fracasso, podendo eventualmente (como foi o caso) de esse mesmo esforço que se revelará inglório virar-se contra nós próprios, contribuindo assim para a nossa destruição.
Contudo, esse esforço aparentemente inglório frutificará, na medida em que o altruísmo tem necessidade de se continuar a manifestar. A um primeiro nível compelido, é verdade, pelo interesse da expiação de uma consciência pesada devido a um mau julgamento moral, bem como por comiseração (nestes casos é muito ténue a fronteira entre a espontânea vontade em valer ao próximo e a corriqueira “peninha” que se sente por alguém mas que, na prática, acabamos por nada fazer para evitar ou aplacar o sofrimento de quem em dificuldades se encontra). No entanto, a um segundo nível esse mesmo altruísmo já é sincero, não só pela amizade que continua a manifestar-se (desta feita transmitida do falecido marido para a respectiva mulher que por cá ficou), mas também pela tensão provocada pela crescente atracção física existente entre o melhor amigo e a mulher do defunto.
Aquele que é alvo do altruísmo também tem a sua oportunidade de retribuir o Bem que lhe estão a proporcionar, não só por se estar a empenhar numa total recuperação da toxicodependência (apesar de uma recaída – fazem sempre parte do percurso, independentemente dos contextos…), mas também por corresponder a uma imagem (apesar de esbatida, mas no fundo não era essa a verdadeira intenção do mesmo, pois tal iria constituir-se como uma traição à memória do amigo morto) do pai e do marido recentemente desaparecido.
Este filme trata-se de um brilhante exemplo da necessidade que os humanos têm em se reinventar perante as adversidades que fazem parte do percurso denominado Vida. Por muito esmagadoras que as mesmas possam parecer a um primeiro nível, logo após o choque inicial, há que se ter a perseverança, coragem e vontade necessárias para se continuar a viver com a dignidade suficiente para que o percurso continue a fazer sentido (senão, não valerá a pena).
A imagem do fogo. O fogo que tudo consumiu. Que deitou por terra algo que estava estabelecido, algo que era seguro e confortável. No entanto, qual Fénix das cinzas renascida, é esta mesma metáfora que acabará por atribuir um novo significado às coisas: precisamente a necessidade de se continuar em frente, independentemente do tamanho da adversidade (por muito titânica que a tarefa possa parecer). Pois a Vida e o Mundo não podem parar. Por ninguém. Cabe-nos a nós, comuns mortais, saber acompanhar esse ritmo frenético – da melhor maneira que sabemos e podemos.
Benicio del Toro está igual a si próprio, ou seja, extraordinário.
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