No Vale de Elah

Título original: In the Valley of Elah
Título (Brasil): No Vale das Sombras
Realização: Paul Haggis
Intérpretes: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin
Estados Unidos, 2007
Estreia: 7 de Fevereiro de 2008


Eurico
de Barros
João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
No seu primeiro fim-de-semana após regressar da sua comissão no Iraque, Mike Deerfield desaparece e é pronunciado ausente sem licença pela sua unidade militar. Quando Hank, um retirado Polícia Militar, e a sua esposa Joan recebem o telefonema com a perturbante notícia, Hank parte para encontrar o seu filho. Emily Sanders, uma detective da polícia na jurisdição em que Mike foi visto pela última vez, relutantemente ajuda-o na sua busca...

*****

* Paul Haggis, Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, James Franco e Jason Patric no Cinema2000.

*****

Nomeações para os Oscars (1)

* MELHOR ACTOR PRINCIPAL, Tommy Lee Jones


Eurico de Barros
O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 13 de Fevereiro de 2008.

O novo filme de Paul Haggis tem Tommy Lee Jones no papel de um militar reformado, cujo filho, recém-regressado do Iraque, é assassinado e mutilado perto da sua base. O pai decide investigar o caso, auxiliado por uma agente da polícia (Charlize Theron). Sem cair no melodrama nem fazer comício, Haggis filma os efeitos devastadores da guerra na rectaguarda. Tommy Lee Jones é um monumento às virtudes do underacting.


João Lopes
O texto seguinte foi publicado no jornal Diário de Notícias a 7 de Fevereiro de 2008, com o título `O Iraque visto de Hollywood`.

Por mais estranho que possa parecer, o novo filme de Paul Haggis, «No Vale de Elah», foi objecto de alguma marginalização comercial nos EUA. Não se trata de um processo de censura, mas de um discreto apagamento: apesar de contar com estrelas como Tommy Lee Jones, Susan Sarandon e Charlize Theron, o filme estreou em 762 salas, o que corresponde a menos de um terço dos mais importantes lançamentos nacionais. Nem mesmo a nomeação de Tommy Lee Jones para o Óscar de melhor actor alterou a situação.

Estamos a falar, convém sublinhá-lo, do trabalho de um autor consagrado pela Academia de Hollywood. Haggis é o argumentista/realizador de «Colisão», consagrado nos Óscares como melhor filme de 2005 (batendo, entre outros, «O Segredo de Brokeback Mountain»), tendo ainda o seu nome ligado aos argumentos de três títulos de Clint Eastwood: «Million Dollar Baby», «As Bandeiras dos Nossos Pais» e «Cartas de Iwo Jima». A confiança que a grande indústria nele deposita está bem expressa no facto de surgir envolvido na escrita de «Quantum of Solace», a nova aventura de James Bond com estreia prevista para o final do ano.

Que se passa, então, com «No Vale de Elah»? Acontece que nele está em jogo a presença militar americana no Iraque. E não tanto como memória dos próprios combates. De novo com um argumento de sua autoria (a partir de uma história co-escrita com Mark Boal), Haggis propõe um desvio que tem tanto de dramaticamente subtil como de simbolicamente perturbante. Esta é uma história da retaguarda, já que tudo começa com o desaparecimento de um soldado (Jonathan Tucker) nos EUA: regressado de uma missão no Iraque, não visita os pais (Jones/Sarandon), desencadeando uma procura angustiada, até porque o pai tem acesso a imagens do Iraque que o filho registou no seu telemóvel.

«No Vale de Elah» surge com uma visão crítica que é tanto mais forte quanto dispensa qualquer facilidade panfletária. Há, aqui, uma dimensão humanista que transfere a guerra do aparato “espectacular” das televisões para o domínio íntimo e sofrido das pessoas comuns (afinal de contas, na sua mais básica definição dramática, esta é a história de um pai e uma mãe à procura do filho). Nesta perspectiva, podemos dizer que o filme de Paul Haggis recupera toda uma tradição histórica e crítica do cinema americano que possui um capítulo fundamental nas muitas abordagens dos traumas da guerra do Vietname. E não apenas através de títulos míticos como «O Caçador» (1978), de Michael Cimino, e «Apocalypse Now» (1979), de Francis Ford Coppola. É preciso recordar também a herança de alguns “pequenos” filmes independentes como «The Visitors» (1972), de Elia Kazan, ou de outros dramas da retaguarda como o emblemático «O Regresso dos Heróis» (1978), de Hal Ashby.

Será que a nomeação de Tommy Lee Jones (a única que o filme obteve) poderá traduzir-se numa outra visibilidade para o filme? Será difícil, quanto mais não seja porque as nomeações de Daniel Day Lewis («Haverá Sangue»), Johnny Depp («Sweeney Todd») e George Clooney («Michael Clayton») parecem muito mais fortes. Seja como for, podemos apostar que «No Vale de Elah» vai ficar como uma referência clássica dos últimos estertores da época Bush. Esta é a história de uma América que não tem medo de olhar para as suas feridas interiores.


Daniel Carrapa
No Vale de Elah é um filme marcado por um aparente realismo linear, distante do sentido de fábula da anterior realização de Paul Haggis, o mais popular Crash. A linearidade crua da história de um velho veterano de guerra que parte em busca do seu filho desaparecido, um jovem acabado de regressar de uma comissão militar no Iraque, vai a pouco e pouco revelando uma dimensão mais profunda dos efeitos da guerra no interior da América. Estamos perante um olhar sobre a guerra como palco de desumanização, de uma perda de identidade processada no interior de cada um em nome da sobrevivência no território mais hostil. Existe assim uma dimensão política neste filme que foi grandemente menosprezada, ou em certos casos negativamente criticada. O filme de Haggis acabou por ter uma recepção afligida por alguns mal-entendidos, pois que não estamos perante uma obra que se reduza a interpretações unilaterais da guerra, da sua justeza ou ilegitimidade, do bem e do mal. Aquilo a que Haggis se propõe é devolver um olhar cinematográfico da complexidade da guerra enquanto processo transformador – e devastador – do que podemos tomar como um sentido de humanidade.

O cinema de guerra sempre foi palco de reflexão sobre a natureza humana perante o seu limite. Em O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg, um grupo de soldados americanos detém um soldado alemão após um ataque a um posto de radar. Na impossibilidade prática de transportar consigo o prisioneiro, a unidade americana vê-se na contingência de optar entre a sua libertação ou execução. Os soldados acabam por tomar posições opostas, em particular pela insistência de um jovem menos experiente em impedir a execução sumária do prisioneiro por ser contrária às regras da guerra, explicitadas pelas convenções de Genebra.
Este extraordinário episódio, quase secundário na narrativa, acaba por tornar-se um dos seus momentos capitais. Estamos perante a evidência do absurdo da guerra, ou melhor, do cenário de guerra, enquanto palco de negação de civilização. Um lugar onde, afinal, a negação de elementares regras de humanidade podem fazer sentido.

Ainda que este episódio do filme de Spielberg não tenha paralelo directo com No Vale de Elah, talvez seja pertinente estabelecer alguma relação. Paul Haggis mostra-nos o regresso a casa de jovens soldados que conheceram esse outro mundo, do choque entre a sobrevivência no limite do irracional, no lado de lá, e a normalidade racional esperada a esses mesmos homens no lado de cá. Haggis, aliás, leva-nos à guerra não na sua dimensão narrativa – como faz Spielberg – mas pelo filtro corrompido de pequenos vídeos gravados em telemóvel, cujo sentido se reconstrói no olhar daquele pai. Estará aqui toda uma dimensão de olhar sobre uma linguagem de guerra, também expressa no seu sentido televisivo, da guerra em directo, com toda uma distorção que é também narrativa da sua própria verdade.

Em conclusão, reitero as palavras do primeiro comentador para salientar a capacidade deste belo filme em transcender o seu sentido linear para se tornar “grandioso na complexidade”. Destaque essencial para a representação crua e extraordinária de Tommy Lee Jones e uma muito grande Susan Sarandon, elevando bem alto o seu papel “secundário”.

Daniel Carrapa
abarrigadeumarquitecto.blogspot.com


Joaquim Lucas
NO VALE DE ELAH

«No Vale de Elah» não é apenas mais um filme sobre a guerra nem o Iraque se revela aqui como o novo filão do cinema norte-americano na cicatrização das feridas que conflitos militares desta natureza sempre provocam nas sociedades que os vivem. De facto, existe um novo fantasma na sociedade norte-americana que Paul Haggis (ele que realizou «Crash» em 2004) não tenta exorcizar mas que explora na plenitude, nomeadamente através da personagem de um actor em estado de graça, Tommy Lee Jones: a verdade sonegada e, em paralelo, a busca dessa verdade.

Hank Deerfield (Tommy Lee Jones) é um veterano da guerra que é confrontado com o desaparecimento do filho no seu regresso do Iraque para a base nos Estados Unidos. Deerfield recusa que o filho seja um desertor e parte em sua busca. Daqui para a frente as imagens confrontam-nos com acontecimentos mal explicados – designadamente a descoberta da morte horrível do filho de Deerfield – perante a absoluta indiferença da polícia local e os obstáculos colocados pelos militares. Haggis, que também co-escreveu o argumento, inventa então uma detective (Charlize Theron) com rabos-de-palha na ascensão que teve na carreira mas que se voluntariza no apoio à investigação de um pai a tentar descobrir o que realmente aconteceu com o filho. Mas esta, a introdução da detective na intriga, é uma história colateral desnecessária para o que efectivamente sucede na trama. Bastava que a câmara de Haggis se dedicasse quase em exclusividade ao one man show protagonizado por Tommy Lee Jones cuja espessura dramática da personagem a par da interpretação contida mas irrepreensível do actor, são na verdade o tesouro mais precioso que o filme nos oferece.

Ainda assim, «In the Valley of Elah», no seu título original, é uma interessante proposta fílmica se esquecermos igualmente o desfile de personalidades do cinema como Josh Brolin, Jason Patric e Susan Sarandon cuja presença no elenco mais não visou que apelar à ressonância do nome próprio de cada um. Eu, pelo menos, não os vi por lá ou quando os vi vi-os mal (Sarandon).


NO VALE DE ELAH, de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones e Charlize Theron

Classificação: ***


Joaquim Lucas


Ana Paula Ribeiro
Grande filme de Haggis. O vale de Elah é o local mítico onde David teve a coragem de derrotar Golias. Coragem, honra e justiça, é o que a personagem de Tommy Lee Jones lamenta não existir nos jovens formatados que foram combater no Iraque. O filme retrata os efeitos catastróficos na personalidade dos soldados norte-americanos que vão de encontro a uma guerra tão desnecessária. Os soldados que voltam e que se encontram profundamente adulterados devido aos esquemas mentais que criaram para conseguirem suportar um cenário de guerra acabam por originar um prejuízo extremo para a sociedade americana. É o que acontece ao filho da personagem de Tommy Lee Jones, sendo este último a personagem central no filme numa excelente interpretação, que passa de um ex-militar orgulhoso a um americano desiludido quer com o que está a acontecer a todos os jovens que voltam (incluindo o seu filho) quer com a falta de interesse da sociedade nesse sentido consequentes tentativas de abafar e minimizar a questão. A sua desilusão culmina na cena da bandeira americana ao contrário em sinal de estado que necessita urgentemente de ajuda. Charlize Theron interpreta uma mulher polícia no meio de homens que não lhe dão qualquer crédito. Charlize associa-se a Tommy Lee Jones na busca da verdade relativamente ao filho militar desaparecido. Susan Sarandon é a mãe com a sua vida destruída à custa dos dois filhos desaparecidos.
No Vale de Elah é um filme que não foi muito comentado devido à sua vertente política. É um filme que toda a gente deveria ver.



Paulo Ferrero
Para quem tinha dúvidas sobre qual dos dois Haggis era mais valioso, se o argumentista se o realizador, «No Vale de Elah» não veio acrescentar nada de novo, ou seja: Paul Haggis é tão bom num como noutro estatuto. De facto, neste filme que muitos crêem ver um filme manifesto anti-Bush 100%, ou um filme de intriga simples sobre quem matou quem, e porquê; o que realmente importa é ver a psicanálise das personagens levadas ao ‘divã’ de Haggis. É na força da ‘consulta’ que o filme resulta. E nas encruzilhadas da vida, que, mais uma vez, parecem ser o ‘leit motiv’ de Haggis. Nisso e numa sobriedade a todos os níveis: realização, fotografia, interpretações, etc. Além disso, é um filme discreto.

Cine-Australopitecus


Carlos Figueiredo em filac.blogspot.com  
Recentemente foi transmitido na RTP 2 um excelente documentário sobre os tristes eventos ocorridos na prisão de Abu Ghraib, onde soldados norte-americanos torturaram cidadãos iraquianos, muitos deles inocentes. As fotografias e vídeos humilhantes que correram o mundo relembraram-nos que, independentemente da época ou do conflito em questão, a espada de Damócles do desrespeito dos direitos humanos pende sempre sobre a cabeça daqueles directamente envolvidos num acto de agressão. Como se afirmava nesse portento artístico que é “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg, a guerra traz sempre ao de cima o pior que há em nós. No seio do caos bélico, o Homem está submerso na loucura da destruição mútua que cobra as suas vítimas visíveis no campo de batalha, mas também muitas invisíveis cuja psique fica para sempre afectada.
É sobre tudo isto que “No vale de Elah” se debruça de forma aterradora, numa incursão nos abismos da alma e das relações familiares, nas verdades escondidas e palavras nunca ditas. Baseando-se na história real de um soldado que foi assassinado em 2003 depois de regressar do Iraque, Paul Haggis compôs um drama de guerra visto na perspectiva de um pai atormentado (Tommy Lee Jones) que procura a verdade sobre o desaparecimento e morte do seu filho. A viagem que aí se inicia leva-o até ao coração das angústias desta América do século XXI, no frágil equilíbrio entre o respeito pelos poderes do governo federal e a enorme dúvida que emana de um conflito mal justificado junto da opinião pública e, principalmente, dos soldados na frente de combate. Como único aliado terá apenas uma agente policial (interpretação sólida de Charlize Theron), uma mulher que enfrenta diariamente as pressões misóginas dos seus colegas numa esquadra de província e que trabalha aqui no caso mais importante da sua carreira. Revelar mais sobre a história do filme seria destrutivo. A narrativa está construída de forma hábil para nos conduzir de revelação em revelação, permitindo-nos compartilhar a mudança gradual na perspectiva que o personagem central tem do seu filho e, por extensão, do seu país.
Haggis é um dos argumentistas mais respeitados de Hollywood e logo na sua primeira experiência como realizador, com”Colisão”, conquistou o Óscar de melhor filme. O seu talento sai confirmado neste filme, que dirige de forma confiante e eficiente, sem grandes artifícios visuais, cingindo-se sempre ao essencial do guião do qual também é autor, confirmando-se como um dos grandes pintores da paisagem psicológica e social da América contemporânea.
Tommy Lee Jones, por seu turno, confere à sua personagem uma autenticidade fenomenal, expressa em momentos chave do filme. A forma metódica como faz a sua cama de hotel, o modo acanhado como lida com uma empregada de bar de alterne ou o momento em que, ao passar perto de uma escola, chama a atenção de um salvadorenho que distraidamente içou a bandeira americana ao contrário, tudo apontando para uma personalidade retraída, controlada, fruto de uma vida militar. Idiossincrasias de um verdadeiro patriota, cuja dedicação é posta à prova quando confrontado com a rigidez burocrática dos investigadores oficiais, deparando-se com a realidade turva dos acontecimentos que rodearam a presença do seu filho no Iraque e com a mente perturbada dos membros daquele batalhão recém-regressado.
Vêm à tona as dolorosas memórias da guerra do Vietname, numa época conturbada da história dos EUA em que a sociedade nunca compreendeu o real significado dum conflito tão distante no espaço e também na forma desinteressada, repulsiva até, com que os soldados eram tratados no seu regresso. Um fantasma que ecoa nesta nova guerra, uma ferida aberta onde "No Vale de Elah" põe o dedo de forma precisa, expandindo a sua significância muito para além do género dramático ou policial (onde cumpre perfeitamente a sua função) e estabelecendo-se nessa rara categoria de filme-mensagem, politicamente comprometido com certeza, mas revelando essencialmente uma preocupação sincera com o estado da nação. Num glorioso momento final Tommy Lee Jones leva a bandeira americana desgastada que o seu filho lhe enviou do Iraque e iça-a de cabeça para baixo naquele mesmo mastro junto à escola. Como explica, isso representa um sinal internacional para pedido de auxílio em tempos difíceis. Neste maravilhoso filme é um metafórico pranto de ajuda por um país que parece já não saber cuidar dos seus filhos.


Filipe Jac
O filme é razoável, mas não impressiona,não vislumbra, não emociona o expectador, é quase um documentário de um pai numa cruzada justa em busca da Verdade. O direito à Verdade é o tema do filme.


Alex Aranda
Em Nome do Filho

Não descartem já Tommy Lee Jones da corrida para o Melhor Actor, nos Óscars 2008. A sua interpretação é das mais sentidas, dolorosas, intensas e raivosas que vi em muitos anos. Jones junta-se aqueles actores (como Clint Eastwood, Harrison Ford, Sean Connery, acrescidos de outros ícones do cinema, mas que já não estão vivos) aos quais se aplica a “regra” do Vinho do Porto – quanto mais velho, melhor.
Tal como no brilhante “Gone Baby Gone”, este “In The Valley of Elah” também usa uma narrativa policial clássica (um pai tenta saber porque morreu o seu filho e quem o matou) como plataforma para uma intensa história humana, aliada a uma reflexão sobre o “estado da nação” face ao conflito no Iraque.
Haggis sai-se impecavelmente nos dois registos. A narrativa de mistério prende a atenção devido aos meandros sempre fechados do sistema militar americano. Mas é a componente humana que mais toca no espectador. Sente-se a dor e raiva daquele pai. Sente-se a dor de uma nação cujas feridas já se alastram por toda ela, num conflito, anda que silencioso, já chegou aos USA. A guerra não é só tiros e explosões. As vítimas não são só aqueles que morrem. Haggis e Jones demonstram bem isso e fazem com que este comovente “In The Valley o Elah” seja um dos mais implacáveis filmes sobre o “estado das coisas” desde que começou o conflito.
O fantástico plano final mostra bem isso (embora o seu impacto e compreensão só funciona em complemento com a sequência, no início do filme, onde o personagem de Jones dá a explicação para aquilo que se vê no final) e vale mais que muitos comentários de especialistas, reportagens, debates, moralismos.
No Vale de Elah, David derrotou o gigante Golias com uma fisga e umas pedras. Hoje, os USA estão cheios de Vales de Elah. Se os USA são o David, estão a ser bem esmagados por gigantes (que se presumiam serem minúsculos) e vão precisar de muitas fisgas, pedras e até muitos Davides. Se são o Gigante, então a história/metáfora/parábola contada no filme pelo personagem de Jones continua actual.
Provavelmente, até ao momento, o filme mais imprescindível do ano.
Não me limitei a estar na sala como espectador. Senti todas as emoções presentes no filme. Quando tal acontece, o cinema é (também) uma emoção.


A. Ovídio
Nem que fosse por este aspecto o filme já teria mérito: acho que é a primeira vez em cinema ou televisão que vejo imagens de telemóvel que são efectivamente de baixa resolução, com drops e pixelizadas, que demoram a fazer download e programas de computador que parecem programas a sério, com janelas a sério e não animações psicadélicas. E isto utilizado de uma forma tão inteligente quanto sincera: a vaga indefinição dos videos do telemóvel adensam o mistério e apontam pistas falsas, enquanto que o tempo de download cria suspense e potencia a ansiedade do Pai.
Mas para além deste fait-diver, In the valley of Elah, na sua subtileza, no seu ritmo contido, e no terrível mal-estar sociológico que vai descobrindo, surge como um dos mais viscerais e profundos manifestos anti-guerra dos últimos tempos. Até o desencantado plano final desmonta os clichés habituais, e onde o realizador deveria fazer erguer a bandeira americana para se redimir, para mostrar que ainda há salvação, que esta guerra e esta administração são sujas mas que Deus proteje a América, e que ele é anti-Bush mas não anti-americano, nessa altura... surge o plano final, em que nem há o conforto de um cliché para salvar o realizador, os personagens, ou o espectador. Os americanos levaram a guerra ao Iraque em grande escala, mas agora trouxeram-na de volta para casa. Bocadinho a bocadinho... metástese a metástese.


Cataclismo Cerebral
A Verdade Escondida

Os recentes filmes sobre a estratégia militar norte-americana têm-se pautado por uma inteligência fora de série, conseguindo escapar aos terrenos banais do mero panfleto e ilustrando a dimensão humana nas suas mais variadas facetas. O novo filme do realizador e argumentista Paul Haggis (que se está a revelar uma força imparável no seio da indústria cinematográfica de Hollywood) é um bom exemplo da tentativa de reinvenção do cinema político que singrou na década de 70. Este drama intimista relata a inquietação de um casal que desconhece o paradeiro do filho, um jovem soldado chamado Mike Deerfield, que esteve em missão no Iraque e que entretanto regressou aos EUA. Após a junta militar de Mike lhe atribuir o estatuto de desertor, o seu pai, um militar na reforma, intervém e parte em busca dele, contando apenas com a ajuda de umas enigmáticas imagens de telemóvel captadas em terreno iraquiano e com o apoio de uma detective da polícia, Emily Sanders.


Em vez de ir para o local de guerra filmar os traumas in loco, Haggis concentra a sua atenção nas consequências que tal contexto cria nos seus intervenientes directos e, acima de tudo, indirectos. Acontece que "In the Valley Of Elah" destaca-se de outros filmes desta índole pelo facto de estar mais preocupado em captar as tragédias pessoais que ocorrem fora da esfera de acção previsível, ou seja, o cenário iraquiano. Na verdade, a lente do realizador incide sobre o casal Deerfield e Emily Sanders, os elementos que a passo e passo vão descobrindo os fantasmas de uma guerra que está longe de atingir o ponto do cachimbo da paz . O filme é muito perspicaz na forma como vai extravasando universos: começa-se a gerar na intimidade do núcleo familiar, rapidamente passa para o meio militar, depois alcança o painel de guerra no Iraque e finalmente retrata a actual mentalidade reinante nos EUA, aliando a toda esta metamorfose a questão da desumanização/humanização e a passagem biblíca que contempla David e Golias (que é um dos seus temas centrais).


"In the Valley Of Elah" é corajoso e sóbrio, não receando demonstrar o caos que se tornou a política de intervenção externa de George Bush e, nesse sentido, é uma obra que faz um resumo do trabalho do ainda Presidente. Uma das forças fundamentais para o sucesso do filme está no talento dos actores, excelentes nos tempos dramáticos e formando um todo bastante coeso que renega o choradinho. Temos então Tommy Lee Jones, magnífico na pele de ex-militar e pai rígido que ultrapassa tudo e todos de cabeça erguida, mas deixando escapar a mágoa, a culpa e a exaltação interior que o incomodam; Susan Sarandon fabulosa como sempre, com os seus olhos expressivos a revelar um mundo de dor que não lhe é novo; e ainda o poder vital de Charlize Theron, no papel da oposição a um sistema dominante e na representação ideal das mães dos novos filhos da América.


Claramente um objecto anti-guerra, não se pode dizer no entanto que "In The Valley Of Elah" seja anti-americano. Longe disso. Repare-se então no poder simbólico da bandeira americana ao contrário: o que está ali é a expressão do amor a um país que enfrenta um forte conflito de ideais e que precisa urgentemente de "ajuda". Confesso que não encontro visão mais política e redentora do que esta.

José Simão
http://www.cataclismocerebral.blogspot.com


Marta Estácio da Veiga
Este filme acorda qualquer um que AINDA ande adormecido! Muito bom a passar mensagem.Gostei imenso.


Pedro Ramalhete
Crash era sim um bom filme, In The Valley Of Elah é um filme banalíssimo com uma forte e excelente interpretação de Tommy Lee Jones e uma perfeita realização de Haggis. Tirando isso o filme não vale nada de nada.


www.grandesplanos.blogspot.com
Esta película pertinente e actual, marca o regresso de Paul Haggis à realização, após os oscars e o sucesso de Crash. Tommy Lee Jones num registo dorido e em subtil underacting, tem um forte papel no personagem do ex-militar que procura descobrir o que aconteceu ao seu filho recem chegado do Iraque. Durante a sua investigação, irá ser auxiliado por uma civil, interpretada por Charlize Theron. Os dois irão descobrir uma verdade inesperada e assustadora que irá pôr em causa todas as suas convicções.

A inicio, In The Valley of Elah, parece situar-se em terrenos semelhantes ao magnífico Missing (o execelente thriller político assinado em 82 por Costa-Gavras). Más após a primeira parte, já sabemos o que aconteceu ao militar desaparecido. A questão torna-se descobrir o que causou aquela tragédia. E é nesse processo de descoberta, que se encontra a riqueza deste filme. Se de início, há insinuações de um possível “cover-up” por parte dos militares, o inteligentíssimo guião de Paul Haggis, acaba por renegar esse lugar-comum e começa a trocar as voltas ao espectador, habituado aos clichés típicos neste género de filme. Haggis encontra-se muito mais interessado numa humanização (ou desumanização) dos seus personagens. O mistério que realmente lhe interessa, é descobrir o porquê das consequências que as guerras têm nos seus intervenientes. Esse é o verdadeiro mistério, deste filme algo surpreendente.

A fotografia de Roger Deakins (este ano com duas nomeações) valoriza bastante o trabalho de Haggis, com composições originais e eficazes, que reforçam o tom de justeza da narrativa. Haggis dirige com mão segura os belíssimos actores ao seu dispor. A haver reticicencias nesse capítulo, elas cairiam no papel algo superficial de Charlize Theron, que peca por ser um pouco sub-desenvolvido. Mas no geral não é nada que prejudique esta inteligente longa-metragem com tons anti-belicistas, que acaba por levantar mais perguntas, que respostas.

Em suma In The Valley of Elah vem comprovar o talento imenso de dois senhores: o primeiro de seu nome Paul Haggis como um dos mais talentosos e originais guionistas de Hollywood. O segundo de seu nome Tommy Lee Jones, comprava simplesmente o porquê de ser um dos maiores actores da actualidade.

Luís A.


Roberto Fernades
Bom filme.

Já vi melhor por parte do T. Lee Jones e da Charlize Theron mas penso que o Paul Haggis quis mesmo foi mostrar as fraquezas do sistema americano e as consequencias de uma qualquer guerra seja ela onde for.


Andre Bianchi
Apenas numa palavra: Grandioso!

Filme sobre os traumas da guerra, quem nela participa ou por ela é envolvido, directa ou indirectamente e quem por ela é transformado; sobre ideais e a sua mutação; sobre a natureza humana na plenitude da sua complexidade.

E porque o autor não se cansa de o dizer, Grandioso na complexidade e densidade imbatíveis do argumento, nas interpretações memoráveis de T. Lee Jones e de C. Theron [nos melhores desempenhos das respectivas carreiras] bem como do restante elenco, na realização subtilmente segura e consistente de Haggis, enfim...a pura demonstração de que tudo o que é subtil é, sem margem para dúvidas, manifestamente mais marcante quando bem conseguido!

Ressalva: a 2ª grande [relativa] ausência dos óscares deste ano - conjuntamente com INTO THE WILD


     
 

Deixe um comentário:

Nome:

Introduza aqui o código que aparece em baixo:


 
Classifique o filme: