Cristóvão Colombo — O Enigma

Título original: Cristóvão Colombo – O Enigma
Título (Brasil):
Realização: Manoel de Oliveira
Intérpretes: Ricardo Trêpa, Manoel de Oliveira, Leonor Baldaque, Maria Isabel de Oliveira, Luis Miguel Cintra
Portugal/França, 2007
Estreia: 10 de Janeiro de 2008


João
Lopes
Média dos
Espectadores
   
 
Emigrado para os Estados Unidos por vontade de seu pai, nos anos 40, Manuel Luciano volta a Portugal para estudar. Regressa aos EUA já formado em Medicina e, apaixonado pela investigação histórica, embrenha-se no mistério da verdadeira identidade de Cristóvão Colombo. Em Portugal, casa com a jovem Sílvia Jorge. Na companhia de Sílvia, Manuel percorre, em Portugal e nos Estados Unidos, os locais ligados aos Descobrimentos portugueses, procurando desvendar o mistério que o inquieta desde a sua juventude.

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* Manoel de Oliveira, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque e Luis Miguel Cintra no Cinema2000.


João Lopes
O texto seguinte foi publicado pelo jornal Diário de Notícias a 12 de Janeiro de 2008, com o título `Oliveira entre ficção e documentário`.

Em Portugal, uma das formas mais mesquinhas de cinismo cultural (ou de uma cultura do cinismo) consiste em denegrir o cinema de Manoel de Oliveira por causa da “longa” duração dos seus filmes. Em boa verdade, qualquer uma das suas últimas quinze (insisto: quinze!!!) longas-metragens é mais curta que qualquer título da saga de Harry Potter. O certo é que há um “estilo” muito português que confunde a difamação com a perspicácia. Esperemos, sobretudo, que a estreia de «Cristóvão Colombo – O Enigma» não seja acompanhada desse vergonhoso “desporto” social praticado pelos que confessam nunca ter visto um filme de Oliveira, mas sabem tudo sobre o que neles acontece... E, já agora, aqui fica uma informação muito objectiva: «Cristóvão Colombo – O Enigma» dura 75 minutos.

Estamos perante um exercício de deambulação histórica (entenda-se: através da história de Portugal) que tem como ponto de partida um casal verídico: Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva, cujos estudos defendem que o navegador Cristóvão Colombo (1451-1506) era de origem portuguesa e, mais do que isso, que a sua descoberta do continente americano foi feita ao serviço do rei D. João II.

Oliveira filma o jovem casal, interpretado por Ricardo Trêpa e Leonor Baldaque, como um par que constrói um universo conjugal entrelaçado pelo seu próprio gosto pelos enigmas da história de Portugal e, mais do que isso, por aquilo que seria a sua grandeza esquecida (ligada à época dos Descobrimentos). Mas, a certa altura, o filme apresenta-nos o casal num presente em que tudo se toca e confunde. Desde logo porque as memórias dessa grandeza se cruzam com lugares e referências da nossa contemporaneidade; mas também porque os intérpretes da actualidade são... o casal Oliveira: Maria Isabel e Manoel de Oliveira falam da história portuguesa e, mais do que isso, dos mistérios do amor, por assim dizer transformando «Cristóvão Colombo – O Enigma» num objecto de sedutora ambiguidade, uma “ficção documental” sobre o próprio presente.

Não é, obviamente, a primeira vez que Oliveira cede à “tentação” autobiográfica. Para nos ficarmos pela referência mais directa, lembremos «Porto da Minha Infância» (2001), filme cujo título resume todo um programa narrativo e simbólico. Trata-se de desafiar as fronteiras convencionais entre “ficção” e “documentário” para reafirmar o cinema como exercício de fascinante duplicidade: uma observação metódica do real mais palpável e, ao mesmo tempo, uma derivação poética para os mundos imaginários em que se enraíza a nossa identidade individual e colectiva.

De facto, semelhante atitude criativa está presente na filmografia de Oliveira desde o seu título fundador, «Douro, Faina Fluvial» (1931), exprimindo-se em momentos tão diversos como «Acto da Primavera» (1963), «A Caça» (1964) ou «Viagem ao Princípio do Mundo» (1997). Oliveira é, afinal, um genuíno experimentador que não pára de questionar as fronteiras materiais e expressivas do próprio cinema. É isso que lhe confere também a sua modernidade.


Miguel Domingues
O cinema português nunca foi especialista em tomar o presente como ponto de partida. É certo que nos últimos anos tem havido tentativas de o fazer, em filmes como A Passagem da Noite (Luís Filipe Rocha, 2003), Lá Fora (Fernando Lopes, 2004) e até Call Girl. Na actualidade, cineastas como Pedro Costa, João Canijo ou até, indo um pouco mais atrás, João César Monteiro, mesmo aflorando a contemporaneidade, sempre foram mais especializados em pôr na tela o seu próprio tempo, mesmo que para isso se inspirem amiúde em temas da actualidade (as casas de alterne em Noite Escura ou as vidas dos descendentes de africanos nas Fontainhas de Ossos).

Manuel de Oliveira partilha parte destas características. As suas adaptações de livros de Agustina Bessa-Luís, centradas numa “burguesia aristocrata” portuense, que, pessoalmente, tenho dificuldades em ter como real, representam o seu tempo pessoal, independentemente de quaisquer caracteres de verosimilhança. Contudo, a obra do nortenho tem sido das mais inteligentes e mais pródigas em utilizar e desconstruir a história portuguesa no nosso meio audiovisual. Lembre-se, por exemplo, Non ou A Vã Glória de Mandar (1990), um dos mais inventivos retratos da história portuguesa, partindo das derrotas para chegar ao âmago nacional, ou A Caixa (1994), deliciosa destruição das comédias dos anos 1940 enquanto objecto de propaganda.

Chegados, então, a este Cristóvão Colombo – o Enigma, custa ver Oliveira como um perpetuador dos mitos sebastianistas, uma luminária da saudade e da eventual glória de um qualquer V Império. E é ainda mais difícil tendo em conta que pouca gente (ninguém?) filma, em Portugal, tão bem como Oliveira. Sóbrio, conciso e austero, o referido filme tem óptimos momentos de cinema, e, como afirma o LMO, é excelente no ultrapassar das dificuldades inerentes à reconstituição de época (o soberbo nevoeiro que esconde a chegada à Nova Iorque dos anos 1940). Sobretudo, é um objecto escorreito, onde não há planos a mais e de um enorme rigor geométrico.

Mas tudo isso é contraposto pelo discorrer das glórias portuguesas do passado, num fluxo de passadismo que se torna francamente irritante se comparado com o que o país é hoje. Oliveira mostra ser um dos que, inebriados pela grandeza de um passado, tapa o presente e coloca mais um prego no caixão do futuro. A própria ideia de que Cristóvão Colombo era português, mais do que um exemplo de revisionismo histórico, representa uma imersão umbiguista no passado dos Descobrimentos. Ninguém nega os aspectos extraordinários, quase inumanos da epopeia; o problema é, para onde se quer olhar 500 anos depois. Oliveira olha para trás, como aliás é costume neste país.

Não deixa de haver outra possibilidade de leitura, também avançada por LMO: até que ponto este não é o filme sobre a perseverança da investigação, sobre o seguir das obsessões? E, inclusivamente, até que ponto não é este um filme sobre Oliveira e a sua esposa, escolhidos para interpretar os papéis dos investigadores? Não nego estas possibilidades, mas se assim for, mais uma razão para que toda a verborreia nacionalista fosse retirada. Juntamente com aquele piroso “anjo português”, de preferência. Semelhante escolha tornaria este filme mais um olhar para dentro do cineasta, e menos um olhar para dentro de uma bandeira. Seria, por outras palavras, mais humano e menos propaganda.

www.limitationoflife.blogspot.com


     
 

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